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Caro António Oliveira

Considerando os trezentos e tal municípios e as três mil e tal freguesias existentes em Portugal, calculo, na base média de três listas por autarquia, que às eleições autárquicas que se aproximam possam comparecer mais de dez mil candidatos presidenciáveis. Sei, pela comunicação social, que o António Oliveira já não está na corrida para a qual chegou a ser anunciado (a da presidência da Câmara de Gaia) o que justifica que o tenha escolhido para destinatário deste postal.

Em 2005, três anos depois de nos termos encontrado em Seoul, no Campeonato do Mundo de Futebol que se realizou na Coreia do Sul e no Japão, eu como jornalista e o António Oliveira como seleccionador nacional, em 2005, dizia, eu também fui candidato a uma presidência (a da Junta de Freguesia de Rio Tinto) e também sofri uma grande ilusão que hoje partilho consigo e com os demais presidenciáveis. 

Tudo começou, caro António Oliveira, com uma das minhas ideias para essa campanha eleitoral à presidência da Junta de Freguesia de Rio Tinto – idealizei, imagine, baseá-la na representação teatral de um monólogo que escrevera para o apresentar, todas as noites do período eleitoral, num teatro da freguesia.

No texto dessa peça, assumia que não é vulgar ver um candidato a presidente de uma junta de freguesia escrever uma peça de teatro para a representar, em local apropriado, no âmbito do programa da própria candidatura. Na verdade, recordo que projectava atingir em cada semana de espectáculos mil pessoas, pouco mais de metade dos votos que a lista que encabecei veio a receber – 1974 votos suficientes para a eleição dos dois primeiros nomes da lista.

No fundo, tentava apenas conseguir salientar-me, na comunicação social, pela potencial originalidade e inedetismo da campanha, no universo das então mais de quatro mil campanhas para as então mais de quatro mil juntas de freguesia existentes no país. O texto da peça recriava um monólogo de reflexão do candidato actor quando, ao fim de um dia um intensa campanha, podia, finalmente, preparar-se para algumas horas de sono, num quarto de hotel ou na residência do próprio candidato.

Cheguei a apalavrar para palco da campanha o teatrinho de bolso do Dramático de Rio Tinto, um teatro com capacidade para 170 espectadores que o arquitecto António Lobão Vital, companheiro de Virgínia Moura, desenhou, nos finais dos anos 60 do século passado. Por razões que nunca soube e que nunca quis descobrir, a cedência do teatrinho do Dramático, previamente assegurada, foi recusada e a temporada do monólogo gorou-se. Essa minha campanha foi um grande desacontecimento ainda hoje mantido quase em segredo nas memórias que guardo, protegidas por algodão em rama, dentro de algumas caixas de sapatos.

Não está pois sozinho neste universo dos candidatos desiludidos. Por razões diversas, é certo, mas não está sozinho. E o António Oliveira nem pode queixar-se muito pois já conseguiu furar a barreira da comunicação social, mesmo decidindo não se apresentar na corrida para a qual foi apresentado. O que não aconteceu comigo que fui a votos. Nós, os presidenciáveis, não somos todos iguais, mas podemos ser solidários uns com os outros.

Um abraço deste quase penafidelense e como tal seu conterrâneo

Júlio Roldão

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