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Caro Claudio Magris

Gostaria de me encontrar consigo no antigo Caffè San Marco, na via Cesare Battisti, da sua bela Trieste. Nesse histórico café onde o senhor escreveu muitas páginas de vários dos seus títulos como escritor. Quem sabe se grande parte do seu “Danúbio”, esse marco da literatura de viagens traduzido, em Português, por Miguel Serras Pereira.

Trieste, outrora a “última cidade da Europa Ocidental” é, parece-me, uma bela cidade para viver. Devo, em nome do rigor, fazer uma declaração de interesses. Na sua bela Trieste vive um dos meus filhos e um dos meus netos, o mais novo dos meus netos, que já tem quinze meses. 

Mas garanto-lhe, ilustre escritor triestino, que a minha simpatia pela cidade de Trieste está para lá da circunstância de ser uma das cidades do Mundo onde tenho família muito próxima. Eu, nascido numa cidade, o Porto, que fica no outro extremo da Europa. Uma cidade que o Claudio Magris conhece.

Já li o seu “Il Conde”, uma pequena narrativa escrita a partir de uma notícia sobre o portuense Deocleciano Monteiro (o conhecido Duque da Ribeira), notícia que o senhor leu, num jornal do Porto, numa passagem sua por Portugal. Muito provavelmente no Jornal de Notícias, jornal onde trabalhei como jornalista durante 28 anos.

O barqueiro do Rio Douro que salvava suicidas arrependidos ou recolhia os corpos daqueles que morriam afogados, passou, na sua versão (inicialmente publicada no jornal “Corriere della Sera”, mas agora também em livro) de duque a conde. Na verdade ele passou a ser chamado de Duque pela própria mãe que tinha dificuldade em pronunciar o nome que “prantaram” ao filho: Deocleciano.

Os nomes próprios, às vezes, ganham versões inimagináveis. Eu conheci uma jovem que se chamava Prentelhana, por mor de um tabelião que assim a registou – o pai da menina, quando interrogado sobre o nome que pretendia para a filha, disse “prante-lhe Ana”. Coisas do Português que era a língua do “Il Conde”.

E por aqui me fico, reafirmando a vontade de poder encontrar-me consigo em Trieste, cidade onde penso voltar muito em breve. Eu sei que o Claudio Magris sai menos, neste tempo de confinamento, e já não irá tantas vezes ao Caffè San Marco, onde, no Verão passado, pediram-me o Certificado Digital Covid da União Europeia para poder beber um “Spritz Aperol”.

Sem compromisso, que isto, agora, de ir ao café não é como descer o Danúbio, lá irei cumprir esse ritual de ir beber um copo a um café com história, como é o Caffè San Marco de Trieste. E, quem sabe, enviar de lá um dos meus próximos postais para o sinalAberto.

Com admiração

Júlio Roldão

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