A inspiração fascista de Bolsonaro

9 min read

A eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República do Brasil, em outubro de 2018, consolidou um movimento de natureza autoritária no interior do país, mas representou também um importanteavanço para as forças de extrema direita no plano internacional. A mudança política proporcionada pela chegada ao Palácio do Planalto de um defensor incondicional da ditadura militar no país (1964-1985) marca uma grave descontinuidade em relação aos governos que vinham se sucedendo no período posterior à transição democrática e de vigência da nova Constituição de 1988.

Bolsonaro abandonou sua carreira de militar medíocre ao se candidatar e tornar-se vereador pelo município do Rio de Janeiro em 1987. Na sequência candidatou-se a deputado federal e foi eleito por 7 mandatos consecutivos (1991-2018). Com isso, passou essas quase três décadas como um parlamentar obscuro e inexpressivo, conhecido apenas por defender pautas extremistas como a pena de morte, a prática da tortura e as causas corporativistas dos policiais, dos militares das Forças Armadas e dos policiais militares dos estados.

No entanto, em razão da crise institucional criada a partir do golpe parlamentar articulado contra a Presidente Dilma Roussef em 2016, a direita e as forças políticas conservadoras não conseguiram criar uma alternativa eleitoral que lhes permitisse voltar ao poder. Conseguiram impedir que Lula fosse candidato por meio de um processo jurídico ilegal e fraudulento, que só foi desnudado em 2021. Dessa forma, a candidatura de Bolsonaro passou a ocupar esse espaço de um sentimento generalizado contra a política, contra os políticos e contra as instituições. Sua campanha foi eficaz no uso das redes sociais e ele chegou ao segundo turno, contra o candidato apoiado por Lula e pelas forças progressistas – Fernando Haddad.


As elites empresariais apoiaram Bolsonaro.

O apoio das forças empresariais e do financismo foi fundamental para que Bolsonaro conseguisse vencer o pleito. A natureza fascista e autoritária de seu discurso e de seu passado não pareciam preocupar aqueles que se diziam dispostos a aceitar qualquer solução para evitar a volta do Partido dos Trabalhadores ao governo federal. A tendência totalitária de suas propostas e seu conhecido desprezo às instituições democráticas foram subestimadas por aqueles que propunham votar nele contra Haddad ou pelos que preferiram se abster da disputa. Até aquele momento talvez não estivesse ainda tão evidente para tais setores das elites a clara polarização entre civilização e barbárie, tal como  colocada nas opções em debate.

Turbinado pelo apoio recebido dos grupos vinculados ao sistema financeiro, Bolsonaro nomeou um banqueiro e operador desse meio como um superministro da Economia. Apresentado pelo então candidato como seu assessor especial para assuntos econômicos, Paulo Guedes recebeu um ministério que era fruto da fusão de quatro pastas tradicionais na administração pública federal brasileira: i) Fazenda; ii) Planejamento e Orçamento; ii) Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; e, iv) Trabalho. Tal opção marca uma diferença de Bolsonaro para com a maioria seus congêneres da extrema direita pelo resto do mundo. Seu governo apresenta uma diretriz de política econômica que aceita e potencializa a liberalização generalizada para o capital estrangeiro, inclusive por meio de privatização de empresas estatais. Dessa forma, a chamada questão “nacional” não surge como um elemento estratégico na definição da natureza de seu governo.

Apesar disso, o presidente brasileiro jamais deixou de acentuar sua admiração pelo ex presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Desde sua posse em Brasília, a chancelaria brasileira passou a desempenhar um vergonhoso papel de linha auxiliar direta e automática dos interesses norte-americanos na diplomacia. O ex assessor de Trump, Steve Bannon, mantinha uma relação muito próxima com os filhos de Bolsonaro desde antes das eleições e o guru da extrema direita brasileira, Olavo Carvalho, pretendia abrir caminhos junto à Casa Branca. A recente vitória de Joe Biden criou uma espécie de vácuo na relação com a diplomacia norte-americana.


Bolsonaro e a extrema direita no mundo.

Além disso, a presença de uma figura como Bolsonaro no cargo máximo da maior nação da América Latina ocorre simultaneamente à ascensão de outras lideranças políticas da extrema direita em países do espaço europeu. Esse é o caso, por exemplo, Viktor Orban na Hungria e de Andrzej Duda na Polônia. O perfil autoritário, a intolerância com relação à temática de direitos humanos e o fundamentalismo religioso parecem acompanhar tais emergências na cena política. Por outro lado, o movimento liderado por Recep Erdogan e seu partido na Turquia também contribuiu para o fortalecimento de uma tendência nacionalista e autoritária na dinâmica internacional. Um caso ainda mais extremado refere-se ao processo verificado na Ucrânia, onde o grupo ultra nacionalista e independentista “Pravyi Sektor” passou a ser referência inclusive para a militância bolsonarista no Brasil.

Apesar das diferenças que marcam tais representações da extrema direita em suas particularidades específicas, o fato é que todas elas representam um movimento de afirmação de uma virada autoritária em seus espaços de atuação. Identificação semelhante pode ser observado no crescimento mais recente do “Front National” (renomeado “Rassemblement National”) na França, do Vox na Espanha, dos partidos neonazistas na Alemanha e Áustria, do “Lega Nord” na Itália e de agrupamentos do gênero em outros países.

A inspiração fascista de Bolsonaro nunca passou escondida na sua forma de ação política. Passados quase cem anos depois da nomeação de Benito Mussolini ao cargo de Primeiro Ministro na Itália, as marcas de sua comunicação com a população ainda seguem como referência ativa para os assessores do presidente brasileiro. Trata-se do reforço do elemento simbólico do líder popular, em seu contato direto com o povo, sem necessidade de qualquer tipo de intermediação com as representações da institucionalidade democrática e republicana.


Mussolini e Bolsonaro: inspiração um século mais tarde.

Ao que tudo indica, os responsáveis pelo cuidado da imagem de Bolsonaro buscaram em Mussolini as imitações quase ao pé da letra. As imagens a seguir são a mais cristalina evidência de tal tentativa. A primeira série representa ambos dirigentes nadando, em situação que os flagra em momento de aparente espontaneidade, mas como homens fortes, destemidos e valentes. Desafiam as águas e vencem o desafio, exibindo seus corpos às fotografias. A coincidência é mais do que evidente e fala por si mesma.



A segunda série de imagens apresenta o italiano e o brasileiro montados em cavalos, em uma postura de liderança e coragem. Além disso, reforça o elemento de capacidade de dominar o elemento selvagem e de conseguir se impor sobre a coletividade e superar as adversidades encontradas pelo caminho. A partir do comando do pelotão, ambos definem a trajetória a ser seguida por todos.



A terceira série de imagens oferece a participação de Bolsonaro e Mussolini em atos políticos de motociclistas. O reforço do elemento simbólico associado ao “macho no comando” é inquestionável. Apesar de ter ocorrido um século mais tarde, a “motocicletada” organizada em Brasília pelos responsáveis pela estratégia de comunicação do brasileiro tem sua fonte de inspiração claramente identificada. A resposta aparentemente foi positiva e manifestações semelhantes já foram realizadas e estão programadas em outras cidades. É nítida a busca de sintonia com o público masculino em busca de aventura, mas agindo de forma disciplinada e na obediência ao líder. Este vai à frente, dando o ritmo e a orientação aos seguidores.



Não fossem pelas imagens aqui capturadas, a fonte inspiradora de Bolsonaro não deixa qualquer margem para a dúvida. Trata-se de alguém que busca o reforço do indivíduo e que pretende liderar a população de forma direta, sem passar pela intermediação de partidos tradicionais ou pelo respeito às instituições como Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal e outras. Do ponto de vista da semelhança histórica, vale ressaltar que Mussolini chegou ao poder por meios democráticos e posteriormente foi consolidando, pouco a pouco, sua forma peculiar de governo autoritário. O que no Brasil tem sido chamado de “auto golpe”, na Itália da década de 1920 foi um processo contínuo de fechamento do regime democrático e de fortalecimento da figura do “Duce”.

Mussolini estimulou diretamente a criação movimentos como os “fasci” e depois os “camisas negras”, com o intuito de aglutinar apoiadores armados fora das instituições e mesmo fora das polícias e das Forças Armadas. Desde o início de sua trajetória, Bolsonaro cresceu politicamente como um elemento marginal e insubordinado no Exército. Mais tarde, passou a se articular com a formação de milícias no Rio de Janeiro, um movimento semiclandestino responsável por crimes como roubos, assassinatos e domínio do espaço territorial nas comunidades afastadas do centro e de baixa renda. Elas são constituídas por integrantes das policias civil e militar, tendo se espalhado por todo os estados do país.

A inspiração fascista de Bolsonaro é evidente. Cabe às forças democráticas atuar de forma urgente e enérgica para evitar a repetição da tragédia italiana.


*Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal no Brasil.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *