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Meu querido e velho amigo.

Já não te lembrarás, mas em 1979 ofereceste-me um livro de Hugh C. Sherwood inteiramente dedicado à entrevista, um dos mais importantes géneros jornalísticos considerando, desde logo, que quase tudo em jornalismo implica fazer perguntas e registar respostas.

O livro, cuja primeira edição data de 1969, é a versão para Castelhano (traduzido por Alfonso Espinet) da obra de Hugh C. Sherwood “The Journalistic Interview”, tradução que integra a colecção “Livros de Comunicação Social” organizada pela Faculdade de Ciências de Comunicação de Barcelona.

Em Maio de 1979, quando me ofereceste este livro, eu era um jovem jornalista com dois anos de experiência e estava longe de ser um grande entrevistador, título que, em boa verdade, nunca cheguei a ter mesmo considerando a boa mão cheia de entrevistas que, até agora, tive a sorte de fazer.

Entrevistei Álvaro Cunhal, o histórico líder dos comunistas portugueses, entrevistei Amália Rodrigues, a grande voz do fado, Adolfo Gutkin, encenador argentino, Maria do Céu Guerra, nome também grande do Teatro, o sindicalista espanhol Marcelino Camacho, este durante uma viagem de avião entre Milão e Madrid, entrevistei Orlando de Carvalho, poeta e catedrático de Direito na Universidade de Coimbra, entrevistei o arquitecto  Siza Vieira, a propósito da recuperação dos Armazéns do Chiado, entrevistei o presidente caboverdiano Aristides Pereira no momento da passagem de um regime monopartidário para um regime pluripartidário, entrevistei-te a ti, quando já eras director artístico da Escola da Noite. Não me posso queixar, mesmo citando apenas algumas entrevistas formais que ficaram na memória.

Pequenas conversas como base de certos trabalhos jornalísticos, como por exemplo as que mantive com o presidente Mário Soares quando, em 1988, o acompanhei numa viagem a Paris para assistir à inauguração de uma exposição de Maria Helena Vieira da Silva, ou com o presidente Jorge Sampaio quando, em 1999, o acompanhei numa viagem aos Açores, não podem, em rigor, ser consideradas entrevistas, embora se sirvam da técnica deste género jornalístico. Técnicas aliás bem explicadas no livro de Hugh C. Sherwood que me ofereceste, livro que, em nenhum momento, elege o discurso directo, de pergunta e resposta, como uma fórmula superior e supostamente mais nobre de fazer entrevistas.

Falo-te disto não só por me teres oferecido o livro de Hugh C. Sherwood mas por também já teres sido jornalista, antes de optares a cem por cento pelo Teatro, numa opção de coragem que eu gostaria de ter tido mas não tive. Acresce que, há dias, utilizei mais discurso indirecto do que directo numa entrevista, a dois actores, que me tinham pedido, mas, por causa da forma, o trabalho foi rejeitado pelos editores, apesar de ser um trabalho pró bono requerido sem aquela condição formal do discurso directo em exclusivo.

Será que um jornalista deve reduzir-se a reproduzir, ipsis verbis e por inerência em discurso directo, as perguntas e respectivas respostas formuladas e recolhidas numa entrevista? Incorrendo, caso contrário, num “crime” equivalente ao que um encenador arrisca quando não segue, na íntegra, um texto de um dramaturgo clássico? Ás vezes, mesmo considerando o péssimo momento que as pessoas das artes e dos espectáculos estão a viver, às vezes tenho-vos inveja. O preço da sobrevivência como jornalista, mesmo a trabalhar pró bono, pode também ser insuportável. E sem a liberdade de transformar o jornalismo num laboratório da vida, como o Teatro (quando pode apresentar-se ao público) quase sempre é.

O Teatro pode ser uma escola. Uma Escola da Noite como tão bem baptizaram a companhia a que tu estás ligado. Reconhecendo, como tu dizes, que estes postais são sempre pretextos para outros textos, termino confessando que tenho mais saudade do Teatro do que do Jornalismo. Mesmo daquele que se reclama de qualidade. E não apenas por temer os nefastos efeitos da desinformação.

Aquele abraço

Júlio Roldão

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