A cousin doing his articles in London

Arvind and Vandana Mehrotra colhendo líchias no jardim, em Dehradun, 2019 (fotografia de Palash Krishna Mehrotra)

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De Caminhadas à beira-lago, Arvind Krishna Mehrotra


1

Esta margem do lago,
esta Mongólia Interior
onde a língua falada
é a que falamos

connosco quando vemos,
após uma chuvada,
uma gotícula na ponta de uma folha
ou um caracol a caminho de algures.

4

Um homem que se parece com um boneco de peluche
está sentado a uma mesa para piqueniques. Não se mexe.
Cigarro por acender na mão.

À sua frente uma auto-estrada de quatro faixas e um
[caminho
onde descarregaram tijolos para construir um muro.
O governo faz o que quer. Não tem nada a esconder.

Há algum tempo que não vejo um mangusto.

Não há muito ela escreveu a dizer que vira um e o
[confundira com um gato.
Era grande. Escrevemos um ao outro todos os dias.

Vai levantar-se uma tempestade.
O homem que parecia um peluche
talvez não sobreviva

mas se o voltar a ver vou ler os seus pensamentos.
Mortes e recordações não vêm por ordem.
Quanto aos meus pensamentos ele pode lê-los aqui.

6

Estava a chover quando parti.
Quando cheguei o sol descobrira.
As pedras da calçada onde dava estavam secas.
Caminhei por elas. Um homem com um colete reflector
varria as folhas. Ontem passara por uma vaca malhada.
Estava morta. Já lá não estava.
Passei por quatro cães. Quando os voltei a ver, um alçou
a perna na roda da frente do meu carro.
Não havia necessidade de vos contar isto.
Aquilo que não há necessidade de contar
é, às vezes, o que mais revela.

10

Como uma árvore, um poema
pode ser datado com precisão.

Hoje, por exemplo,
vi uma máscara facial
azul pendurada
num ramo.

11

Dois mainás, olhos para a direita,
em passo de ganso nas lajes.

Continuarão por cá depois de os do passo de ganso
terem desaparecido como uma mancha  

de água da chuva a secar
num banco do parque.



uns tempos, um poeta americano disse-me que, das suas funções num cargo qualquer, fazia parte indicar nomes para possíveis Prémios Nobel. Provavelmente só por curiosidade, perguntou-me quem indicaria eu.

Lembro-me da resposta que dei: Charles Simic, Arvind Krishna Mehrotra. Não sei se incluí Adam Zagajewski, hoje tê-lo-ia feito.

O poeta que me perguntou conhecera Arvind anos antes e travara correspondência com ele. Leitor de Eduardo Guerra Carneiro, claro que vou buscar Isto anda tudo ligado.

Creio que cheguei a Arvind através do meu interesse por Eunice de Souza, mas foi muito, muito difícil e demorado estabelecer contacto. O Facebook ajudou-me. O filho de Arvind usa o Facebook e mandei-lhe uma mensagem. Julguei que a pusera para o lixo mas um dia respondeu-me.

Certamente mais frutuosa para mim, temos mantido uma intensa troca de mensagens ao longo destes anos. A sua paciência para com as dúvidas que traduzir me levanta é generosa. Seria difícil eu saber, de outro modo, que a cousin doing his articles in London se aplica a alguém, em Londres, a estudar para ser revisor de contas.


Francisco José Craveiro de Carvalho (poeta e tradutor; é professor jubilado de matemática)

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