Abril sempre e todos os dias

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O que mais chateia é ver abril regateado no mercado da opinião vulgar, entre quem vai por lugar cativo e quem não entra, não é debate que interesse, o esquerda-direita não é um pingue-pongue de absurdidades por um lugar na marcha, não deve ser um braço de ferro como aquele que finaliza o filme do Bertolucci,1900. Sob a maré de cravos não se descortinarão os que não os empunham ou trazem — fazer uma cerimónia com delegados de partidos e associações e fazer disso a festa não tem interesse, é uma treta representativa mas não é o espírito da coisa, esse é solto e transborda, não cabe em serviços de segurança.

Hoje seria determinante juntar o que deveria ser uma maré indistinta a afirmar-se contra o regresso do fascismo que por aí vai fedendo em opinião exibida, publicada e partidária — um mote de atualidade ao que se organizasse. Mas a imaginação criativa parece estar em crise, não faz parte do jogo, esgotada nos parâmetros do imaginável no institucional parlamentar e partidário ou na lógica narcisa, meio alternativa, que converte em selfies e vídeos, ou reivindicações imediatas, o que deve mesmo transbordar, sair da praxe, do controlo, da arrumação prevista, das palmas cerimoniais.

No parlamento com os discursos da praxe o que existe é uma praxe. O princípio na rua é o do cravo. O do cravo com a baioneta. Não esquecer. Não esquecer o tanque também. O milagre de uma transformação que não trouxe a tal “insurreição popular armada” deveu-se aos militares de abril e ao cerco que o povo fez ao povo dos tanques, bem cedo pela manhã. Vi, fiz parte, vivi. Tenho tudo gravado. Esse abraço determinou um rumo. Poderia ter sido diferente e o que viesse a seguir também. Mas não foi. Há decisões tomadas a frio no curso dos acontecimentos que evitaram tragédia maior. Quero pensar que foi isso.

A comemorativite enjoa. Esse jeito de converter o 25 de abril no 5 de Outubro pelas características rituais mais os discursos mata o que se quer celebrar — as celebrações, é costume entre nós, são cerimónias fúnebres, mesmo que metam umas juventudes e tambores, um lado circense.

Seria necessário que abril fosse mais que a data, um propósito nacional pela sua vivificação e não a celebração de uma memória cada vez menos nítida, como nas fotos conquistadas pelo tom sépia. Isso implica um grande projeto pedagógico nacional de todos os democratas. E saber que na sociedade do espetáculo, o poder do presente, o presentismo, faz da memória a operação de marketing necessária no momento. O negacionismo também espreita abril.

Abril não regressará enquanto não se ativarem outras formas de reinventar — resgatar — a revolução que não sejam apenas celebrativas.

A Alegria de que falam o poema da Sophia e o quadro da Vieira da Silva, o tal “dia inicial inteiro e limpo” implica reinventar novas condições de apropriação do que abril foi e é, conferindo forças e tempo a isso mesmo, arte e ação artística, mostrando bem o lodo e a trampa em que estamos hoje metidos, aqui e na Europa.

E viva a Reforma Agrária.

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