“A resistência ocupa espaço”

— entrevista com Érika Hilton, a mulher mais bem votada no Brasil nas últimas eleições.

16 min read

Em 2020, para além do fenómeno da pandemia da Covid-19, o Brasil, o país onde mais se matam pessoas transexuais e transgéneros no mundo, vivenciou nas Eleições Municipais um outro evento histórico. Houve um número recorde de pessoas transgéneros que concorreram a uma vaga seja para prefeituras ou para as câmaras de vereadores. De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) brasileiro, o total de 270 candidaturas de pessoas trans foram confirmadas, mais que o triplo de 2016, quando 89 pessoas trans concorreram. Dessas, segundo mapeamento da Associação Nacional de Transexuais e Travestis (ANTRA), 30 foram eleitas, e, inclusive, sete delas foram as mais votadas em suas cidades.

É dentro desse contexto, contrariando todas as estatísticas históricas do país, que Érika Hilton, nossa entrevistada, se elegeu como a mulher mais votada do Brasil nessas eleições, com 50.508 votos, ela tornou-se a primeira vereadora trans e negra de São Paulo.  Foi em 2018 que Érika iniciou seu percurso político; após destacar-se na militância estudantil, foi convidada para integrar a Bancada Ativista do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Curioso, visto que, em 2018, ocorriam as Eleições Presidenciais no Brasil e, nesse processo, a identidade de género foi alvo de ataques de diversos candidatos, mas sobretudo do presidente eleito, Jair Bolsonaro.


sinalAbertoComo você enxerga as duas últimas corridas eleitorais, as discussões que foram promovidas e os candidatos eleitos?

Érika Hilton – É paradoxal quando a gente olha para esses dois pontos, estes dois polos da conjuntura política brasileira. De um lado temos a legitimação do discurso de ódio, do discurso excludente, do discurso preconceituoso. Do outro lado, nós temos uma ascensão, uma chegada desses grupos que estão sendo oprimidos por esta instituição, nas instituições. Para fazerem valer também essas vozes e garantir os direitos que nos estão sendo negados. E proteger os poucos direitos que já havíamos conquistados anteriormente. Então, por mais paradoxal que seja, existe uma reação. Porque enquanto essas estruturas da institucionalização do ódio, do preconceito e da discriminação se colocam, do outro lado, a gente também percebe o impacto gigantesco que isso tem na nossa vida, no nosso cotidiano, na garantia dos nossos direitos. E, por isso, vamos organizando-nos, movimentando-nos para tentar barrar todo esse retrocesso. Para mandar um recado e dizer: olha, não ficaremos passivas, de braços e pernas cruzados, sentados diante do desmonte do nosso País e do desmonte de políticas que atendam nossas populações! Para isso, nós vamos estar engajados, nós vamos conscientizar as pessoas, politicamente, para que o mínimo de direito possa ser assegurado.


sA Nas eleições de 2018, algumas FakeNews surgiram em torno dos candidatos que combatiam a homofobia e defendiam os direitos das mulheres. Já nas eleições de 2020, vimos que candidatos com a mesma pauta foram eleitos, inclusive como os mais votados. Como você enxerga este processo? 

EH —Eu vejo dessa maneira: o conservadorismo levanta-se também em combate a essas dissidências que se vão organizando em suas bases para manter-se vivas e conquistarem cada vez mais direitos. Então, a gente tem uma onda conservadora e reacionária que vem dizer: “não, aqui no Brasil agora é Deus acima de tudo, não tem LGBT, não tem mamadeira de piroca”.  Por quê? Porque percebe que essas comunidades têm conseguido avançar e dar alguns passos. Mas do outro lado a gente faz a mesma coisa. Enquanto eles tentam nos combater, a gente se organiza para manter-se vivo. Então eu acho que é uma coisa que se vai encontrando, que se vai confrontando com a outra e a gente segue na luta, pela quebra dessas estruturas conservadoras.  




sA – E como foi esse processo para você? O processo de campanha eleitoral, em um país extremamente polarizado. E depois de eleita, o fato de você ter ocupado este espaço diminui os ataques e preconceitos?

EH — De forma alguma, na verdade o fato de eu ter-me eleito como a mulher mais bem votada do País, ganhado repercussão nacional e internacional, em espaços que muitas vezes nem sequer tinha aparecido uma travesti, tudo isso fez com que eu fosse ainda mais perseguida, mais atacada, mais odiada por esse grupo – que já me odeia –, mas que odeia não só a Érika Hilton, senão também as pessoas trans, as pessoas pretas, as mulheres, as travestis de um modo geral. Mas que também passaram a direcionar o ódio para a travesti negra Érica Hilton, por estar em um lugar que, na concepção deles, não poderia ser ocupado pelo meu corpo. Porque parece que o meu corpo está roubando um lugar, que eles disseram, eles acreditaram que era exclusivo e legítimo apenas para eles. Então, ter conseguido eleger-me foi importante porque eu levo para a Câmara Municipal de São Paulo uma discussão que estava adormecida, que era empurrada para debaixo do tapete.  E isso traz uma consciência, uma dignidade à comunidade LGBT, às mulheres, à negritude, que antes não tinha. Mas com relação aos ataques, as ameaças, as perseguições só têm aumentado.



Ruan Richard (Unsplash)

sA — E como foi durante a campanha política?

EH —A campanha foi durante a pandemia. Por isso, ela teve uma série de obstáculos, de distanciamentos, de não poder fazer uma série de coisas que normalmente ocorrem em campanhas eleitorais. Mas eu recebi muito amor nas ruas, porque quem me encontrava nas ruas, eram pessoas que acreditam no mesmo mundo que eu acredito. Que comungam de ideais de direitos humanos, de valores, de equidade, de justiça social que eu também acredito. Então eu fui muito amada, muito bem recebida. Houve episódios esporádicos de ataques, de fake News, para tentar-me desmoralizar. Mas, o tempo inteiro eu tinha o calor das pessoas, porque nós somos minorias no acesso ao direito, mas nós somos uma grande maioria que queremos um mundo diferente deste que agora estamos vivendo. E é isso que eu apresento agora no meu projeto político: essa nova possibilidade de existência, esta nova forma de pensar a política, a chegada de corpos que nunca puderam estar naquele espaço, ocupando aquele lugar em bonde, de galera, juntos! E isso fez com que eu encontrasse muitos pares nas ruas. Depois com a visibilidade, aí que esses ataques, esse ódio, essa perseguição, inclusive com tentativas de invasão do meu gabinete, dentro da Câmara Municipal de São Paulo – acho que isso nunca aconteceu com nenhum parlamentar no Brasil – realizado, por um perseguidor de internet, que tentou entrar no meu gabinete, na Casa Legislativa. Isso, depois das eleições. Mas antes, eu estava num momento de construção e, talvez, eu nem olhei para isso, sabe? Eu nem parei para observar, porque eu estava tão conectada, tão focada, com o meu propósito, com a minha história, com a minha gente, pelo país que eu quero construir – que eu acredito que é possível – que eu talvez nem tenha visto. Esta é a minha percepção campanha e pós campanha.


sA – Vamos falar um pouco então sobre esse propósito. Quais são os planos, os projetos, para os próximos 6 meses? Sabemos que ano que vem tem uma eleição importante para o nosso País. Daqui até lá, quais são os projetos que pretende concluir?

EH — Olha, nós temos uma agenda bastante intensa e extensa também. Inclusive, porque estou à frente como presidenta da Comissão de Direitos Humanos, da Câmara de São Paulo, então nós temos um fluxo de demandas muito alto voltado à agenda dos direitos humanos. Mas uma das nossas prioridades para os próximos seis meses, até o final do ano, é a ampliação do Programa Transcidadania, na cidade de São Paulo, uma melhoria desse programa que atende a população LGBTQIA+; Uma discussão profunda da Lei das Diretrizes Orçamentárias da cidade, para que haja investimento nos pontos que são mais urgentes e necessários – as populações LGBT’s, as populações de rua, a negritude, as mulheres. Estas têm sido nossas grandes prioridades.  Queremos discutir as Diretrizes Orçamentárias, para saber para onde vai esse orçamento e como, através deste orçamento, podemos dar algumas respostas aos nossos setores mais vulneráveis e precarizados da cidade de São Paulo. A gente também tem atuado na construção de casas de acolhimento para homens trans, que não tem na cidade de São Paulo, e essa é uma meta que gostaríamos de entregar muito, até o fim do ano. Estamos dialogando com a prefeitura, conversando com as secretarias, porque gostaríamos muito de ver essas casas sendo entregues até o fim deste ano. Essas são as prioridades para os próximos seis meses.




sA —Estas são as prioridades?

EH —É, e é muita coisa para seis meses, portanto talvez eu não consiga, mas vamos tentar, avaliar e trabalhar. A Lei de Diretrizes Orçamentárias, sabemos que dá porque ela tem que estar completa até o fim deste ano, outras pautas que não demandam um calendário fixo, aí depende da boa vontade, das articulações, do trabalho que vamos fazer ao longo do semestre aqui na cidade. Ah, e tem outra coisa que vamos fazer também, relacionada a anemia, uma doença muito presente na população negra, quando falamos sobre saúde, a anemia falciforme. E que nós, no debate sobre saúde, temos pensado e planejado sobre como fortalecer, desde a UBS (Unidade Básica de Saúde), espaços que atendam, que façam acompanhamento e que auxilie estas famílias. Que a quantidade de pessoas adoecendo com esta doença, sem recursos e majoritariamente negra, porque, enfim, faz parte de um processo histórico desta população… Também está dentro desses assuntos prioritários nosso projeto de construção de uma São Paulo mais humana, de uma São Paulo que as pessoas tenham abrigo, tenham acolhimento, tenham acesso à saúde, ao transporte, à educação e à moradia. Então isso tá para os próximos seis meses. Mas nosso objetivo, claro, é ampliar para os próximos anos, até a gente conseguir fazer o máximo. Sabendo que o jogo político não depende só da nossa vontade. É todo um esquema de pessoas que nem sempre – na verdade elas nunca estão- alinhadas com os direitos dos mais vulneráveis, dos mais precarizados. Então, é uma batalha muito difícil que a gente trava dentro dos espaços legislativos. O meu maior propósito é continuar batalhando, brigando, exigindo até que se consigo o máximo.


sA — Como falamos, anteriormente, nos últimos anos, falar sobre género, no Brasil,  tornou-se um tabu. Como tem sido dentro da Câmara de São Paulo levantar essa pauta?

EH —Uma loucura, uma loucura… As pessoas são muito precárias, muito pobres em conhecimento quando se trata do tema. Apesar da ignorância completa sobre o assunto, as pessoas acham que sabem, a partir das suas próprias convicções e de suas ideologias fundamentalistas.  E isso gera uma impossibilidade de diálogo. Porque eu não estou dizendo aos meus colegas: “vocês precisam gostar e concordar”. Eu estou lá para abrir o diálogo porque estamos dentro de uma Casa Legislativa, que precisa legislar para todos os indivíduos, sem exceção de pessoas.  E aí quando alguns chegam com convicções prontas, estáticas, ideias baseadas no ódio, no preconceito, na ridicularização, na discriminação, torna-se muito difícil pautar essa discussão com qualidade. E aí tudo que se propõe, por exemplo eu propus um projeto que está parado pela bancada cristã, por conta da incompreensão deles em relação ao debate, o projeto é para discutir a Lei Maria da Penha nas escolas, na semana da conquista desta lei para as mulheres, e aí eles já atrelam automaticamente a um debate de género e sexualidade para as crianças dentro da escola. Nem se dão ao cuidado, ao trabalho de buscar entender sobre o que o projeto trata. Então existe uma resistência e um conservadorismo gritante, que não quer que a gente tenha direitos. Porque isso é para que a gente não avance, não conscientize. Para que, assim, a gente não saia dos lugares de mazela sociais e estruturais em que fomos colocados. E isso é muito difícil. Mas eu não meço esforços, a minha vida é completamente composta por episódios difíceis. Então esse pra mim é mais um desses episódios. Olha, mas realmente é uma coisa que as pessoas deveriam olhar com mais atenção nas próximas eleições. Para verem em quem de fato elas estão depositando o voto delas. Elas estão depositando o voto em uma pessoa que pensa em legislar para a cidade e pensar naquilo que é bom para todos, ou se elas estão dando o voto delas em pessoas que se embasam em discursos de ódio, de discriminação, de preconceito. Porque esse preconceito é sim muito pior para o alvo dele, mas não é bom também para a sociedade como um todo. Ninguém se beneficia em uma sociedade injusta, desigual, cheias de preconceito e cheia de ódio. Mas claro que a vítima desse ódio é milhões de vezes mais atacada por isso e mais precarizada. Mas, se fizermos uma análise mais macro da sociedade, a gente vai ver que todos perdem com esse tipo de sociedade. Então, é um desafio bem grande.



sAPara finalizarmos, regresso ao início de nossa conversa, quando falamos sobre o paradoxo de termos no mais alto cargo do governo um discurso de ódio às questões de género, enquanto por outro lado historicamente a política se transforma e elege novos perfis, que até então eram socialmente marginalizados. Entretanto, também em 2020 o Brasil teve um recorde de assassinatos de mulheres transgéneros. Inclusive, agora em 2021, no mês de julho, mês do Orgulho LBTQIA+, houve vários assassinatos e casos de violência contra travestis e transgéneros. Como você enxerga a continuação de todo esse processo de violência e marginalização, apesar da resistência que aparece?

EH —Quanto mais a gente avança, quanto mais saímos das sombras sociais a que fomos sentenciadas, empurradas e aprisionadas, mais ódio a sociedade nos devolve, com mais ódio a sociedade nos trata. Esta violência é uma tentativa explícita e aberta de extinção da nossa população. De fazer com que a gente não saia das esquinas, do anonimato, da submissão ao patriarcado. E, assim, fazer com que a gente fique presa no genocídio, no encarceramento, no “drogaricídio”. É isso! É o ódio gratuito que a cis-hetero-normatividade sentem pelas pessoas trans e travestis. É a afronta da liberdade, empoderamento, autenticidade que nós representamos a uma sociedade hipócrita, que vive atrás de uma máscara que constrói e mantem com muito sacrifício. E eles não nos querem ocupando outros lugares. Nossos corpos foram pensados por este sistema, para ficar na prostituição, nas drogas, no encarceramento, na vala, na morte, no escuro… E aí quando nós ousamos outros lugares, a violência assola-nos. Porque ousar outros lugares também significa afrontar uma masculinidade frágil, que se utiliza do nosso corpo através de um fetiche, de um desejo, de uma erotização. E que não quer confrontar-se com a gente nos mesmos espaços que os seus. Porque isso significa uma ameaça a sua frágil masculinidade. Essa é uma discussão muito complexa. O que nós, não apenas eu, nós da comunidade Trans e Transgénero temos feito diariamente para enfrentar esse ódio e essa violência, em primeiro lugar, é resistir e ficar de pé diante de tanta dor, de tanto sofrimento. Diante de tantas perdas, nós mantemos o nosso foco que é combater e acabar com a transfobia, e vamos levar os nossos corpos para ocupar todo e qualquer lugar/espaço da sociedade. Seja ocupando lugares na política e através disso formulando políticas públicas de conscientização de emancipação desta comunidade, ou ocupando as artes, a literatura, a academia, o cinema. Enfim, todos os lugares. Para que sejamos vistos, naturalizados. Só assim a sociedade vai respeitar a nossa existência, que não fere a existência de nenhum outro. Vamos desconstruir a naturalização do ódio, da morte, da execução contra o nosso corpo. Como? Denunciando, formulando políticas públicas, ocupando espaços e resistindo. Trazendo toda a nossa bagagem histórica, porque travesti, transgéneros no Brasil são símbolos de luta, de resistência, de cultura, de resiliência. Vamos mostrar tudo isso ao mundo, para que ele descontrua a imagem que foi estruturada e nos permita viver e existir porque é só isso que nós queremos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *