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Querida Alice Vieira

Anteontem, sábado, meio confinado em casa, encontrei, na imensidão dos papéis guardados, um Diário de Lisboa Juvenil de Dezembro de 1969. A Alice Vieira ainda assinava Alice Vassalo Pereira, nomes que também fazem parte do seu nome completo e nomes que escolheu para o seu primeiro nome literário.

No Juvenil, assinava a recepção crítica dos trabalhos recebidos, alguns ainda a aguardar publicação outros sem essa sorte mas, mesmo assim, merecedores de uma justificação para tal recusa – sempre de uma forma agradável e muito didáctica. Gostei tanto de reler aquele Juvenil que guardei desde os meus 15 anos que até escrevi um arremedo de poema. Reproduzo-o a seguir em texto corrido.

Diário de Lisboa Juvenil, meu amor. // // Um senhor grande jornal // que já houve em Portugal // publicava poesia // de gente desconhecida, // gente jovem, inquieta // com essa vida de treta // que o país então vivia.// // E se não a publicava, // dava contas das razões // da recusa em publicar. // Numa espécie de correio, // literário e poético // publicado pelo meio // dos poemas publicados. // // A mim nada recusaram // mas eu nada lhes mandei. // Mesmo assim lia e guardava // o querido Juvenil // do Diário de Lisboa.

Teria sido impossível escrever assim no tempo do Juvenil, mas hoje, tivesse a Alice Vieira idêntica tarefa à que teve nesse tempo, será que publicaria o poema que acabei de transcrever? Ou que lhe ocorreria dizer a justificar a não publicação. Fá-lo-ia, estou certo, com a delicadeza que sempre demonstrou ter mesmo a criticar. 

Como bem sabe, o suplemento Juvenil do “Diário de Lisboa” tinha colaboração exclusiva de jovens que tentavam dar os primeiros passos na literatura, no ensaio ou nas artes plásticas. No regulamento dessas colaborações lia-se – cito – que os leitores com vocação literária não deviam esperar por convites, devendo, pura e simplesmente, enviar a colaboração que seria acolhida com a melhor atenção.

Era um espaço único, com a liberdade possível. Relê-lo, hoje, é um prazer que até pode transformar-se num desafio, numa quase investigação. Vou dar um exemplo para terminar este postal. No Juvenil de 16 de Dezembro de 1969, o último poema, publicado no canto inferior direito da última página, “Farei Um Poema” é, quase certo, ser de Rui Ferreira de Sousa, sob o pseudónimo de Sousa Fernando.

O título do poema “Farei Um Poema” lê para o corpo do poema que começa assim “terno, subtil, intenso. // um poema-atributo. // que só por si ganhe o Nobel de 2049 // 100 anos após o meu nascimento // sem serem precisos romances // nem peças de teatro // (…)”.

O meu sonho ainda é mais ambicioso, ganhar o Nobel com um bom título de jornal… lá para 2053. Isto sou eu a delirar, querida Alice Vieira. A delirar e a abusar da sua enorme paciência e generosidade.

Seu admirador

Júlio Roldão

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