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Cara Federica Cacciola

Li, deliciado, na edição online do jornal “Domani” do passado dia 9 de Fevereiro, um artigo seu a recomendar cinco passos simples para se sobreviver a uma crise governativa como aquela que recentemente marcou, e talvez ainda marque, a vida política em Itália.

Fiquei preso à leitura desse texto quando a Federica começa a dizer que um governo é como uma administração de um condomínio: instituição que só reconhecemos existir quando nos chega a carta a reclamar a nossa contribuição monetária ou quando falta a luz num espaço de utilização colectiva.

Ainda no exemplo do condomínio, lembra a Federica que é possível que a falta de luz no espaço de utilização colectiva obrigue a uma substituição urgente do quadro eléctrico, urgência que pode justificar a contratação do primeiro electricista disponível, quase sempre um amigo de um primo de um dos administradores do condomínio.

Reposta a luz artificial, nós, zeros absolutos em matéria de electricidade, vamos dizer mal quanto baste da administração do condomínio, tal como o fazemos relativamente aos governos, instituições que a Federica tão bem define como “seres, metade humanos, metade fax de escritório dos anos noventa” cuja burocracia nos irrita quase até ao desespero.

Daí a importância dos seus conselhos para que cada um de nós sobreviva feliz a uma crise governativa como a que a Itália viveu recentemente. Todos eles, reconheço, são importantes, mas o primeiro é absolutamente indispensável – evitar os telejornais. Todos os telejornais, os da manhã, os da hora do almoço e sobretudo os da hora do jantar.

É o que faço em Portugal, mesmo sem crises governamentais. Só espreito as notícias ou os comentários que alguns amigos, insistentemente, me aconselham: com as novas tecnologias televisivas podemos recuperar emissões com, pelo menos, uma semana de atraso, e ver apenas o que especificamente nos interessará.

Em Itália, onde tenho suportado a crise política à espera de um voo para Portugal, compro todos os dias jornais em papel que recorto para repaginar recortes escolhidos num exercício plástico executado com aquela matriz de mosaico tão ao estilo da informação televisiva.

O postal que lhe envio é um desses exercícios feito há dois dias com base na edição, em papel, do “La Verità” – um belo nome para um jornal. “Quid est veritas?”, como pergunta o jornal, em latim e no cabeçalho. 

Júlio Roldão

(vecchio giornalista portoghese)

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