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Querido José Barata.

Com aquela liberdade que os jornalistas gostam de exibir, aproveito o correio de hoje para revelar que o meu verdadeiro nascimento ocorreu em 1971, quando cheguei a Coimbra e tive a sorte de inscrever-me no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC) .

Nasci já tinha quase 18 anos, no dia 4 de Novembro de 1971, uma quinta feira, quando, ainda sem aulas no primeiro ano de Direito, descobri que o TEUC ensaiava numa das salas da própria faculdade e tinha inscrições abertas.

A viver na solidão de um quarto arrendado, sem conhecer ninguém em Coimbra, ter descoberto o TEUC foi uma salvação. Ainda hoje recordo a inesquecível frase que estava pichada numa das paredes da sala de ensaios – “avalia-se um homem pela natureza dos factos que o aborrecem”.

Nesse ano, entrei na pantomima “Mel, Pastel e um Boneco de Papel”, que o Manuel Guerra repunha. No ano seguinte, representei o papel de Woyzeck, na peça homónima de George Buchner, encenada por Julio Castronuovo. Em 1973 “morria” no Asno, peça encenada pelo Fernando Gusmão, sem perder o “nickname” Roldeck que me foi atribuído pelo João Seiça Neves, companheiro da matulónica República para onde entretanto me mudara.

O TEUC foi a minha primeira grande escola. Fui um dos que aguentaram o grupo na vertigem da passagem do testemunho do antes para o depois do 25 de Abril, marcado pelo teu regresso ao TEUC, meu querido José Barata, como encenador. Entrei, como te recordas, na peça de agitprop “Portugal com P de Povo”, onde assumi o papel de ilusionista Frank Cartucci (nome que sugeria o do embaixador dos EUA Frank Carlucci) e fingi ser o João das Regras na “Arraia Miúda”, dois grandes trabalhos teus.

É verdade que não terminei a licenciatura em Direito. É verdade que, entretanto, “escolhi” ser jornalista (a opção mais próxima das artes performativas e do espectáculo para a qual me sentia com coragem), mas foi no Teatro, no caso no Teatro Universitário, que me formei. Com muitas ajudas e professores muito bons, entre os quais estás tu, querido mestre, e também o Adolfo Gutkin, que ainda não tinha recordado pois nunca entrei num espectáculo dele, embora tenha trabalhado com ele muito de perto.

Na Universidade de Coimbra, as artes plásticas e performativas sempre foram mais informais do que formais mas nem por isso deixaram, ou deixam, de ser importantes na formação dos universitários que as integram nos respectivos currículos.

Com grande amizade

Júlio Roldão

P.S. O postal é uma fotografia da peça “Portugal com P de Povo”.

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