A alegria de aprender e ensinar a ler

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Há uma terrinha no estado da Amazónia afastada “da modernidade” e onde “Internet e energia somente há à noite, quando o gerador é ligado”. Mas é de lá que a jovem professora Laura Almeida, para onde o sinalAberto a contacta, nos conta a maior vitória da sua vida profissional ainda curta: conseguir que 12 crianças tenham aprendido a ler e escrever. Elas são o Gerdeson, a Milena, Carlisson, Maria Clara, Sabrina e Adrielly, entre outras cujos nomes diremos mais adiante. Estão radiantes e nos seus corpos franzinos não cabe tanta felicidade! O seu futuro imediato será a pesca e a roça, pois são elas o garante da sobrevivência difícil daquela pequena comunidade de menos de 30 mil pessoas. Porém, o primeiro passo para a mudança está dado.


Professora Laura Almeida: “Nos alimentamos com o que vem do rio, nossas estradas são suas águas. Tive uma professora, chamada Marta Regina, que me ensinou a dar o que temos de melhor”.

O rio Juruá nasce no Peru e desagua na região em que o Amazonas é mais conhecido como Solimões. Tem três mil quilômetros e é muito sinuoso. Na beira do Juruá fica a Comunidade Tabuleiro, Zona Rural do município de Carauari, distante 788 quilómetros de Manaus, no norte brasileiro.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a população estimada do município de Carauari é de 28.508 pessoas.

Foi dentro de uma canoa no Juruá que a professora Laura Viviane Almeida colocou seus 12 alunos, todos alfabetizados por ela ao longo de um ano tão peculiar, para um ensaio fotográfico de formatura de ABC. Imediatamente depois de ser publicado em uma rede social, aquele momento, normalmente condenado ao anonimato, alcançou uma notoriedade que assustou a professora.

O já inesquecível ano de 2020 foi o primeiro na vida de Laura como professora na Escola José Maria Bahia Ramalho. Ela tem 25 anos, é formada em Ciências Biológicas e em seu texto de divulgação das fotografias (que ela mesma fez) comemora: “Conseguimos meus pequenos, chegamos ao final da primeira vitória. Confesso que foi o maior desafio da minha vida, sair de casa, de perto da família e amigos, para ir, rumo à terrinha de vocês tão distante. Obrigada por terem tornado meu ano de 2020 o mais desafiador e o mais incrível, Amo imensamente cada um: Gerdeson, Michel, João Carlos, Josuelson, Carlisson, Maria Clara, Sabrina, Adrielly, Ana Cláudia e Milena”.

A Escola José Maria Bahia Ramalho funciona numa casa simples, de madeira. Tem cerca de 60 alunos, é dividida em duas salas de aula; tem uma cozinha com refeitório e um alojamento com dois quartos. “Tenho uma boa notícia” conta Laura ao sinalAberto: “O projeto de uma nova escola em alvenaria já foi aprovado e teremos obras de remodelação em 2021; então seremos uma escola padrão”.



Entrei em contato com Laura e me apresentei como mulher amazônida, que busca o comprometimento com o povo da floresta, num jeito de ser mundo sem limites, que aqueles nascidos ao pé da imensidão de água têm: “Também sou da beira do rio e hoje vivo em Coimbra”, me apresentei, para lhe dizer de seguida: “senti uma quentura no peito quando vi seus alunos na canoa… podes dizer aos leitores qual a importância do Juruá e do aprendizado do ler e escrever? – e ela respondeu com muita ternura:

“É o Juruá que me dá tudo. Nos alimentamos com o que vem do rio, nossas estradas são suas águas. Tive uma professora, chamada Marta Regina, que me ensinou a dar o que temos de melhor. Independentemente do lugar onde fosse lecionar iria dar o meu melhor. Ensinar o letramento numa comunidade ribeirinha tem seus desafios: estamos afastados da cidade, longe de tudo, da modernidade. Internet e energia somente à noite, quando o gerador é ligado. Por isso mesmo quis registar a conclusão da alfabetização”.

Laura explica que para muitas destas crianças este pode ser o único momento vivido num banco de escola, pois a maioria vai prosseguir na pesca e na roça.

No final da nossa conversa, perguntei como a Laura convidaria uma professora portuguesa a visitar aquela escola na beira do rio Juruá. Eis o que ela diz:  “Venha conhecer o outro lado da vida, vale a pena, tenho a certeza”.



Fotografias cedidas por Laura Viviane Almeida

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