A semiótica do ódio

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O Brasil ser um país em frangalhos é notícia de ontem. Cria-se aos poucos, mas em tempo recorde, uma nação partida. Não que em diversos aspectos já não fosse. O Brasil dos brancos nunca foi o mesmo que o dos negros, a sorte sempre sorriu mais para os do Sul do que para os do Norte e, como na não tão mítica Belíndia, os ricos já usufruíam de sua Bélgica privativa, enquanto aos pobres restava as mazelas da Índia.

A construção de uma sociedade segregada talvez seja o mais consistente e bem sucedido projeto de país, e vem recebendo, no último par de anos, um tremendo incentivo. Porém, há agora um elemento novo, que mal se define em termos inteligíveis. Uns (ainda!) temem o triunfo do comunismo sobre o capitalismo, outros finalmente parecem se dar conta do que significa fascismo, muitos se limitam a uma oposição entre conceitos mal formulados de direita e esquerda. Mas no fim do dia, quase todos escolheram um lado do muro e trabalham, passiva ou ativamente, para reforçá-lo.

Entendo como as desavenças possam se transformar em rancor e, eventualmente, em ódio. Mas uma coisa sempre me intrigou nesse processo: como poderia um protestante irlandês reconhecer um católico a quilômetros? Ou um sérvio decidir atravessar a rua para não cruzar com um croata? Em suma, como identificar seu antagonista quando supostamente não haveria traços aparentes que o identificassem como tal? Vejo, hoje, que após atravessado o Rubicão dos ódios fratricidas, as pistas, para não dizer que são fartas, dificilmente nos escapam.

Na falta de elementos mais definitivos, como um adesivo colado no carro ou uma estampa de camisa, podemos nos identificar, e nos afastar, com base em dados mais sutis, mas que ainda assim guardam um razoável grau de acuidade. São bons parâmetros os lugares que frequentamos, as músicas que ouvimos, ou mesmo traços estéticos e de indumentária. O uso indiscriminado do vermelho ou do verde e amarelo, por exemplo, já pode indicar mais que o simples gosto pessoal.

A internet nunca esteve alheia ao maniqueísmo, muito pelo contrário, há poucas dúvidas de que as redes sociais foram o nascedouro dessa polarização.

Se o ordenamento urbano se dividia em microterritórios, cada qual facultado a uns, e hostil a outros, com a pandemia e a recomendação pelo isolamento, a própria escolha entre ficar em casa e passear pelas ruas passou a ser motivo para a cisão. Não parece haver mais espaço para a concordância em aspectos tão básicos como a preservação da vida contra um vírus letal. De todo modo, com a interrupção forçada do hábito de se esquivar do oponente ao ar livre, exacerbou-se a versão virtual dessa dinâmica. A internet nunca esteve alheia ao maniqueísmo, muito pelo contrário, há poucas dúvidas de que as redes sociais foram o nascedouro dessa polarização. Mas os muros virtuais parecem ainda mais altos. Familiares divergentes e antigos amigos se reorganizam junto aos seus, e os algoritmos se encarregam do resto. Nunca foi tão fácil identificar quem se deve evitar.

É inquietante, contudo, que laços se desfaçam e casais se formem sob o imperativo do ódio político. O que está em jogo não é simplesmente a preferência pelo convívio com os semelhantes, isto soa bem natural, mas o rechaço absoluto e premeditado dos divergentes

Mas são os aplicativos de relacionamento que talvez nos mostrem a face mais desalentadora, e potencialmente duradoura, de uma sociedade dividida. Como parece ser a ordem do dia, no romance virtual também é preciso se posicionar, nem que seja pela neutralidade. Não raras são as orientações aos pretendentes que deixam claro qual trincheira está sendo defendida. Fora Bozo e #elenão são comuns de um lado. Deus, bandeiras do Brasil e #elesim do outro. Embora os deste último lado pareçam estar mais confortáveis em não deixar explícita a preferência, os sinais estão quase sempre lá para quem quiser ver. Parece evidente que, pelo menos na política, os opostos não só não se atraem, como se detestam.

Sei que esta é uma extrapolação pretensiosa. Escrevo como membro da classe média brasileira, e digo isso com o mesmo propósito de uma advertência em bula de remédio. Sobretudo no Brasil, o que vale para os andares do meio quase nunca se aplica nem para o subsolo, nem para a cobertura com vista para o mar. É inquietante, contudo, que laços se desfaçam e casais se formem sob o imperativo do ódio político. O que está em jogo não é simplesmente a preferência pelo convívio com os semelhantes, isto soa bem natural, mas o rechaço absoluto e premeditado dos divergentes. Convém quebrar esse padrão agora, mas por onde começar? Aos meus olhos, a combinação de verde com amarelo há muito já deixou de ser apenas uma afronta estética.

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