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Caro Andrzej Kowalski

Eu que já ando entretido a rasgar papéis que, de outro modo, poderiam transformar-se numa herança pesada e indesejável para quem os herdasse, também estou a reunir os livros da minha biblioteca que mais me marcaram e um deles é “La Pensée Captive”, de Czeslaw Milosz, que li, nos anos 80, numa das semanas internacionais de teatro universitário realizadas em Coimbra.

Li “La Pensée Captive” no rescaldo de um tempo de verdades inquestionáveis resistindo, com dificuldade reconheço, à ideia de identificar, também entre nós, o uso de uma linguagem referida nessa antologia como sendo construída para mostrar a fidelidade necessária às ortodoxias vigentes por parte de que a usasse.

Esse latim, baptizado no século XIX com o nome “Ketman”, ao que parece por um diplomata francês (Arthur Gobineau) então em Teerão ao serviço da França, esse “Ketman” ainda hoje é falado, um pouco por todo o lado, por quem promove o politicamente correcto e ou quer mostrar-se tão infalível em matéria de fé quanto os papas que antecederam Francisco, com a ajuda desinteressada do tal “Ketman”.

O livro foi-me oferecido por alguém do grupo de teatro da Universidade Católica de Lublin, a que o Andrzej Kowalski pertencia, e funcionou, para mim, como promoção de uma saudável dissidência permanente que – reconheço hoje – devia ser sempre promovida. À data eu, jovem jornalista profissional, partilhava as interrogações e as dúvidas de Serge Halimi, do “Le Monde Diplomatique”, e reconhecia a dificuldade já sentida (por muitos jornalistas e intelectuais) em dar voz aos sem voz, em reconfortar os que vivem na aflição e em inquietar os que vivem no conforto.

Já era notório que muitos meios de comunicação social de massas, como alguns governos, estavam a transformar-se em brigadas de aclamação e apoio dos mercados financeiros onde a ortodoxia liberal tendia a tornar-se totalitária. E no nascente teatro de guerra ideológica em que os media se transformavam, muitos de nós começávamos a cair na tentação de olhar o sucesso do jornalismo à luz da liberdade do liberalismo.

O André, ou melhor, o Andrzej Kowalski, que foi ficando por Portugal, ergueu, no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), uma peça que, indirectamente, abordava tudo isto – o D. Quixote que o TEUC levou a Áquila. Este D. Quixote poupava no texto de Cervantes mas tinha, mesmo assim, muito mais texto do que a peça que trouxe Andrzej Kowalski pela primeira vez a Portugal, uma encenação concebida para dar à cenografia, ao desenho das luzes, aos sons e a tudo o que não era palavra para ser dita idêntica importância à que o teatro clássico concedia ao texto do dramaturgo.

Os livros que lemos, as peças de teatro a que assistimos e até as exposições que visitamos podem marcar-nos, como o Andrzej sabe, para sempre. A propósito de exposições, julgo que talvez nos tenhamos cruzado, outra vez, no Porto, numa exposição de fotografia com obras de alunos da Escola Superior Artística do Porto. Ambos estivemos ali “representados” por filhos, o Andrzej pela Maria Kowalski e eu pelo João Roldão, dois dos fotógrafos com obras nessa exposição académica denominada “quadros – de – vida – polos – urbanos – realidades – envolventes”. 

Ainda sobre esta exposição, lembro que o meu filho João expunha um auto-retrato obtido com uma Lomo e era o único que usava essa máquina russa de lente luminosa e disparo à queima-roupa. Quem sai aos seus… Digo isto lembrando-me dos muitos auto-retratos que ensaio, para alimentar a minha vaidade indisfarçável. Alguns até com cabeça, embora o que melhor me retrata é um auto-retrato sem cabeça, um óleo sobre tela de 70 X 50 cm, que ainda há dias aqui serviu de postal ilustrado para um outro amigo e faz parte de um catálogo de uma exposição imaginária de pintura a que dei o nome de Sépia Azul I.

Espero que o Andrzej esteja bem. Eu cá vou andando. Ainda com cabeça, espero.

Um abraço do

Júlio Roldão

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