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Meu querido Fernando

Estou cheio de saudades de voltar ao “nosso” Nacional. De voltar a jantar no Nacional, com muitos amigos, sem restrições à mesa e quase sem hora de fecho. Eu sou um dos clientes que passou do Reduto Bar para o Restaurante Nacional quando tu e o Adelino resolveram estabelecer-se por conta própria. Já lá vão mais de 40 anos.

Fui um cliente tão regular que cheguei a ter conta ao mês, a pagar a trinta dias. A minha mesa preferida, na primeira e durante alguns anos única sala, era a que ficava no extremo da diagonal que saía da cozinha. Celebrei aí os meus trinta anos, o meu mais difícil aniversário – com vinte e nove, a fazer trinta, pensava ter apenas dezoito.

Durante um longo período almoçava aí, aos sábados, com a minha mãe. Ela fazia a viagem Penafiel / Coimbra / Penafiel a trazer roupa lavada e a levar roupa suja. Almoçávamos sempre cedo, a tempo de eu a levar a Coimbra B a um comboio que saía às 14,08. Isto quando eu vivia num apartamento da Avenida Bissaia Barreto. Sim, eu sei que sempre fui um menino e um adulto muito mimado.

Ainda sobre a vontade que tenho de poder voltar ao Nacional, sem grandes restrições, devo dizer-te que um dos meus sonhos de jornalista que sonha ser escritor contempla um alargado jantar de amigos, no Nacional, durante o qual eu oferecerei aos presentes um exemplar de uma uma novela gráfica ou apenas de uma reedição do meu poema “Clepsidra, meu amor”…

Sim, sim, um pretexto para arrancar mais uns quantos rótulos de vinhos bebidos com amigos, rótulos que depois transformarei em papel de música para aguarelas e para outros poemas contrafeitos… Isto sou eu a sonhar, meu querido Fernando. É sabido que, entre jornalistas, este sonho em ser escritor é muito mais sonhado do que concretizado.

Eu sei que já é possível voltar ao Nacional… mas o que eu queria era organizar aí um grande encontro de amigos, com aquela malta que aprecia boa comida, boa bebida e gosta de começar a noite a conversar… Num encontro assim, até te levava um cartaz da primeira SITU, aquele festival de teatro que fez do teu Nacional o restaurante para as companhias participantes – ficava bem na sala onde costumas ter arte em exposição.

Nunca te disse mas aí sinto-me em casa. E tenho razões para isso. Um dia, por exemplo, pedi o vosso “Cordon Bleu”, um prato que eu comia e gostava muito, mas o “Chalana”, o extraordinário empregado de mesa Rogério Rodrigues que recebeu o meu pedido, veio dizer-me que a Senhora, referindo-se, julgo eu, à senhora tua mãe, mandava dizer que eu andava a comer carne há muito tempo e por isso, nesse dia, teria de escolher um prato de peixe ou ir comer a outro restaurante. Escolhi peixe.

Claro que podia revelar outras memórias. Lugares como o “nosso” Nacional são grandes também, ou principalmente, pelas memórias que fixaram. A cozinha e a garrafeira contam mas o resto, ou seja, aqueles que se sentam à mesma mesa, a atenção como somos recebidos e outros afectos contam sempre muito mais e valem muitas e muitas estrelas.

Até breve, espero eu

Júlio Roldão

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