A grande metáfora

“(…) when mankind is finished with flying – or more generally with being - the earth will retain a capacity to absorb our follies and make way for more modest forms of life.” (ALAIN DE BOTTON in A Week at the Airport, 2009)

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EM 2009, A Week at the Airport. A Heathrow Diary de Alain De Botton retrata a “normalidade” de um dos grandes aeroportos do mundo, um livro encomendado pela empresa proprietária deste aeroporto, o mais movimentado da Europa e um dos mais movimentados do mundo.

Entretanto, o autor do conhecido How Proust Can Change Your Life e outros best-sellers terá provavelmente arrumado esta obra num compartimento próprio para obras menos grandiosas… E eis que chega 2020, ou melhor, a Pandemia e a Grande Paragem.

O que um crítico literário de The Times disse de De Botton, isto é, “que o seu dom é levar-nos a pensar sobre o nosso modo de vida e sobre como podemos mudar” faz agora mais do que todo o sentido. Segundo De Botton: “(…) Airports, in all their turmoil, interest and beauty, are the imaginative centers of our civilization.” Logo, se param…

E pararam.

Pararam, pois, esses “centros-mais-centros” da nossa civilização do que as grandes “gares” dos caminhos de ferro do século XIX. Cessaram os transportes aéreos e reduziu-se o tráfego em cerca de 90 %. Toda a comunicação física foi castigada por um vírus. Outra vez, um vírus.

Dizia ainda De Botton: “(…) se pedissem para levar um marciano a visitar um único lugar que captasse todos os tópicos que circulam no mundo moderno – da nossa fé na tecnologia à destruição da natureza, da nossa interdependência ao romantizar das viagens – ter-se-ia certamente de rumar a um aeroporto.”

Parámos de voar, não parámos de ter “loucuras”. Embora voar fosse certamente uma loucura, no entendimento dos nossos avós. E agora? Agora voltaremos a voar? A voar como antes…

Voa-se muito menos, mas temos o Aeroporto deserto…

Há-de significar qualquer coisa. E há-de servir de aviso. Afinal, mais do que em Viagem vivíamos numa Agitação imoderada. Sabíamos e não queríamos saber. Tudo o que é descomedido é humano. E sentíamo-nos tão felizes mas também tão cansados e tão infelizes por ser-assim-felizes. Como no Aeroporto, ansiosos por voar, ansiosos pelo risco (calculado) de sobrevoar as terras e nuvens.

Voltaremos a voar. E a arriscar (modestamente) voar. Dar-nos-emos Tempo, tanto a Nós como à Terra…

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