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Caro Jorge Constante Pereira

Numas arrumações de papéis e outras utilidades que o confinamento finalmente agendou, apareceu-me uma caixa envelope, com uma fita magnética em bobine, que o professor Jorge Constante Pereira terá enviado do Porto para Coimbra muito provavelmente em 1971, ou seja, há 50 anos.

Dato esse envio não pelo ilegível carimbo dos correios, mas pelos selos, um de escudo e meio e outro de três escudos, este emitido em 1971 a evocar o bicentenário da elevação a cidade de  Castelo Branco. Sobre a fita magnética, julgo que esta talvez contenha a banda sonora de uma peça do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC) mas só o saberei quando e se Cláudia Rangel, dos Estúdios Rangel, conseguir transferir aquele som para um suporte e num formato mais modernos, serviço que há dias solicitei. A torcer para que esta transferência seja possível, estou cheio de curiosidade pelo conteúdo da fita magnética descoberta.

Na verdade, tampouco posso garantir que seja uma fita magnética com músicas para alguma peça do TEUC. Nem sei em que circunstâncias tal bobine veio parar às minhas mãos, embora tenha a ideia de que terá vindo comigo de Coimbra para o Porto, ou seja há 35 anos. Mas, sem saber bem porquê, julgo que poderá ser a música que foi composta para a peça de pantomina “Mel Pastel e um Boneco de Papel”, original de Julio Castronovo, o primeiro trabalho em que participei no TEUC, precisamente em 1971, não na versão original mas numa reposição feita por Manuel Guerra e Silva.

Reconhecendo o seu nome, Jorge Constante Pereira, como sendo o nome de um grande compositor musical, não o associo como colaborador do TEUC, mas a minha memória não contempla todas as informações sobre o TEUC apesar de por lá ter andado muitos anos e muito empenhado neste grupo de teatro universitário que, para mim, foi uma verdadeira escola. A minha memória pode até estar a trair-me quando associa este objecto do Museu da Minha Existência a um som do TEUC.

Do TEUC, e do meu tempo no TEUC, foi também Sampaio da Nóvoa, candidato à Presidência da República que o professor Jorge Constante Pereira, como eu, apoiou. Lembro-me que, na sua declaração de apoio, o professor disse ir votar em Sampaio da Nóvoa por ele não se limitar a sublinhar os erros e as falhas da direita preferindo, sem facciosismos, apontar caminhos do respeito em defesa de valores de justiça e da equidade. Identifico-me muito com esta maneira de estar na política.

Onde a conversa, a pretexto do aparecimento de uma estranha fita magnética em bobine que esteve escondida mais de 35 anos sem qualquer indicação do que terá gravado, já vai. O som tanto tempo silenciado que nela existirá merece este postal. Postal que reproduz a principal face da caixa envelope que o professor Jorge Constante Pereira enviou do Porto para Coimbra dirigido a alguém que desconheço e cujo sobrenome e morada deliberadamente ocultei, editando a fotografia. Postal que justifica esta falsa partitura para um silêncio que lhe envia, com respeito e admiração, este seu pouco ilustre desconhecido.

Júlio Roldão

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