A terra treme, para os que morrem e adoecem a trabalhar

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Vão para o trabalho sem saber se voltam vivos para casa. Arregaçam as mangas e destilam suor, enquanto no meio de inúmeros perigos se atrevem a construir as casas dos outros. Além dos acidentes trágicos, os trabalhadores da construção civil sofrem de doenças invisíveis. Não há dados sobre esta matéria e a dignidade destes operários é negligenciada ao longo dos tempos. Em Portugal, trabalhar nas obras permanece uma ameaça constante.


Marcelo Teixeira, Leonor Wicke, Rafaela Mendes

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Uma ou duas cervejas ao almoço, longe das duas mortes por dia

Uma hora antes do almoço, Henrique, a quinze metros de altura, grita cá para baixo. “Oh João traz umas cervejinhas geladas”. João Santos é engenheiro civil, construtor, e assume o papel de coordenador de segurança de uma obra que, no Algueirão, se levanta. Respondeu a quem tem sede. “No Pingo Doce não há cerveja gelada. Alguém que vá buscar a outro sítio”. João Santos explica de imediato a sua posição. “Não bebo com eles à hora de almoço para mostrar a minha responsabilidade. Eles também não se esticam, têm noção do risco ser muito maior se trabalharem embriagados”. Henrique, responsável da empresa de cofragem subcontratada pelo construtor, corrobora e refere que naquela refeição ninguém excede “uma ou duas” cervejas. Sabem que a labuta acarreta perigos constantes e por essa razão contentam-se com o suficiente para molhar a garganta.


Vestígios de quem mata a sede enquanto trabalha

Quando um prédio se encontra na fase de construção da estrutura, em que a forma já se mistura com o betão, “é quando o risco é maior”, esclarece o engenheiro. No chão, são muitos os destroços e as armadilhas, com pregos espetados na vertical em grandes e pequenas tábuas que ameaçam quem ali ganha a vida.  João Santos realça que “todos utilizam botas de biqueira de aço”. É uma coisa que nunca falha e é assim que realmente estão calçados os seis trabalhadores que pelo dia esgotam o suor. Como se fossem para a guerra. Proteção pode ser a palavra de ordem para quem tem o dever de vigiar a segurança dos seus trabalhadores, mas João Areosa, investigador no Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa, mergulha no assunto. “Vive-se uma espécie de cultura do desenrasca. As coisas fazem-se de maneira pouco planeada, com a esperança de que tudo vai correr bem”.

O investigador não deixa margem para dúvidas quando confirma que “existe uma tendência genérica para números altos de acidentes de trabalho em Portugal”. A ideia de que a maioria dos desastres acontece por erro humano continua muito enraizada e, segundo Areosa, “não há uma verdadeira cultura de segurança”. António Uva foi presidente do Colégio de Especialidade de Medicina do Trabalho, é médico e professor catedrático na Universidade de Medicina da Nova. Partilha da mesma opinião de João Areosa. “A maior parte dos acidentes mortais são 100% evitáveis”. Portugal, que segundo dados de 2018 se estabelece na pior metade dos 27 da União Europeia no que respeita a mortes no contexto laboral, tem feito um esforço para reduzir as tragédias. “Há quinze anos aconteciam duas mortes a cada dia, depois passou a uma, mais tarde uma nos dias úteis e agora são mais ou menos duas por mês”. A evolução das medidas de segurança tem sido vagarosa para o médico que enaltece a mudança, mas que ainda assim acredita “não terem melhorado o suficiente”.


Um dia de trabalho numa obra e os números que espelham a realidade portuguesa

A linha vermelha precisa de fiscalização

No supermercado, o engenheiro comprou febras e entremeadas, trouxe uma mão cheia de pacotes de batatas fritas e uns quantos pães embalados. Vem também uma caixa de vinho – para aqueles que preferem este líquido para afagar a comida no estômago – e água, que é o que o engenheiro bebe. “Isto são miminhos. O meu prédio está bastante avançado e um churrasco é sempre do agrado de todos”, é a voz convicta de João Santos. O médico António Uva também aborda a dimensão salarial atribuída aos trabalhadores da construção civil. “Merecem melhores ordenados. Há muitas formas de salário. Por exemplo, os afetivos”. 

“Ao meio dia, nas obras, todos param. É quando a terra mexe”, confidencia Henrique, citando o lema conhecido dos que fazem isto há muito tempo. Depois de dizer que a terra treme, opina sobre a segurança. “Acho que só com mais vigilância é que se podem minimizar os riscos. Mas é difícil”. Acarreta uma despesa extra contratar empresas especializadas e em obras mais pequenas “a contabilidade não suporta os custos”, justifica o construtor. Fazem-se outras coisas para prevenir os acidentes. João Santos destaca. ”Organizo relatórios e dossiers de atividade de risco. Com fotografias, em que posso avaliar o que está mal e o que tem de ser melhorado para proteger os trabalhadores”. A verdade, para o investigador João Areosa, é que as empresas, especialmente as de construção civil, podem fazer melhor. “Os riscos são entidades omnipresentes”, pelo que é essencial apostar na prevenção. É precisamente aqui que se verificam mais falhas. As análises de risco nos locais de trabalho são parcas e a investigação dos acidentes é pobre. Muitos dos técnicos de fiscalização são formados, mas a “qualidade desses técnicos deixa ainda muito a desejar”. 



O fogo que grelhou a carne abrandou e nalgumas garrafas de cerveja só resta ar lá dentro. Todos conversam com boa disposição, muito sobre o trabalho que lhes retesa as mãos, sobre o peso que lhes avilta o corpo. Henrique, enquanto vira uma entremeada que afundou no interior da carcaça, menciona. “A parte da cofragem é a mais difícil”. Toni, dono da empresa de ferro subcontratada e do lume que cozinhou o repasto, rebate. “O mais difícil é a parte do ferro. Antigamente os prédios levavam metade da quantidade. Agora carregamos muito mais”. Todavia não era sobre isso que Henrique estava a falar. Então levanta o tom de voz, sem agressividade. ”Em termos de esforço, talvez. Em termos de risco, nem pensar”. João Santos partilha da mesma opinião do homem da cofragem. Para eles, quem executa esta tarefa é quem mais se aproxima da linha vermelha.


João Santos, engenheiro, enaltece o ofício de todos.“É preciso ter coragem. Quanto mais sobes, mais perigos existem”.



Viver num castelo de cartas com menos qualidade de vida

Henrique conversa sobre os acidentes nas suas equipas ao longo da carreira. “Até hoje, só assisti a um braço partido. Nada de grave”. Parece ironia. Já Fernando, que manobra com destreza as máquinas que andam no terreno, não esquece um episódio que o deixou aflito. “As valas são um perigo. Vi um gajo que ficou enterrado até ao pescoço.” No rosto de Fernando nota-se o desespero de quem viu alguém a ser esmagado pela terra.  De quem viu alguém quase a morrer.  “Os acidentes de trabalho, particularmente os acidentes mortais, são uma tragédia para o país e para a família”, diz João Areosa. A seguradora pode dar uma indemnização à família, mas a perda que se vive é imensurável, mesmo quando se trata de um acidente grave, mas não mortal. Muitas vezes, as famílias perdem por completo o sustento após essas infelicidades.

Além dos riscos que podem potenciar um acidente, existe um elevado impacto psicológico de viver esta realidade todos os dias, mesmo que não ocorram desastres. Os trabalhadores que tenham experienciado ou visto um sinistro grave no ambiente de trabalho podem desenvolver consequências psíquicas que deixam marcas. Muitos ficam traumatizados. “Os trabalhadores criam uma armadura para enfrentar os riscos ocupacionais elevados” de forma a minimizar e desvalorizá-los, diz João Areosa. Ninguém deve ir trabalhar todos os dias e lidar com o pensamento de que pode morrer ou sofrer um acidente assustador. O investigador metaforiza o que acontece depois da tragédia. “Essas armaduras desmoronam-se como um castelo de cartas”.


Mão de Toni, patrão da empresa de ferro, a manobrar uma grua

João Santos verificou todos os contratos de trabalho de quem labora na sua obra. Reconhece a vontade de seduzir ao máximo os trabalhadores no que respeita a questões de segurança, mas aponta que nem tudo é fácil. “Há facilitismo de alguns por fazerem as mesmas coisas há muitos anos”. O trabalho mecaniza e o risco aumenta. Muitos dos equipamentos são elementos externos e pouco confortáveis para os homens. Alguns, nada utilizam. É preciso persuadi-los e ter a certeza de que cumprem as regras de segurança, e essa responsabilidade recai, em primeira instância, sobre as entidades empregadoras. O investigador João Areosa pega nas palavras com pinças e desmonta o caminho. ”Gerir a segurança é uma luta constante contra a condição humana”.

O que também dificulta as coisas é a própria estrutura do setor. O médico António Uva deslinda o conceito: “É um jardim zoológico de relações laborais”. Isto significa que a orquestra da construção é “pluriempreitada”, com várias empresas subcontratadas que também subcontratam, resultando na dispersão das responsabilidades e funções dos patrões e funcionários. Contudo, há mais a desconcertar os pensamentos do médico. “As instituições do Estado não têm indicadores para uma grande fatia de trabalhadores que adoecem. Como? Há incompetência em linguagem médica. Não há dados nenhuns. Só o número de pensionistas”.

No topo do edifício, João Santos, Toni e Henrique discutem pormenores do trabalho, mas na margem do prédio um operário peregrina nos limites, enquanto martela com afinco as proteções que vão garantir a segurança de todos. Naquela hora, sem arnês,  podia ele estar mais seguro. Sobre a condição humana, as suas particularidades, fragilidades e comportamentos,  António Uva faz uma reflexão. “O elemento mais falível são as pessoas. Temos de aprender a lidar com elas”. Não é apenas no terreno que esta profissão é incompreendida. O médico especializado clarifica o que se passa. “80% dos problemas não são visíveis. Há doenças profissionais. Há doenças relacionadas com o trabalho e também patologias agravadas pelo trabalho”. 



Adérito Travasso sofre de eczema atópico, essencialmente no pescoço. Trabalha desde os 17 anos na construção civil e foi depois de começar a lide que lhe apareceu a patologia. “Uns médicos disseram-me que o cimento podia ser o responsável. Outros dizem que não”. Apesar das opiniões divididas, quando fez o teste às alergias, esta matéria deu-lhe positivo. “Não posso afirmar ser o cimento a razão, pois na verdade as obras têm muitos outros agentes tóxicos. Assim como transpiramos bastante, o que não ajuda nos problemas de pele”. 



Os cremes do tratamento saem do seu bolso e alega ter sorte em casa. Cortou um dedo com uma rebarbadora, há um mês, que fez demasiado sangue para continuar a jornada. A  mulher é médica e acudiu-o. Depois de contar que o susto superou os danos, antecipa-se à pergunta. “Tenho seguro e por isso é que falo sem medo. Muitos trabalhadores que por aí andam, sobretudo estrangeiros, não têm”. Deambulam na clandestinidade e deles pouco se sabe.

A construção civil é um setor de riscos e perigos ininterruptos. As mortes e os acidentes graves diminuíram, mas Portugal continua longe de ser exemplo. Há um número indeterminado de trabalhadores que padecem de sequelas quase invisíveis, porém altamente penalizadoras para a qualidade de vida. Não é só imperativo travar as tragédias assinaladas. É preciso reforçar leis que protejam os que ficam mais vulneráveis e criar mecanismos e estruturas que apoiem e vigiem no terreno as empresas de construção. É fundamental ser rigoroso com uma profissão que merece mais reconhecimento. Se assim não for, resta uma pergunta: Qual é o valor de uma sociedade que não se importa com aqueles que constroem as casas dos outros?

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