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Querido Paulo Sucena

Reencontrar-te anteontem em Anadia, mais precisamente no santuário sanjoquinho da Casa de Arcos e numa das peregrinações pela amizade eterna, que os nossos comuns amigos Georgina e Jorge Pratas e Sousa (Joka) organizam, inexcedível e exemplarmente, na difícil arte de bem receber os amigos… reencontrar-te anteontem e ver que manténs a tua força e serenidade intactas quase faz com que cometa o pecado mortal da inveja.

A inveja é um dos piores pecados mortais. Ninguém se confessa invejoso. Ninguém diz eu sou um grande invejoso. Mas há muita gente que admite, com alegria, ser um grande vaidoso ou um grande preguiçoso. Eu, por exemplo, sou um grande preguiçoso, tão grande que escrevo marcadores de livros que sonham ser livros e postais, como este, em vez de cartas.

Confissões à parte, o que faz com que te escreva este postal é esta indisfarçável alegria própria de quem sabe que é bom ser sobrevivente do tempo em que a amizade era um posto e em que a vontade de construir uma sociedade melhor era uma causa mobilizadora de muitas vontades. Na Vida, como na Literatura. Quando nos reconhecemos assim, com todas as nossas saudáveis diferenças, recuperamos forças que outros, com outros interesses, querem tirar-nos.

E é também entre amigos que somos capazes de avaliar melhor as nossas contradições e os erros de análise que cometemos. Melhor, só conseguimos enfrentar as nossas dúvidas, sejam elas próximas, sejam elas antigas, se estivermos entre amigos, como acontece nos encontros como aquele a que comparecemos, há dois dias, nos Arcos, em Anadia. Com a certeza de não haver certezas.

Nem certezas nem deuses. Como ouvi a um grande amigo, o encenador Adolfo Gutkin, só é permitido duvidar da existência de Deus ao nível dos cardeais. E não foi um conclave de amigos aquilo que nos reuniu, no passado sábado, na casa da Georgina e do Joka? Um conclave de amigos sem a obrigação de eleger alguém, como acontece nos conclaves do Vaticano.

Mas o mais importante é sempre o reencontro de amigos. E também reconhecemos os amigos quando, ao fim de vários anos de ausência, recomeçamos uma conversa como se a tivéssemos iniciado na véspera. Esta é, aliás, uma das magias dos conclaves dos encontros na Casa de Arcos. E como certamente te recordas, meu querido Paulo Sucena, professor, poeta e amigo de poetas, “cada amigo nosso vale mais que um Pai Natal”. Descobrimo-lo num verso do Ary dos Santos ou do Joaquim Pessoa, quando a música que ouvíamos cantava aquele Abril que nos marcou a todos.

Digo eu, que quase consegui ser um grande actor de teatro, um causídico brilhante, um escritor laureado e quase fui jornalista, talvez neo-realista, mas tenho grandes e bons amigos.

Júlio Roldão

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