James Resly (Unsplash)

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Mas correu tudo bem. Enquanto os dragões desapareciam, depois de esgotados todos os fogos, o nosso Satanás elevou-se bruscamente no céu, com todos os foguetes acesos; de todo o seu corpo e a toda a volta jorravam bolas de fogo que explodiam, estralejando. A ideia de termos mergulhado no terror a cidade de Istambul inteira fez-me sentir, também a mim, invadido de emoção. Dava-me a impressão de que finalmente me tinha lançado com audácia naquilo que queria fazer na vida, como se pouco me importasse, naquele momento, a cidade onde me encontrava!

OHRAN PAMUK
A cidadela branca


Não foi a única vez que Martin se tinha metido em apuros. A primeira vez foi em İstanbul, tinha ele 34 anos.

A sua vida na escola médica não era fácil. Viviam-se os tempos férreos de Thatcher e o dinheiro era curto.

Tinha que reparar os seus próprios computadores, o que para ele, diga-se, era apenas um desafio, senão mesmo um prazer. As máquinas eram simples: um batalhão de AppleIIe que a escola tinha comprado nos tempos de Callaghan, carinhosamente alcunhadas little ducks pelo seu ar inocente, a roçar o naive. Usavam floppies de 3,8 polegadas, pretas e moles, que os estudantes utilizavam como marcadores de livros. Escreveu a sua tese numa dessas máquinas, conhecia-as bem. Reparava também tudo o resto.

E improvisava. Improvisar, aliás, fazia parte do survival kit da era Thatcher.

Os técnicos do laboratório não gostavam. Jack, o mais novo, começou a troçar e a contar anedotas picantes na common room. Para os colegas mais velhos, que nunca tinham saído, Martin era engenhoso e útil mas perigoso, um rufia disfarçado. Também aqui, à moral, chegava o braço longo de Thatcher. O facto de ser escocês também pesava.

O seu ar não ajudava muito. À altura os cabelos eram negros e usava bigode, vagamente retorcido nas pontas. Sempre despenteado, pois saia tarde da cama e demorava 5 minutos a chegar. Nunca soube se era disto ou se gostava que fosse assim, ponto. De qualquer forma tinha ar de mogno e não de faia. Mais tarde veio a saber que o seu avô era turco. Parece que vivia em Adana, onde a sua avó o encontrou em férias, num arraial popular.

(Muitos anos mais tarde chegou a sentir uma vaga simpatia com o loiro Boris, que tentava disfarçar o seu conservadorismo empedernido com o bizantinismo militante, quase libertário. Os avós de Boris eram turcos. Os ingleses ficaram mesmo encantados com o Boris-faia-anti-Europa. Como, o UK não faz parte da Europa? Nunca se percebeu bem isto. Talvez os ingleses não se considerassem parte do UK e, portanto, da Europa. Mas farão parte de quê, afinal? Estão a 5,500 km de distância lisa dos EUA, e Trump não se comove. Às tantas consideram-se um território autónomo das Ilhas Caimão, o que provavelmente lhes ajuda as contas.)

Em İstanbul com Pablo.

O primeiro sinal de que havia alguma coisa no ar foi a sessão inaugural do congresso, onde queria que Pablo apresentasse dois posters.

Apareceu o Presidente em pessoa, na língua-mãe, fazendo o elogio da Turquia moderna e de Atatürk. Parecia ralhar em tom inflamado para gáudio do intérprete, que sorria. Como pôde a sua avó aturar isto? Ou seria o seu avô suave e doce, como as amêndoas da Anatólia?

Depois foi a receção.


Hassam Wasim (Unsplash)

A Turquia é um país de contrastes violentos. Um gomo de lua brilhante e um ar quente e doce. Centenas de congressistas em cadeirinhas brancas. A dança do ventre das bailarinas. A dança sincrónica das cadeirinhas, tomadas por uma medusa gigante, uma medusa-linfa, que inchava e desinchava, atirando alguns para os vértices da lua, presos com atilhos elásticos, yo-yos. Os risos de guitarras, alaúdes, oloés e gaitas-de-fole em despique cerrado. Os címbalos de dedo em narizes e dedos dos pés, vibrando nos corações e apagando os cérebros.

Apetecia saltar e voar. Riso e choro. Gritinhos.

Uma bailarina veio ter com ele, dançando uma e segunda vez.

Chegava, dançava e partia. Soube mais tarde que deveria ter deixado 100 liras nas meias de seda. À terceira levantou-se e seguiu-a. Centenas de olhos. Querido, segura aqui. Colou-se por detrás e ondulou-lhe os quadris. É assim. Prendeu-a com os braços em arco, senão caia. Centenas de olhos. Se calhar é o bigode. Colou-lhe os zils aos dedos. Depois veio o tronco, em ondulações suaves. Sentiu duas pressões delicadas. Apertou mais. Já eram um. Zehra chamou duas amigas. Dançaram os quatro no palco. Cedeu ao esforço, mas o abraço apertou. A divinia chegava até si em imparáveis vagas de notas florais. Pára agora, Zehra, já não posso mais. Sim, podes. Centenas de olhos. Se calhar é o bigode.


Matthew Schwartz (Unsplash)

Pablo disse-lhe mais tarde que os seus posters tinham sido os mais vistos do congresso.

Convidou-a para jantar no dia seguinte e aceitou.

Levou-o a um restaurante flutuante no Bósforo onde se comia pôr-do-sol e algas. Mas escolheram uma sopa ezogelin, seguida de yaprak e kisir, e terminada com baklava, tudo regado com pasaeli branco. Violino e mais divinia.

Zehra era um pouco mais alta do que ele e tinha olhos-amêndoa. Tinha uma irmã arquiteta, que ajudava a desenhar İstanbul, e um pai que passava os seus dias no Grande Bazar, onde tinha uma loja de especiarias.


Ben Wicks (Unsplash)

Zehra ondulando-o pelo palco, segurando apertadamente os quadris, os seus quadris. Ainda tinha as marcas dos zils. Just a drop of pasaeli, please. Encheu-lhe bem o copo. A irmã gostava de Ohran Pamuk, que também construía İstanbul, à sua maneira? A minha irmã gosta de ler, mas prefere banda-desenhada e até publica num jornalzinho. Sim, podes. Just pass me the kisir, please. Zorba o grego, em versão turca. Prendeu-a ainda mais fortemente por detrás, senão caia. Mais notas florais. Mais pasaeli. Pára Zehra, já não posso mais. And now baklava, just a spoon. Pára Zehra. Querido, estás muito suado mas ainda podes. Zehra. Força, força. Ze.

***

Deu consigo numa loja de especiarias do Grande Bazar. Espreitou e havia um labirinto interminável de lojas, principalmente de tapetes e especiarias. Lojas e mais lojas. E gente, muita gente. Tapetes, pimentas e açafrões. E mais gente.

Estava estranhamente sentado num tapete fofo, como se esperasse alguém e não soubesse quando chegava.

O espelho disse-lhe que vestia o mesmo, mas que faltava o bigode. O cabelo era agora mais claro. Ficava com um ar global de faia.

O dono da loja disse-lhe que tinha chegado sozinho e parado para cheirar as especiarias. Já ali estava há doze horas e tinha-lhe oferecido chá e biscoitos.

Não, não conhecia Zehra. Não tinha filhas, só um filho de 19 anos que nasceu com um defeito e o ajudava quando podia.

Não, há três dias que não tinha ouvido falar de estrangeiros raptados ou abandonados com álcool ou drogas. Mas sim, era possível. İstanbul tinha o dobro da população de Nova Iorque.

Ligou a Pablo. Ficou aliviado e chorou. O congresso tinha acabado há cinco dias e tinha defendido os posters sozinho. Apareceram centenas de colegas para o ver. Todos perguntaram por ele, muito embora lhe tivesse parecido que não o conheciam.

Procurou-o por todo o lado, mas não o encontrou. Deixou mensagens onde pôde. Relatou o caso à polícia, que o procurou nos sítios mais óbvios. Sim, também no Grande Bazar. E nos principais restaurantes do Bósforo.

Após insistência pediram ajuda à Interpol.

Entrevistaram as bailarinas da receção mas nenhuma o conhecia ou imaginava sequer que o pudesse ter conhecido.

Os colegas que lá tinham estado não o viram no palco. O bigode não parecia ter ajudado. Isto era importante, porque o testemunho de Pablo indicava claramente que ele teria desparecido durante ou pouco depois da receção.

Regressou a Inglaterra e todos os amigos e colegas lhe fizeram uma grande festa. Toda a família insistiu em vê-lo e celebraram juntos.

Tinha perdido o ar de mogno e estava pacificado. Parecia que tinha feito uma longa viagem e que tinha aprendido muito, sobre o mundo e as pessoas.


Greg Rakozy (Unsplash)

Nunca entendeu bem o que se passou, mas tinha agora a sensação de que o mundo estava cheio de portas que não se viam, por onde algumas pessoas entravam e saiam.

É muito provável que alguma loja do Grande Bazar possa ser uma dessas portas. Pode ter entrado nela durante a receção ou durante o jantar com Zehra.

Pareceu-lhe possível que uma tempestade cerebral, principalmente coletiva, possa fazer com que uma pessoa sensível transite para outra dimensão durante algum tempo.

Sentia de fato que a Zehra existia noutra dimensão e que se limitou a ir ao seu encontro.

Tinha a vaga sensação de ter sido muito, muito feliz enquanto lá esteve.


Alvaro Parra (Unsplash)

Para entrar em contacto com o autor: pratas-young@theyeofhorus.net

1 thought on “A porta de Zehra

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