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Meu caro jovem

Inspirado na edição, gratuita até em papel, dos 30 anos de um moderno jornal diário, saída há quase um ano, resolvi mandar-me este postal imaginando que a minha experiência de 67 anos, consciente ou inconsciente, talvez possa compor a memória do futuro que tinha quando tinha 30 anos e preparava algumas mudanças na minha vida – o passado é tão incerto quanto o futuro.

Não é a primeira vez que envio um postal a mim próprio mas é a primeira vez que que o faço em 2021 para ser lido quando eu andava nos 31 anos, em 1984, no ano em que saí de Coimbra e fui para o Porto. Pude escolher entre Lisboa e o Porto e escolhi o Porto. Nunca saberei o que teria acontecido se tivesse escolhido Lisboa, a cidade da luz boa.

Tinha trocado Direito e Teatro pelo Jornalismo, era pai, demasiado ausente, e ainda nem sonhava deslumbrar-me com as artes plásticas – apenas ensaiava caminhos de militância cívica no Jornalismo não sabendo, então, que outros já tinham tentado renovar a profissão com um movimento, ancorado em técnicas da escrita literária, a que chamaram de “Novo Jornalismo”. Mantinha o sonho (que suporta tantos jornalistas) de me fazer escritor.

Quase dez anos depois, em Março de 1993, sob o pseudónimo de João Rita, escreveria, num mensário a que muito me dediquei, um “manifesto triste de guerrilha jornalística”, bebendo muito do que dizia o poeta italiano Nanni Balestrini, isto é, que a Poesia faz mal, mesmo não havendo nunca ninguém disposto a acreditar nisso. Nesses momentos, apostamos muito no valor da dúvida e na emergência da dissidência.

Aquele meu poema “Clepsidra, meu amor” e os meus marcadores de livros que sonham ser livros ainda vinham longe. Ainda teriam de esperar uma árida travessia, como ghostwriter (escritor fantasma), a escrever, sem muitos preconceitos ideológicos, discursos, artigos para jornais e outros textos encomendados, quando não quase ditados, por clientes que pagavam razoavelmente esses trabalhos sem identidade.

Dois anos mais tarde, nas presidenciais de 1986, a escolha do presidente obrigará a uma segunda volta. Na primeira, a 26 de Janeiro, faz amanhã 35 anos, nenhum candidato obteve a maioria dos votos expressos – tu irás votar, na segunda volta, em Mário Soares, candidato que vencerá Freitas do Amaral por escassos 140 mil votos, num universo de quase seis milhões de votos. Uma vitória, à segunda volta, por uma diferença de votos ao alcance do marketing político, mesmo sem as cibernéticas redes sociais.

Vamos, depois, cair na tentação de deixar que o ideológico se sobreponha ao prático, e vamos esquecer a pedagogia necessária para que a realização dos objectivos do 25 de Abril possa concretizar-se. A consciência social reclamada não se impõe e as liberdades cívicas de que nos orgulhamos podem deixar de ser bandeiras colectivas se não houver melhorias concretas para todas as pessoas, principalmente para os mais carecidos.

Quer queiramos quer não também somos culpados pelo estado, lamentável dizemos sempre, a que tudo isto chegou ou pode chegar. Mando-te a tua caricatura desenhada não sei por quem nem quando. Seguramente nos teus 3O anos.

Teu envelhecido amigo

Júlio Roldão

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