A marginalização no quotidiano

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Conceição Lima, reconhecida jornalista e poeta santomense, encontra na poesia o verdadeiro espaço de liberdade que lhe falta no jornalismo em São Tomé e Príncipe. Nesta entrevista, e sem medo das palavras, a jornalista fala da deriva autoritária dos órgãos de comunicação social estatais, do estado do jornalismo no país e da sua poesia — o seu universo à margem de interferências externas. Ao longo das últimas décadas, tem colaborado com diversos órgãos de comunicação social nacionais e internacionais e, na sua longa passagem por Londres, foi produtora da BBC para os países de língua portuguesa. Atualmente na TVS, a televisão pública de São Tomé e Príncipe, viu já serem encerrados dois dos seus programas de debate político e sente na pele a marginalização por não abdicar da sua independência. Na literatura, não lhe faltam projectos. Este ano, deverão chegar dois novos livros de Conceição Lima às livrarias — um de poesia e outro de crónicas.

Dois programas de entrevistas e de debate político — Em Directo e As Cartas na Mesa — que eram conduzidos por si na TVS, foram encerrados, nos últimos anos, por indicação do Governo. Como é ser jornalista em São Tomé e Príncipe?

Eu diria que, neste contexto, é impossível ser-se jornalista com integridade nos órgãos públicos de comunicação social. É impossível ser-se jornalista, mantendo intacta a auto-estima, a dignidade, o profissionalismo, o sentido ético e deontológico, trabalhando nos órgãos estatais de comunicação social. Fica uma margem para o social, para o cultural, mas mesmo essa vertente não permite o exercício livre da crítica. Quanto às grandes esferas da cidadania política é uma impossibilidade. Os jornalistas que são incumbidos de fazer trabalhos e peças de cariz político têm uma espécie de carimbo, um selo do Governo, colado à pele. Basta dizer-lhe que o primeiro-ministro é sistematicamente entrevistado pelos mesmos jornalistas, que estão identificados, definidos, e outros jornalistas não o podem fazer. Depois há o que, como eu, mas não sou a única, que estão impedidos ou fortemente limitados de fazer qualquer trabalho que esteja ligado ao Governo, à Presidência da República, à Assembleia Nacional, ao Parlamento ou às Câmaras Distritais.

Esse afastamento não é, portanto, subliminar.

É óbvio e é acintoso. Regularmente o primeiro-ministro dirige-se à população, ao país, em longas conversas, que são sempre mediadas pelos mesmos jornalistas. Não há conferências de imprensa abertas, não há a possibilidade de se interpelar o primeiro-ministro, inesperadamente.

Hoje os órgãos não só estão governamentalizados, como estão partidarizados. Em 2012, a oposição fez cair o Governo no Parlamento e, entre 2012 e 2014, houve um outro Governo e, mais uma vez, assistiu-se a uma situação em que os níveis de governamentalização, quando existiam, não eliminavam os espaços de liberdade.

Esse controlo, essa “censura”, é recente ou tem vindo a notar-se já há vários anos?

Pode dizer-se censura, sem aspas. Há um crescendo. Há situações que poderão causar estranheza; por exemplo, as peças ou os trabalhos, considerados de alta responsabilidade, são entregues a jovens praticamente em fase de pré-estágio, cujo trabalho acaba por se limitar a recolher a informação, sem a questionar, sem a problematizar. Levam as informações para a redação, onde, depois, o chefe de redacção ou o diretor as trabalham, pessoalmente. Casos há, também, em que a peça produzida por um jornalista é completamente alterada, modificada, sem o seu conhecimento. Há aí uma lógica, uma linha muito clara.

Hoje os órgãos não só estão governamentalizados, como estão partidarizados. Em 2012, a oposição fez cair o Governo no Parlamento e, entre 2012 e 2014, houve um outro Governo e, mais uma vez, assistiu-se a uma situação em que os níveis de governamentalização, quando existiam, não eliminavam os espaços de liberdade.

Há sinais de agravamento desse controlo na última década?

A I República [de São Tomé e Príncipe] era um modelo de partido-Estado e caracterizava-se por um dirigismo constitucionalmente consagrado. O partido era força política dirigente do Estado e da nação, portanto não falamos de jornalismo na I República. Mas na II República, desde que foi implantado o multipartidarismo, houve sempre uma certa instrumentalização da comunicação social estatal. Em menor ou maior grau.

Mas havia abertura para um espaço como o “Em Directo”, o programa que a Conceição Lima conduzia de debate político e de entrevista na televisão pública.

Havia abertura para o Em Directo, no qual me senti sempre totalmente livre, quer em 2009, quando regressei de Inglaterra [após uma longa passagem pela BBC], quer em 2012, quando regressei à televisão, após o meu primeiro afastamento. Livre não só para fazer o programa, como para convidar regularmente porta-vozes do partido da oposição, como o ADI [Acção Democrática Independente]. Tal como no telejornal, havia uma margem para intervenção. No entanto, sempre houve um grau variável de governamentalização dos órgãos estatais de comunicação social, mas era algo que permitia espaços de liberdade. Em 2010, quando o ADI chegou ao poder, somos confrontados com uma realidade radicalmente diferente. Os níveis de governamentalização eram sem precedentes, os moldes de funcionamento das redacções dos órgãos [de comunicação social] estatais tornaram-se quase policiais, como são hoje, e assistiu-se a um agravamento brutal daquilo que podemos chamar a partidarização dos órgãos de comunicação social. Hoje os órgãos não só estão governamentalizados, como estão partidarizados. Em 2012, a oposição fez cair o Governo no Parlamento e, entre 2012 e 2014, houve um outro Governo e, mais uma vez, assistiu-se a uma situação em que os níveis de governamentalização, quando existiam, não eliminavam os espaços de liberdade.

Uma das primeiras medidas deste Governo quando tomou posse há três anos, senão a primeira, foi acabar pela segunda vez com o programa de debate e contraditório que eu tinha na TVS: Cartas na Mesa.

Em 2014, o ADI regressa ao Governo.

Sim, regressou-se ao cenário de 2010 de forma agravada. Basta dizer que nas últimas eleições presidenciais aconteceu algo inédito: o correspondente da RTP África, em São Tomé e Príncipe, Abel Veiga, um jornalista aguerrido, que é simultaneamente director do jornal digital TélaNón, que é neste momento o órgão mais isento, foi impedido, por seguranças do primeiro-ministro, de entrar na conferência de imprensa. Foi-lhe dito que não estava autorizado a entrar e foi, desde então, banido do acesso ao gabinete do primeiro-ministro, não pode lá pôr os pés. Há jornalistas, como eu, que também estão proibidos.

Uma das primeiras medidas deste Governo quando tomou posse há três anos, senão a primeira, foi acabar pela segunda vez com o programa de debate e contraditório que eu tinha na TVS: Cartas na Mesa.

E os outros jornalistas não se solidarizam com os colegas proibidos de aceder ao primeiro-ministro?

Não. Era uma boa pergunta para lhes colocar.

Por medo?

Acho que sim, que há medo. A cultura de repressão, que é também de intimidação, cerceamento, é uma cultura que se funda no medo. No país em geral, os níveis salariais são bastante baixos e os órgãos de comunicação social não são exceção. Os jornalistas dos órgãos de comunicação social estatais são mal pagos, muito mal pagos. E há muitos casos em que a trajectória e a carreira se fizeram quase de forma acidental e, portanto, as alternativas são muito difíceis.

Vários jornalistas reconhecem que há essa tendência hegemónica e autoritária nos media. Participámos numa sessão de trabalho com jornalistas que funcionou quase como um momento de catarse, onde a maior parte reconheceu essa tendência. Há um Sindicato de Jornalistas e uma Associação. Estas questões não se falam publicamente?

Neste momento, quer o Sindicato dos Jornalistas, quer a Associação de Jornalistas tomam posição. Por exemplo, nas comemorações do último aniversário do Dia da Liberdade de Imprensa, esteve presente o Presidente da República que rendeu homenagem aos jornalistas que se esforçam por trabalhar com seriedade, com rigor e imparcialidade. Quer o presidente do Sindicato dos Jornalistas, Helder Bexigas, que é funcionário da televisão, quer o presidente da Associação de Jornalistas, Juvenal Rodrigues, tomaram posição em termos inequívocos, denunciando o autoritarismo, a governamentalização e partidarização dos órgãos de comunicação social. O problema são as consequências dessas tomadas de posição, porque até agora não há, em termos de imprensa, alternativas aos órgãos de comunicação social estatais, o que torna a situação muito mais grave, porque não há alternativa à linha hegemónica de informação.

Parti para a BBC, uma rádio que era quase religiosamente escutada, assim como a Radio France Internationale, a Voz da América… Ouviam-se rádios do exterior para se ter informações sobre o que se estava a passar no país.

Por que é que não há essa alternativa?

O mercado é muito pequeno. Creio que, sem o mínimo de publicidade, estes órgãos não sobreviveriam. Asseguro-lhe que lá onde chegassem os tentáculos do Governo, esses órgãos seriam asfixiados à nascença. O jornal TélaNón sofreu. Foram avisados por uma empresa, que sempre tinha publicitado no portal, que teriam de deixar de publicitar por pressão do Governo e o Jornal K, que acabou de nascer, parece que já sentiu também essa pressão.

Parti para a BBC, uma rádio que era quase religiosamente escutada, assim como a Radio France Internationale, a Voz da América… Ouviam-se rádios do exterior para se ter informações sobre o que se estava a passar no país.

Como é o seu dia-a-dia na TVS?

Permaneço ainda na TVS, mas procuro alternativas à escrita — na Revista África21, na literatura. O dia-a-dia é igual ao de todos os outros jornalistas que não alinham pelo diapasão do autoritarismo, da governamentalização, da instrumentalização e da violação do código deontológico e ético na profissão. É igual ao de outros colegas, todos com muitos anos de profissão, e não disponíveis para agir como comissários políticos ou para serem submissos. Como jornalista, vivo a marginalização no quotidiano. É o estar emprateleirada. Uma das primeiras medidas deste Governo quando tomou posse há três anos, senão a primeira, foi acabar pela segunda vez com o programa de debate e contraditório que eu tinha na TVS: Cartas na Mesa.

Como foi esse processo?

Foi simples. O Governo tomou posse, o programa tinha reposição e foi dito que se estava a repensar os moldes em que o programa era feito. Esse repensar levou meses e nunca foi dito nada. Foi uma extinção não declarada desde o primeiro dia.

Foi diferente do encerramento do programa Em Directo.

Sim, provavelmente para não provocar as mesmas reacções que o programa tinha provocado [petição pública contra o encerramento do programa]. Foi um processo mais perversamente executado.

Não há espaço para um programa de entrevistas como tinha em 2014?

Não. Um programa aberto ao contraditório, em que se possa fazer sentar à volta da mesma mesa vozes contraditórias, dissonantes, está absolutamente fora de questão. Os órgãos de comunicação [social] estatais não têm espaço para isso. E aqueles que não se prestam a determinadas práticas, não só são impedidos de realizar programas dessa índole, como são apagados da grelha, são apagados do ecrã. Repito: não sou a única. O actual Governo, e mais judicioso será dizer, o actual primeiro-ministro, cultiva o horror ao contraditório e à imprensa livre.

Como é que conviveu no passado com estes diferentes graus de governamentalização ou, se se pode dizer, de “gestão autoritária” dos órgãos de comunicação social?

Convivo muito mal, como convivi muito mal no passado, já na I República. Era correspondente da Voz da América e da BBC, e em todas essas funções era considerada persona non grata pelo tipo de informação que enviava para o exterior. Tanto assim que a minha partida para a BBC foi problemática e foram necessárias intervenções externas para permitir que eu saísse. E estávamos num regime em que, constitucionalmente, o partido era a força política dirigente do Estado e da sociedade. Não me conformei e nunca convivi bem com aquela situação. Parti para a BBC, uma rádio que era quase religiosamente escutada, assim como a Radio France Internationale, a Voz da América… Ouviam-se rádios do exterior para se ter informações sobre o que se estava a passar no país.

A poesia é livre, o escritor em São Tomé e Príncipe é livre. Não há censura literária. Os escritores não são censurados, são pouco lidos e são habitualmente mais conhecidos e mais lidos fora do que dentro do país.

Hoje em dia, na poesia é mais livre.

Sim, sem dúvidas. Antes de tudo, porque se lê muito pouca poesia em São Tomé e Príncipe. Lê-se muito pouco, em termos gerais. O hábito de leitura é muito escasso. Em segundo lugar, porque a literatura nunca foi percepcionada como uma ameaça ao poder, talvez, precisamente, por não haver o hábito de leitura.

Não existem livrarias em São Tomé.

Não há uma livraria em São Tomé, exactamente. Quando disse isso num congresso, há alguns anos, houve uma escritora que ficou quase em estado de choque. A poesia é livre, o escritor em São Tomé e Príncipe é livre. Não há censura literária. Os escritores não são censurados, são pouco lidos e são habitualmente mais conhecidos e mais lidos fora do que dentro do país.

Publicar é extremamente difícil, eu tenho a sorte de publicar pela Caminho, em Portugal, e no Brasil pela Geração Editorial e pela Leya também. Mas o não ser lido ou ser pouco lido é doloroso, porque o poeta, o escritor escreve para ser lido, como ser social e criador.

Publicar é extremamente difícil, eu tenho a sorte de publicar pela Caminho, em Portugal, e no Brasil pela Geração Editorial e pela Leya também. Mas o não ser lido ou ser pouco lido é doloroso, porque o poeta, o escritor escreve para ser lido, como ser social e criador.

Escreveu em A Dolorosa Raiz do Micondó que o poeta conhece o sentido da sua mão. Diz a certa altura “O poeta é capaz de corrigir com a mão / A direcção do vento”. Isso aplica-se à situação do país?

O poeta em São Tomé e Príncipe pode ser fiel aos seus princípios e aos seus valores, pagando por isso o preço de ser também tentativamente marginalizado por razões extraliterárias. Mas pode ser fiel. Pode fazer da literatura o seu universo, o seu mundo e um mundo à margem de interferências externas. Publicar é extremamente difícil, eu tenho a sorte de publicar pela Caminho, em Portugal, e no Brasil pela Geração Editorial e pela Leya também. Mas o não ser lido ou ser pouco lido é doloroso, porque o poeta, o escritor escreve para ser lido, como ser social e criador. Ele tem em vista, ainda que de forma difusa, um público, e esse público em São Tomé e Príncipe é muito exíguo. As escolas que poderiam exercer um papel determinante nessa matéria não o exercem. Os escritores santomenses são muito mal estudados nos currículos, quando o são. O lugar do escritor santomense é praticamente inexistente, o que é culturalmente um acto quase suicidário, em termos de afirmação identitária, auto-conhecimento e afirmação colectiva, porque a obra do criador, o testemunho do criador deve aumentar o património de todos. Quando o criador cria e a obra é ignorada como parte do património, isso debilita o património colectivo, conspira contra o património colectivo.

Nos seus poemas, procura resgatar sempre aqueles que permanecem silenciados e esquecidos na História. Essa é também a função da literatura e da poesia.

Sim, o poema intenta iluminar trechos obscurecidos da História e intenta resgatar as vozes e as presenças daqueles que foram assassinados pela História, apagados pela História, rasurados pelos ventos da História, no passado e no presente.

E a poesia pode salvar?

Quero acreditar que a poesia pode ser um caminho para a salvação, ou pelo menos para uma certa forma de devolver uma certa retidão e claridade às coisas, para que a luz caia em prumo sobre a praça que é de todos.

A São continua a escrever poesia.

Continuo a escrever poesia, sou poeta. Às vezes, as pessoas perguntam-me “para quando um romance?”. Eu não vejo a poesia como uma etapa que antecede o romance, ou os contos.

Não é um género menor.

Não, nem uma via transitória. Sou poeta e serei sempre poeta. Estou a escrever alguns contos curtos, muito devagar, lentamente, e a escrever o quinto livro de poesia. Tenho um quarto livro de poesia — Quando Florirem Salambás no Tecto do Pico [2015, não está publicado em Portugal] — que será publicado no Brasil e nos EUA. Está publicado em São Tomé e Príncipe [edição da autora]. É um livro muito curto, nascido em circunstâncias muito especiais e tem 25 poemas apenas. Foi-me sugerido que engrossasse um pouco o livro, e eu disse que o queria assim, por razões muito íntimas.

Fez questão de o editar em São Tomé e Príncipe.

Sim.

E quando será editado em Portugal o quinto livro de poesia?

Este ano. O meu editor, Zeferino Coelho [da Caminho], está à espera. Estou também a escrever um livro de contos, que não sei quando será lançado, talvez também em 2018. E tenho em preparação um livro de crónicas que escrevi como jornalista ao longo de toda a minha carreira. Esta promessa tem já alguma barba, devia ter sido já há algum tempo. Estou na fase de selecção daqueles que acho que beneficiam de uma certa intemporalidade.

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