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Meu caro Aditya

Só há dias, quando abri (com algum tempo e muita curiosidade) o sítio da internet onde compro as melhores aguarelas do Mundo, descobri o seu nome e a história da Viviva Colorsheets, a empresa que manufactura e comercializa as aguarelas que mais gosto de usar nos meus desenhos contrafeitos.

Sei agora que é um jovem de 25 anos, mais novo do que qualquer um dos meus quatro filhos, e que criou a Viviva Colorsheets quando era estudante de Medicina, solucionando um problema que a senhora sua mãe, também aguarelista, sentia – a dificuldade em transportar o material necessário para pintar aguarelas.

Aqueles seus cadernos, menos volumosos do que um telemóvel, com dezasseis cores deslumbrantemente brilhantes, são uma magnífica solução para quem gosta de aguarelar. Criar e comercializar para todo o Mundo um produto como esse é um feito ao alcance de poucos. Isto sem esquecer que o fez aos vinte e poucos anos de idade.

Eu e a esmagadora maioria dos portugueses da minha idade – a geração que tinha 20 anos quando a liberdade chegou ao nosso país em 1974 – não sonhávamos em abrir empresas que criassem produtos inovadores como os blocos de aguarelas da Viviva e muito menos em tentar comercializá-los em todo o Mundo. Esperávamos, talvez, que fosse o Estado a criar tudo.

Nem tanto Estado como sonhado por nós nessa época nem tão pouco como depois alguns começaram a reclamar até chegar esta maldita pandemia e até voltarmos a sentir a necessidade dessa protecção colectiva em tudo, ou em quase tudo, excluindo a criatividade, nomeadamente a criatividade artística tão necessária.

Na verdade, eu que não sou pintor, embora goste de me fazer de aguarelista, foi nesta actividade, de forma atrevida e amadora, que me refugiei durante os longos e difíceis períodos de confinamento a que a pandemia nos tem obrigado. Mais uma razão para apreciar o seu espírito empreendedor, meu caro Aditya. Agora ando sempre com um dos seus cadernos de aguarelas no bolso e um pincel com depósito de água.

E mesmo sem papel adequado, reinvento-me sobre recortes de jornais como aquele em que aguarelei o postal que lhe envio hoje. O papel de jornal não tem uma grande gramagem, e muito menos uma gramagem como a dos bons papéis para aguarela, mas é muito resistente para aguentar as altas velocidades das rotativas onde os jornais são impressos. É uma vantagem e quando não temos cão caçamos com gato.

Nestes tempos difíceis que vivemos, com esta terrível pandemia, estamos a aprender todos os dias, embora julguemos, erradamente, que os problemas podem todos ser antecipados e prevenidos, pelo Estado, como se vivêssemos no 

melhor e mais organizado dos mundos. Como eu aos 20 anos julgava e, por isso, não inventei um caderno de aguarelas como o da Viviva.

Sou um dos seus clientes e admiradores

Júlio Roldão

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