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Meu querido Rui

Antes que me esqueça, quero perguntar-te se sabes quantos lá lá lás tem a letra da “desfolhada”, a canção com que Simone de Oliveira ganhou o Festival RTP da Canção em 1969? É para uma ateima. Uma ateima? Uma ateima é uma espécie de sabatina a dois, uma aposta que exige um árbitro independente.

No Jornal de Notícias fiz tantas vezes de árbitro de ateimas. As ateimas apareciam mais às sextas e aos sábados à noite. Dois maduros teimosos apostavam e a decisão final era pedida ao JN, ou seja a quem os telefonistas do jornal passavam a chamada – “o senhor desculpe, mas é capaz de dizer em que ano morreu o Salazar?”. Claro que foi em 1970. 

Ter memória, ter boa memória é importante. A memória faz também parte da receita que torna as mais recentes edições dos Festivais da Canção da RTP em programas televisivos de enorme impacto. Eu ainda me lembro de uma canção de 1970 que não ganhou o festival da RTP e que nem iria à Eurovisão se tivesse ganho pois nesse ano a RTP decidiu não concorrer à Europa – a “Canção de Madrugar”, de Ary dos Santos e Nuno Nazaré Fernandes, cantada em 1970 por Hugo Maia Loureiro, uma das minhas canções preferidas.

Só viria a conhecer-te, meu caro Rui, dois anos depois, em Coimbra, no Teatro dos Estudantes, quando, ainda menino, fiz de Woyzeck, na peça homónima de Georges Büchner, encenada no TEUC pelo Julio Castronovo com música da tua autoria. No Verão desse ano de 1972, o Woyzeck fez uma digressão aos Açores – foi a primeira vez que andei de avião, num voo TAP de Lisboa para Santa Maria onde, também recordo, fui sentado ao teu lado.

O Aeroporto de Santa Maria era a porta de entrada e de saída dos Açores. Anos antes, um dos maestros mais conhecidos do Orfeão Académico de Coimbra, o açoriano Raposo Marques, falecera nesse aeroporto quando estava para embarcar num voo de regresso a Lisboa, no termo de uma digressão, apoteótica, do Orfeão pelo arquipélago. 

Todos temos, sem hora nem dia marcados, bilhete de ida para o Oriente Eterno e todos, ou quase todos, queremos partir o mais tarde possível, adiando essa viagem sempre em aberto. Eu, que adoro viajar, confesso que não gostaria de partir assim num aeroporto. Mas não é desta viagem que eu hoje quero falar. Pelo contrário, é da viagem da vida, uma viagem que também se alimenta de memórias.

Um bom pretexto para um postal, nestes tempos em que muitos de nós só conseguem viajar à roda do quarto, como viajou aquele escritor francês, Xavier de Maistre, que Almeida Garrett cita na abertura das “Viagens na Minha Terra”. Um postal que te dirijo por seres o primeiro grande artista com quem privei, um músico de renome nacional e internacional e, além disso, médico (profissão que gostaria ter seguido e que não segui pelo meu espírito de contradição), filho de um jornalista que foi um dos meus modelos profissionais.

Um postal que te dirijo por ter saudades de Coimbra e dos amigos que aí tenho. E saudades daquela fauna coimbrinha que gosta de começar uma boa noite a conversar, ao calor humano de um bom bar nocturno como foi, por exemplo, a Clepsidra, esse lugar mágico que já me inspirou um poema em redondilhas maiores – “Clepsidra, meu amor”.

(…) E havia um piano velho // a servir de aparador // e muitos bancos redondos // de três pernas, sim senhor, // e de madeira de choupo // que dizem ser da melhor. (…) Lembras-te? Escrevo-te este postal a ver a final do 55.° Festival RTP da canção mas já escolhi a imagem que o vai ilustrar – uma serigrafia minha, de 2008, a recriar a imagem da montanha do Pico vista do Faial.

E pronto, quando pudermos voltar a jantar na Abadia, do Porto, onde jantamos pouco antes das restrições pandémicas em curso, dir-me-ás quantos lá lá lás tem a letra da desfolhada. Até lá fica bem.

Júlio Roldão,

teu desafinado admirador.

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