A televisão, os shows de “realidade” e a eliminação de nós mesmo

Nabil Saleh - Unsplash

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Engana-se quem diz que a televisão perdeu poder. Não é verdade. Ela segue dominando a sala de quase 98% dos brasileiros. Alguns programas podem ter  perdido força, mas o carro-chefe, que é o que o sociólogo Gilberto Felisberto Vasconcellos chama de “novelização da vida” segue introduzindo pílulas eficazes de ideologia, justamente porque é sistemático e segura a audiência. A população brasileira tem alto índice de analfabetismo, seja o de não saber sequer escrever o nome, seja o funcional, que é aquele que mal consegue ler e muito não consegue entender o que dizem as letras. É por isso que por aqui as gentes engravidam pelo ouvido, como dizia Rubem Alves. Daí o sucesso de usinas ideológicas como o rádio, a televisão e agora o uatizapi. As verdades, e as mentiras, chegam pelo ouvido e por vezes nem mesmo as imagens conseguem provar: “Ah, mas eu ouvi na TV”. Pronto. Está feito.  

O filósofo argentino Enrique Dussel mostra que o mundo ocidental greco/cristão é um mundo que tem se amparado numa ideologia do ódio ao outro, distinto. Desde a Grécia, a máxima que move o mundo é: o ser é, o não-ser não é. Ou seja. Aquele que é igual a mim eu valido como bom, o que me parece distinto eu considero como um não-ser, alguém que pode ser eliminado sem culpa. Afinal, se algo não-é, não existe. E o que é nesse mundo é o rico, o branco, o cristão. Pois, é isso o que tem sido sistematicamente ensinado até hoje. Existem seres que não são. Assim formam-se as discriminações. O ódio ao negro, ao pobre, ao mendigo, ao gay, ao que reclama, ao que reivindica. A indústria cultural tem sido um eficaz braço de propagação dessa “verdade”. E a novelização da vida é o canal por onde essa ideia se fortalece. Oferece-se aos espectadores uma história na qual estão bem demarcados esses personagens e a trama vai tratando de consolidar o paradigma. Para isso existem as novelas, o jornalismo, os programas de auditório, enfim, quase tudo. 

A proposta da novelização da vida real embutida nos chamados “reality shows” surgiu como mais uma pílula bastante eficiente para disseminar essa verdade, e mais, tem servido para reforçar a necessidade de eliminar aquilo que nos parece ruim. Digo parece porque, na verdade, dentro dessas propostas, no geral as pessoas acabam assumindo máscaras, seja para se defender, seja para suportar. Então, o que aparece na tela pode não ser a verdade. Tudo é uma grande e bem formulada mentira que, inclusive, conta a ajuda externa, da famosa “edição”. Isso significa que o diretor do programa, que assume a figura de um deus, pode manipular a seu prazer as falas, as situações, as expressões. Nada ali é verdade, exatamente como nas novelas ou nos programas de auditório.  

Mas então, o que tem de verdade nisso tudo? Sob meu ponto de vista, duas coisas. A primeira delas é a domesticação. Daí a terrível humilhação que as pessoas sofrem para disputar um prêmio. Pode-se dizer que elas estão ali por sua vontade. Bom, isso é uma meia verdade. Elas topam participar, mas cabe perguntar por que? Desconhecidos querem seus minutos de fama, porque a sociedade diz que tu é um não-ser se tu não se destacas. Artistas em decadência ou em subida também aceitam porque precisam alavancar as carreiras e o sistema os obriga a essas situações. Pensem nos programa de auditório que levam artistas que são obrigados a comer bicho, comidas estragadas ou a entrarem em câmaras com baratas ou outras coisas abjetas? O fazem por querer? Elas fazem porque é preciso e porque não podem dizer não. E essa é uma lição importante do sistema: para vencer há que se sujeitar. Recursar-se, rebelar-se, pode significar o retorno ao ostracismo. Isso acontece desde a emissora de rádio em Carapicuíba até a indústria de Hollywood. 

A outra lição é a validação da eliminação do outro. Aquele que nos incomoda, que nos desaloja, que destoa da nossa plataforma de certezas, é colocado no patíbulo para que o eliminemos. Assim como um dia o foram as bruxas, os loucos, os doentes, os estrangeiros, os escravizados. A novelização da vida, a criação de inimigos ou a confirmação de preconceitos, faz com que numa noite de verão, milhões de pessoas peguem seus telefones e eliminem alguém. Observem o verbo: eliminar. Retirar do cenário, matar, excluir, sacar fora. Eliminar é tirar de cena para sempre. Está aí embutida outra preciosa lição: quando o sistema te diz para eliminar alguém, tu vais lá e elimina. Simples e singelo. Não importa se toda a trama foi criada, inventada, editada. Tu vais lá, tomada pela paixão do ódio e elimina. Mas, observem que nessa novela ninguém elimina o patrão, o chefe, o empresário. Não, os eliminados são exatamente como nós, as pessoas da vida real, os trabalhadores. Somos nós eliminando a nós mesmos. Os que destoam, os que reclamam, os que ousam ser ousados, os desafiadores, ou mesmo os que são muito mansos nesse mundo de vale-tudo.    

Enrique Dussel, aquele que mostrou como o mundo ocidental cria uma mentira que se sustenta por milênios, de que o ser é e o não-ser não é, desmonta essa farsa ao propor uma nova forma de ver o mundo. Segundo ele, é possível mudar completamente a realidade a partir de outra máxima: o ser é, o não-ser é real. E o que ele quer dizer com essa proposição filosófica. Que mesmo aqueles que são considerados não-seres pelo sistema, pelo mundo, pela maioria das gentes como os negros, os pobres, os inválidos, os doentes, os gays etc… eles existem, são reais, logo, não podem ser simplesmente eliminados. Precisam ser conhecidos, respeitados, ouvidos, vistos. Isso significa que confrontados com seres que nos desalojam as certezas, os medos, os preconceitos, é preciso um tempo para conhecer de verdade. Talvez não sejam maus, talvez não sejam perigosos, talvez não sejam feios, talvez não sejam repugnantes. Ah, mas esse é um mundo de Poliana. Não. Esse é um mundo de pessoas capazes de entender por seus próprios meios. Um mundo no qual os inimigos reais podem aparecer com claridade, os vilões podem ser reconhecidos, os malvados podem ser vistos apesar dos seus carrões ou roupas caras. E aí sim, reconhecidos os verdadeiros inimigos, combatê-los, com todas as armas, eliminando-os se for necessário.  

Assim que não tripudiemos a televisão, essa usina de mentiras, nem subestimemos programas como esse malfadado Big Brother. Porque eles são faculdades da manipulação, mestrado e doutorado das gentes na formação do ódio a si mesmos, à sua classe, trabalhadora, real. Por isso que a luta deve ser pela tomada dos meios de comunicação e não pela sua “democratização”. Porque se o sistema aceitar colocar lá dentro os pretos, os pobres, os gays, ele os tornará vilões. E eles serão eliminados.  

E como tomaremos os meios? Na paz, no diálogo, através da Câmara dos Deputados? Infelizmente não. Isso só acontecerá com a luta mesmo, a revolução. Como será essa revolução cabe a nós definir. Mas só a derrubada total dessas estruturas de poder e mentira poderá mudar as coisas. Não sendo assim, seguiremos enxugando gelo, discutindo sazonalmente os personagens que vão passando por essas usinas, patéticos e tristes personagens construídos para serem odiados, desprezados e eliminados. 

Juntos e em luta, podemos fazer com que ninguém nesse mundo precise submeter-se à humilhação para fazer parte do banquete. Porque no mundo sonhado, o socialista, comunista, ninguém estará sob a mesa, esperando migalhas. Todos estarão sentados, comendo, bebendo, e sendo felizes.    

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