A última palavra

Jehyun Sung (Unsplash)

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Apesar de ser inegável que desconhecemos uma boa parte das razões por detrás das nossas decisões – já o matemático francês do século XVII, Blaise Pascal, dizia que o coração tem razões que a razão desconhece –  muito do que fazemos decorre, geralmente, de resoluções tomadas de forma racional, como resultado de opções lógicas que podem ser expressas através de um conjunto regras ou procedimentos, ou seja, são resultado da aplicação de algoritmos, sejam eles conscientes ou inconscientes.

Por outro lado, ao falarmos de algoritmos pensamos, de imediato, em programas computacionais. Juntando a isso a crescente capacidade dos computadores para recolher e processar dados sensoriais – por exemplo, todo o tipo de imagens, sons e ruídos, voz e palavras, temperaturas e humidade, forças e pressões, bem como combinações de tudo isto – chegamos ao extraordinário e não menos inquietante conceito de inteligência artificial: a capacidade de percecionar e processar dados, por parte de máquinas, com o intuito de obter informação, gerar conhecimento e tomar decisões, de forma similar à que se passa com os seres humanos.

Que os inúmeros especialistas que se dedicam há décadas a este tema me perdoem a ousadia de ambicionar sequer apresentar uma definição de inteligência artificial – afinal, nem eles próprios se entendem quanto a isso – mas a verdade é que todos somos parte interessada porque já não há forma de escapar aos chamados ‘sistemas inteligentes’ e assim, como parte interessada, invoco o meu direito a expressar opinião.

Utilizando inteligência artificial, os sistemas computacionais atuais podem perceber o ambiente que os rodeia, armazenar e gerar conhecimento, reconhecer e utilizar linguagem natural, resolver problemas, aprender e, também, interagir socialmente. Nos dias de hoje, os computadores recorrem a programas muito sofisticados que, frequentemente, utilizam técnicas de inteligência artificial para tomar decisões em sistemas críticos para todos nós, como sejam sistemas de telecomunicações, sistemas de fornecimento de água ou energia, transportes rodoviários, ferroviários ou aéreos, banca e seguros, sistemas de saúde e bem-estar, ou sistemas de segurança informática. Muito mais do que imaginamos depende de software que executa algoritmos desenvolvidos e conhecidos por poucos, que atuam com base em grandes volumes de dados, muitos dos quais são de natureza pessoal. E é, precisamente, o impacto dos sistemas ditos inteligentes na vida das pessoas – que se traduz numa perda de controlo por parte dos humanos em detrimento do controlo por parte das máquinas – que constitui a maior ameaça da inteligência artificial, largamente explorada em obras que todos nós queremos manter no domínio da ficção. Mas, como acontece com quase tudo, conhecer os riscos é fundamental para tirar o melhor partido dos aspetos positivos e evitar problemas.

Se bem que seja indiscutível a utilidade e interesse de sistemas inteligentes – isto é, sistemas mais funcionais e mais adaptáveis às necessidades humanas – queremos também, em qualquer caso, que os sistemas que utilizamos se rejam por critérios claros, conhecidos, transparentes e éticos, e que ninguém nos venha dizer que não se pode fazer nada porque o ‘Sistema’ não deixa. Queremos continuar a pensar, continuar a tomar decisões frias ou emotivas, continuar a ser pessoas, muito mais do que fontes de dados e sujeitos passivos. Queremos, em resumo, ter sempre a última palavra.

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