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Caro Carlos Campolargo

Com aquela cumplicidade adquirida em Coimbra, principalmente entre quem tinha mais ou menos vinte anos quando aconteceu o 25 de Abril, permito-me enviar-te este postal, num correio privado que o sinalAberto distribui às segundas-feiras e que eu aproveito também para fazer prova de vida.

Na verdade, o que hoje aqui envio é mais um recorte de jornal do que um postal, um recorte da mais recente edição de “Il Piave”, um jornal regional não diário que ostenta o nome deste rio alpino a correr para o Adriático, nas proximidades de Veneza. Apanhei-o por acaso e fiquei preso ao artigo sobre a casta Pinot Noir que ocupa mais de metade de uma das páginas da edição.

Segundo a articulista, Claudia Calvani, a casta Pinot Noir (em Italiano Pinot Nero) é uma das castas do “Piave” e está a proporcionar vinhos de enorme elegância quando plantada num solo com exposição adequada. Esta casta, diz ela, encontra na bacia hidrográfica do Piave “um dos seus territórios de eleição”, como saberás tão bem como ela e muito melhor do que eu.

Por uma coincidência inexplicável (como todas as coincidências) tinha lido, recentemente, numa revista de vinhos, que tu és, cito, “dos produtores nacionais que melhor trabalha o Pinot, seja em espumantes ou em vinho tranquilo” e esta leitura – confesso – é, em parte, a razão deste postal. Um pretexto, como já disse, para fazer prova de vida.

Antigamente, os nomes das castas dos vinhos eram menos citados. Falava-se mais das marcas comerciais dos vinhos do que das castas que neles entravam. Quando, em 1971, cheguei a Coimbra (onde aliás descobri o prazer do vinho) ainda se falava do Cantanhede de 1962 como uma das grandes colheitas da Bairrada, mas não tenho ideia que se falasse das castas como hoje.

Ainda menino, muito antes de descobrir o vinho, lembro-me de achar estranho o nome “Engana Rapazes” para, sei hoje, uma casta de vinhos verdes autorizada na Sub-Região de Penafiel. Esta casta, já li, tem correspondência em Itália na casta «Trebiano Toscano». Só ainda não sei a razão de ser conhecida em Penafiel com o nome de “Engana Rapazes’.

A despropósito, e para dar corpo ao postal que leva o recorte do “Il Piave”, revelo que o primeiro vinho que bebi foi um vinho da Bairrada, um bruto branco das Caves Aliança, de Sangalhos, onde fui, várias vezes, entre 1972 e 1973, a acompanhar o saudoso João Seiça Neves, no final de uns treinos de basquetebol. Teria eu dezassete anos e, então, ainda não tinha bebido vinho.

O que um artigo de um jornal italiano pode gerar… Um artigo sobre castas de vinho. Um artigo sobre Pinot Nero, ou seja, Pinot Noir. Pode servir de pretexto para enviar um postal a alguém que jamais contaria receber um postal assim. Um recorte assim.

Um abraço do

Júlio Roldão

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