A extraordinária viagem de Garcia

Wouter Naert (Unsplash)

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Ainda olhava o azul pálido do céu através da janelinha, que os tons nascentes de laranja desafiavam, quando ouviu o som coado dos batentes no andar de baixo.

A sua mulher, à distância de meio braço, ainda dormia. Murmurava ruídos vagos, incoerentes, que pareciam um ranger de dentes a querer dar o tom ao dia.

Cobriu-lhe o olho esquerdo com a sua enorme mão em concha, suavemente, para lhe dizer que não tivesse medo, que o dia seria igual ao de ontem, que os animais ainda dormiam enroscados na palha, mesmo por baixo, que o padeiro traria a carcaça, que ainda havia couves na horta, que o Mário iria aparecer na oficina como sempre, por volta das 10 horas, que a filha Alice iria aparecer de surpresa um dia destes, com a netinha pela mão, a espreitar pela primeira vez as sombras da casa e as suas faces rachadas por rugas, montes e vales de pele acinzentada, com saudades dos campos e do sol, que entrava tímido pela porta de sobro, que destrancava a velha oficina e a abria ao mundo, pelo menos o mundo da pequena rua.

Fechou os olhos e continuou a ver o quadradinho da janela, agora um pequeno vitral dourado que se ia esbatendo no seu cérebro até morrer na praia, como uma onda da maré baixa, dessas que correm dezenas de metros sem sobressaltos, como se fossem espumas de sonhos sopradas pelo vento.

Estarei a sonhar, pensou. Os batentes martelaram de novo e saltou da cama.

O relógio de parede, tic-tac, marcava 7 horas e 37. Ainda é cedo, não é o Mário, dizia a máquina com voz cadenciada, tic-tac, a não ser que tenha estado com os amigos e venha do pão quente da padaria, tic-tac, seria o ranger das molas e pêndulos do seu cérebro, pensou, quem estará a falar comigo, e quase tropeçou no velho gato que ocupava um degrau inteiro nas escadas em caracol.

Agarrou-se ao corrimão com as duas mãos fortes e pausou. Já não ouvia o relógio. Os carneirinhos de espuma já estavam longe, muito longe, a pastar flocos de erva. Não seria o Mário. O Mário é um rapaz doce e cortês.

Conhecia-o há muitos anos, pelo menos dez, e eram bons amigos.

Tratava-o, de facto, como um filho querido. Era neto do dono da farmácia e vivia com os tios na cidade, onde estudava. Passava as férias grandes na aldeia e visitava-o sempre, várias vezes ao dia. Sentava-se num banquinho, em jeito de estar, enquanto ele punha umas solas ou cozia uns sapatos desbocados.

E tinham intermináveis conversas, dessas que diziam tudo e nada, o que vinha de Lisboa e as chuvas que alagavam o paul, os ecos de França e os gémeos da Firmina, coitada, o marido deixou-a e foi-se para a cidade, o padre de religião e moral lá do liceu, que era fascista e, parecia, um agente da PIDE, quando for maior gostava de usar a agulha como tu, e faiscavam-lhe os olhos de cumplicidade romântica, não penses nisso, Mário, que esta vida não existe, só em sonhos maus, e enterrava mais a agulha com o dedal, e também de ter mãos fortes, olha para as minhas, parecem canivetes.

A aldeia era um nó ferroviário e todos os ferroviários passavam pela oficina, deixando-a a abarrotar de informações e rumores, que rapidamente pegavam fogo ao povoado.

Aprendeu a conhecer todos os políticos, os da situação e os da oposição. Sabia os nomes e os modos dos centros de tortura e dos campos de concentração. Antevia um atentado na roupagem de um acidente. Conhecia os sindicatos afetos e desafetos. Lia praticamente todos os manifestos e jornais diários. E lia muitos livros, principalmente os que não se publicavam, mas que circulavam de mão em mão.

Mário foi crescendo nesse ambiente. Chegaram aliás a um ponto em que tinham conversas graves e trocavam livros, como se fossem companheiros de curso. Passaram pelas mãos de Garcia “Os miseráveis”, “Por quem os sinos dobram”, “A peste”, “O canto e as armas”, “Barranco de cegos”, “Os insubmissos”, “Os irmãos Karamazov” e muitos, muitos outros. Mesmo o “Manifesto”. Devorava tudo, frequentemente à luz de uma vela, noite cerrada.

Já não o via há mais de duas semanas. Soube na farmácia que tinha partido logo a seguir às Festas, mas ninguém lhe soube dizer para onde. O dono não estava lá.

Afinal era o carteiro.

Não lhe soube explicar a razão por que tinha vindo tão cedo, mas Garcia pressentiu um leve tom de surpresa e mesmo de exaltação, quando lhe passou a carta registada para as mãos. O envelope tinha um aspeto estranho, era azulado e tinha delimitações claras para o remetente e destinatário.

Ah, e o seu nome vinha dactilografado. Levou o envelope ao nariz num gesto automático, como fazia com as colas.

Atordoado, não olhou para o remetente e admitiu que poderia vir da Alice. Alice, amor, por que te foste assim? Caiu-lhe uma sombra e mal ouviu o carteiro.

Espero que sejam boas notícias, Garcia.

Mas não estava à espera de notícias e não entendia. Só queria que fosse um pedacinho da Alice, um cantinho da sua alma. Ou mesmo, simplesmente, um lencinho dela com umas gotas do seu perfume de menina.

Alice, és tu?

Garcia era alentejano e tinha conhecido a mulher quando fez a tropa ali na cidade, bem longe da sua, teve folga uma noite e encontrou-a com amigas, parecia que se divertiam, excitadas com tudo o que bulia e viam, pareceu-lhe que consigo também, na altura usava uma boina castanha que casava mal com as calças pretas, com caracóis fartos que pareciam voar, pondo-lhe os pés a pairar.

(Ainda usava a mesma boina para se proteger do orvalho, mas os caracóis tinham ficado ralos e lisos. Agora sentia mais o chão.)

Seguiu-as à distância e no dia seguinte, de manhã bem cedo, esperou o que foi preciso para a ver sair. Havia uma loja de flores perto e o dia estava bonito. Não precisava da boina. Assim começou tudo.

Fechou de novo os olhos, ainda com o envelope quente na mão. Pareceu-lhe que o tempo fez um arco, unindo as duas pontas, sem memórias pelo meio.

Teria acontecido?

Tateou a cabeça à procura da boina. Deve ter sido um gesto brusco e sonoro, como se tivesse deixado cair um jarro de flores, porque o gato passou a correr.

Não precisaram de se casar porque gostavam um do outro, e era tudo.

Mas o padre não gostou e começaram a sentir um ventinho frio a perpassar os recantos da aldeia, que por vezes assumia a forma de rumor malicioso, que contaminava as conversas. A coisa piorou quando o regedor descobriu que eles liam às escondidas. Parecia que liam tudo, jornais, revistas e mesmo livros, contrabandeados pelos ferroviários.

Começaram a aparecer homens que nunca tinha visto. Frequentavam principalmente a barbearia, a mercearia e a tasca. Iam também ao café e mudavam com frequência. Os ferroviários passaram a ser mais circunspectos e diminuíram as visitas.

(Agora já era velho, mas ainda lia. Estava em casa da filha e praticamente não saia de casa. O último livro que leu foi “Chocolate”, de Joanne Harris. O vento frio que atormentava as despatriadas Vianne e Anouk parecia o mesmo que o tinha gelado, nesses tempos idos.)

Espero que sejam boas notícias, Garcia, repetiu o carteiro.

A verdade é que a filha também começou a sentir o frio. Pouco tempo depois de ter começado a namorar, tinha 19 anos, decidiu partir. Foi uma decisão súbita. Recebiam uma ou outra carta ou telefonema, mas nunca mais a viram. Souberam há pouco que tinham uma netinha.

E, da Alice, era tudo.

O remetente, afinal, era uma tal Compagnie du Bouton, seguida de um endereço que mais tarde compreendeu ser uma caixa postal, localizada em Toulouse. Será que a Alice está em França?

A mulher ainda dormia e não pôde sentir o frémito que lhe percorreu o corpo, como se tivesse avistado um fantasma ou presenciado um milagre.

A porta continuava aberta e os raios laranja espreguiçavam-se agora pela oficina, espevitando martelos, tesouras e escovas. Tudo parecia mais animado e subtil. As lixas e solas assemelhavam-se a finíssimas películas de seda. O frasco de cola parecia ter ouro líquido.

Abriu o envelope suavemente com o trinchete que tinha à mão, a curta distância da bancada, para que nem uma flor se quebrasse.

Saiu de lá um cartão dactilografado, em francês, que dizia assim:

“Prezado senhor Garcia. Agradecemos o seu pedido e comunicamos que os produtos podem ser recolhidos a partir da próxima semana, bastando para tal que nos indique por escrito o dia em que o pretende fazer. Dado o volume da encomenda, temos o prazer de anunciar que todas as deslocações ficarão por nossa conta e que poderá optar por trazer consigo um/a acompanhante. Enviaremos as guias de transporte na volta do correio. Sinceramente, Mário Lefèvre”.

Não compreendeu à partida. Não tinha encomendado recentemente quaisquer botões ou outros produtos de sapataria, que aliás comprava a um fornecedor que por ali passava regularmente. Seria um erro.

No entanto, pensou para com os seus botões, o nome do destinatário era o seu nome completo.

A mulher leu o cartão de forma diferente. «É o Mário, Garcia. O Mário quer que vamos ter com ele.»

Claro, era o Mário. Como não lhe ocorrera? O Mário tinha-se lembrado deles. Queria-os lá. Era o seu Mário!

A decisão foi instantânea.

Indicaram o dia da recolha dos produtos e receberam os bilhetes uma semana depois.

A carta vinha acompanhada com um bilhete manuscrito que dizia: “Peço-vos a gentileza de dar um grande abraço aos meus pais adotivos, a única família chegada que tenho e que muito amo. Digam-lhes por favor que tenciono vê-los em breve».

Comunicaram a amigos que iriam sair por uns dias para visitar familiares. Garcia ofereceu todos os instrumentos da oficina a um jovem que tinha aprendido a arte consigo, mas que não tinha trabalhado desde então porque a aldeia era pequena.

Doaram a também a casa à filha, com a condição de que alugasse a oficina ao jovem a um preço simbólico, enquanto este o desejasse.

Despediram-se dos animais um a um e deixaram-nos à guarda de um amigo, com o pedido expresso de que os apoiassem até ao fim natural da vida. O trabalho dos cavalos e os ovos das galinhas compensariam a alimentação dos porcos. O pequeno pónei, que tinham destinado à netinha, ficaria à sua disposição sempre que ela aparecesse em visita.

Esperavam que aparecesse alguma vez, agora que o vento passaria a soprar menos frio.

O último gesto de Garcia antes de sair foi deitar-se na cama com a mulher, abraçá-la, olhar fixamente para o céu azul através da janelinha, fixar o pequeno vitral dourado na sua mente e ver a filha Alice e a netinha a passear lentamente pelos campos de mãos dadas, como os carneirinhos de espuma que pastavam longe, muito longe.


Pode contactar o autor através de: pratas-young@theyeofhorus.net

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