A melhor vacina é a que se pode escolher

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Expressões como a aceitável “a melhor vacina é a que chega no seu braço”, passando pela falaciosa “não existe melhor vacina”, até a abjeta “sommelier de vacina” passaram a ser lugar comum no, a priori, nobre esforço da imprensa em direcionar as massas paras os postos de saúde. Mas ao contrário de se decidir entre um Cabernet da Borgonha ou um Chianti da Toscana, a vacina que se toma poderá definir quão mais distante se estará da doença ou, no limite, da morte. É pouco razoável que tenham transformado em narrativa padrão um paralelo entre uma frivolidade degustativa a busca desesperada por uma melhor proteção, anseio natural, legítimo e facilmente compreensível.

Diante da urgência, qualquer proteção é melhor do que nenhuma e todo dia descoberto é um dia a mais de perigo individual e coletivo. É necessário que essa mensagem fique clara a todos. Mas muitas léguas separam a promoção da sensatez da deslegitimação, ou mesmo ridicularização, da ação natural daqueles que, com justificável medo, decidem buscar pelo que consideram ser a melhor opção. E certamente tratar essas pessoas como idiotas não deveria ser uma missão autoinvestida da comunicação social.

Não que o messianismo da mídia seja alguma novidade, mas me parece que a ânsia por tutelar a audiência nunca foi tão escancarada. Em algum momento da pandemia os meios de comunicação decidiram que o papel que lhe cabe de informar, além da cada vez mais prevalente prática de opinar, já não eram mais o bastante. Qualquer um com um microfone na mão se sente no direito de definir regras de conduta e fiscalizar comportamentos. Esta não é a função da imprensa, mesmo que os motivos pareçam justos.


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Existem casos de sucesso de países que garantiram não apenas o direito à vacina, mas também o direito à escolha. Se até a empobrecida Sérvia foi capaz de oferecer alternativas para seu povo, por que não o Brasil? É evidente que a incompetência, a má-fé, ou uma mistura dos dois atributos, impossibilitou que o Estado ofertasse imunizantes em número suficiente e em tempo adequado para sua população. Que fique claro que a escassez evitável é a pedra angular de todos os problemas subsequentes, essa conta não pode ser repassada com ar de deboche para os ditos sommeliers.

Embora aqui em casa estejamos todos vacinados, não necessariamente com nossas doses preferidas, parece-me claro que a Pfizer é melhor que a AstraZeneca, que a AstraZeneca é melhor que a CoronaVac e que a CoronaVac é melhor que chá de boldo. Nessa ordem. Minha mãe prefere as da China porque, segundo ela, são um povo mais meticuloso. Já minha avó é simpática à Sputnik, “os soviéticos sempre foram bons nisso”. Pouco importa se entendemos tanto de imunologia quanto de fissão nuclear, a moça assertiva do jornal das 10 também não parece muito versada no assunto. Desde que não recusem suas doses, todos que tiverem a chance de escolha deveriam aproveitá-la, tanto faz que ela seja orientada pelos estudos mais recentes de eficácia ou por um palpite que traga paz de espírito. O Estado que cumpra a parte que lhe cabe.

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