A insustentável traição histórica dos colombinos

(Emily Faith Sims / Monument Valley: Neo-noir – IPA 2020 / iphotoawards)

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Todos os anos, na quarta quinta-feira de novembro, que este ano calhou em 26/11, os cristãos norte-americanos celebram o dia de Ação de Graças (Thanksgiving). É feriado nacional nos EUA, o que leva os cidadãos a extravasarem largamente o âmbito religioso primordial das celebrações, que se propunham agradecer a Deus as boas colheitas e bons acontecimentos do ano, transformando-as num importantíssimo motivo de encontro da família. Com exceção do Canadá, onde também se realiza, não tem paralelo no mundo anglo-saxónico. Prepara psicologicamente o Natal e é realizado em ambiente de abundância, em que a gastronomia e o peru são reis, mesmo que não exibam a coroa de ouro em muitas famílias.

Para mal das famílias reunidas, este ano o Thanksgiving aconteceu umas magras três semanas após as eleições para POTUS, em que Joe Biden teve a proeza de derrubar Trump com mais de 7 milhões de votos populares e 74 votos de vantagem no Colégio Eleitoral.

Todos conhecem a inusitada contestação que o agora presidente lame duck fez ao processo eleitoral, movendo ações a todos os níveis do aparelho judicial, incluindo o Supremo, e recusando-se tenazmente a reconhecer o resultado, contra toda a evidência, o que ainda perdura. Trump é crescentemente visto como um sore loser, o que nos EUA, país que glorifica os winners como nenhum outro, tem um significado muito especial. No entanto, a sua base eleitoral da América profunda, a dos red states predominantemente agrícolas ou com uma indústria tornada obsoleta pela globalização, a dos red necks desapossados dos últimos resquícios do estado social e em choque cultural profundo com os universitários da Ivy League e com os colarinhos brancos de New England, cometeu a proeza de crescer uns milhões desde 2016 e recusa-se tenazmente a reconhecer o novo status.

Os EUA são, hoje, um país rachado a meio e o ambiente é tóxico. Há mesmo, a vários níveis, um ambiente de pré-guerra civil, que os americanos ainda têm dolorosamente gravado a fogo no imaginário coletivo.

Este ambiente tóxico afetou gravemente o Thanksgiving, o que, aliás, já vinha a acontecer pelo menos desde as eleições de 2016, que deram a vitória a Trump e que acentuaram o divisionismo, aumentando a fratura entre dois mundos, duas civilizações, duas culturas, duas psicologias e dois modos existenciais. O peru do Thanksgiving começou a ser tóxico à mesa e ninguém, à revelia da exuberante informação disponível, parecia querer compreender friamente o que se passava. Para alguns o problema estava mesmo, irritantemente, no próprio peru, que preferia esconder a cabeça na areia para não ser sacrificado em vão.

Independente das visões políticas, há um dado indiscutível em cima da mesa. A grande massa dos norte-americanos brancos do sexo masculino, os WASPs, tipicamente protestante e com descendência britânica, apoia Trump e o domesticado Republican Party, o Grand Old Party (GOP) dos tempos, ainda próximos, em que a comunidade branca era hegemónica na política nacional. Fá-lo num reflexo instintivo de sobrevivência, quase físico, em que o crescimento das imigrações latinas e asiáticas, bem como a crescente tomada de consciência dos afroamericanos, assumem um peso crescente, reciclando a anterior maioria em minoria. A nova minoria étnica e cultural, a dos WASPs, só não o é mais em termos eleitorais porque os GOPs estaduais passaram décadas a reconfigurar a arquitetura eleitoral dos estados de forma a perpetuar a vantagem, num infame processo de gerrymandering. Reverter os tentáculos deste labirinto, que coloca no fio da navalha um candidato com milhões de votos populares de vantagem, é uma tarefa ciclópica que muitos consideram impossível.

O que tem tudo isto a ver com Cristóvão Colombo, o “descobridor oficial” das américas? Pouco e muito. CC, num remoto 12 de outubro, pousou acidentalmente nas Caraíbas pensando ter encontrado as Índias, reivindicando oficialmente a descoberta de um New World cuja extensão e implicações jamais poderiam ser apreendidas pela sua parca imaginação. Mas foi de facto o inventor do moderno genocídio, aquele que abriu a caixa de pandora do extermínio em massa das populações nativas, que tranquilamente viviam nas suas terras, desbravadas há milhares de anos pelos antepassados que tiveram a coragem de cruzar Bering.

Foi, pois, o precursor de um processo interminável de expropriação, anexação e extermínio, continuado por outros, que foi largamente responsável pela continuada desconfiança histórica entre comunidades e pelos extensos conflitos étnicos, que ainda dilaceram as populações no continente americano, principalmente em países em que os invasores resistiram à miscigenação com os povos nativos e com os descentes dos escravos. Um exemplo notável desta resistência é precisamente os EUA, em que os WASPs continuam no centro dos conflitos, não obstante terem perdido a hegemonia demográfica. São muito mais numerosos do que foi a minoria branca na África do Sul, por exemplo, que foi forçada, apesar de uma resistência tenaz, a ceder o apartheid e o poder.

Tudo isto, claro, não iliba o Thanksgiving de ter uma conotação clara, a nível simbólico, com o reconhecimento dos méritos colombinos. Um dia, provavelmente, os norte-americanos terão a coragem de reconhecer que celebrar o Thanksgiving é, afinal, uma forma encapotada de celebrar aqueles méritos e, mesmo, certas formas de supremacia branca. Esse dia não chegará, claro, sem a feroz oposição dos WASPs.

O Thanksgiving americano deste ano foi, pois, duplamente tóxico. Para os WASPs foi mesmo um ato de amor-ódio. De amor, porque o continuaram a associar sem ambiguidade aos méritos colombinos. (Com isso transferiram irremediavelmente a clivagem para o irredutível núcleo dos americanos, a família.) De ódio, porque o associaram a uma perda eleitoral de proporções bíblicas: tudo se passou como se tivesse deixado de haver qualquer razão para celebrar a fertilidade e a abundância e, portanto, o próprio Colombo. Ter-se-iam mesmo sentido traídos por Colombo e, quem sabe, pelo próprio Deus. Foram, afinal, miseravelmente traídos por todos.

Estas “traições” têm um profundo impacto na vida e na política americana. Tal como muitos colonizadores, vindos das prisões, dos manicómios e dos redutos de pobreza extrema da Velha Europa, não esqueceram a “traição” dos opróbrios e da sociedade, também os WASPs não esquecem a “traição” de Colombo-Deus e clamam por vingança. Pior, já desencadearam e intensificaram a vingança, preparando um campo de minas para o President-elect e para a democracia. É mesmo possível que tencionem ir mais longe, mas ainda não sabemos bem. Há que estar atento.

Manifestações simbólicas aparentemente inócuas como o Thanksgiving assumem, pois, hoje, um poderoso significado cultural com potenciais repercussões de grande fôlego no panorama político.



A pirâmide inacabada do Grande Selo dos EUA ainda é encimada pelo Olho da Providência, sugerindo uma perpétua proteção divina. No entanto, a minha meia face anglo-saxónica preocupa-se e segreda sem tibieza: Annuit coeptis, the great seal says. / Hurry up, we have to. / The eye of providence is already half-way down the pyramid shantytown.

A preocupação é exacerbada pelo que se ouve por aí, em voz quase tonitruante: We columbines are great. / Others are just a snaky filthy fake.

A minha outra meia face desenterrou, por isso, um poema que escreveu no verão deste ano. E entendeu por bem reproduzi-lo, para cimentar o aviso.


a.maldição.dos.catos.de.phoenix


(fotos do autor, trabalhadas em GIMP)


Luís Martinho do Rosário
Relíquias-Odemira e Coimbra
agosto-dezembro 2020

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