Amador, Zélia

A professora acredita que negros e indígenas não chegam sozinhos às universidades, pois trazem consigo histórias e memórias de opressão.

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O compositor brasileiro Aldir Blanc foi uma das vítimas da pandemia do novo coronavírus. Aos 73 anos, o carioca não resistiu à covid-19 e morreu em maio do ano passado. Meses depois, foi criada no Brasil uma lei com seu nome para apoiar financeiramente – e emergencialmente – os trabalhadores da cultura brasileira. Foi a Lei Aldir Blanc que possibilitou a produção do curta-metragem documental “Amador, Zélia”, disponibilizado gratuitamente há poucos dias, a partir de Belém do Pará.


A inspiradora trajetória desta professora é a espinha dorsal do trabalho de Glauco Melo e Ismael Machado, os realizadores. E é surpreendente como a vida de Zélia Amador de Deus, uma personalidade de proa, é narrada em 22 minutos: professora universitária, ela é ainda atriz e diretora de teatro, e liderança histórica em defesa dos direitos de negros, mulheres, indígenas e quilombolas, assim como no combate persistente à injustiça, à violência e ao preconceito.

A história de Zélia começa no Marajó, maior ilha fluvial do planeta, situada na desembocadura do rio Amazonas. A mãe, Doralice, tinha apenas 15 anos quando engravidou de Zélia. A menina foi criada pelos avós maternos, o pai nunca fez parte da equação e a mãe morava com uma família, onde era empregada doméstica. Zélia cresceu numa casa sem energia elétrica e sem água canalizada e era uma aluna aplicada no colégio.

Francisca, a avó, era lavadeira e nunca aprendeu a ler e escrever, mas ensinou Zélia para o futuro: “A minha avó era muito ciente sobre a questão de identidade racial e me dava consel hos diários, ela dizia ‘Tu és negra, mas negro pode tudo. Nunca pares de estudar.”

Conforme Zélia crescia, aumentava a participação em movimentos estudantis: “Veio 1964 e comecei uma forte atuação política, clandestina, contra a ditadura militar”. Para pagar os estudos, ela dava aulas de matemática e cozinhava para vizinhos. Para vencer a timidez Zélia buscou o teatro e exalta: “Devo ao teatro tudo o que sou hoje.” A atuação permitiu-lhe intensificar e afinar seu desempenho académico e político.

Em 1971 ingressou no Curso de Letras da Universidade Federal do Pará – UFPA. Sete anos depois inaugurou sua carreira universitária dando aulas de História e Teoria do Teatro e Cênicas. Fez mestrado e doutoramento e em 1993 tornou-se a primeira mulher negra a ocupar uma vice-reitoria dentre as 63 universidades federais brasileiras. Há pouco mais de um ano viu sua alma mater aprovar a outorga do título de Professora Emérita.

Em entrevista ao sinalAberto Zélia frisou sua militância no movimento negro, que se intensificou na academia – outrora um dos espaços mais racialmente segregados da capital paraense. A trajetória da professora se mistura com a política de cotas para negras e negros, na UFPA: “Era o ano de 2003 e o Grupo de Estudos Afroamazônico elaborou uma proposta em que pleiteava que o percentual de 20% das vagas da Universidade fossem destinadas para pessoas negras, no Brasil, pretos e pardos.”

A proposta apresentada era análoga a outras propostas aprovadas em Universidades brasileiras desde 2001, depois da III Conferência Mundial da ONU contra o Racismo, a Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas: “Avançamos em nosso processo de Diversidade e Inclusão e em 2009 aprovamos a proposta de Reserva de Vagas para povos Indígenas, Quilombolas, Pescadores, Lavradores e Ribeirinhos. Em 2012, aprovamos a reserva de vagas para Imigrantes, Refugiados, Apátridas e pessoas em situação de tráfico. Fiz parte de todo esse processo e tenho muito orgulho desta instituição que tem avançado na sociedade contra as desigualdades na educação brasileira. Tento fazer minha parte como mulher negra e pobre que chegando à Academia luta por uma sociedade mais justa. No meu entendimento, esta diversidade contribui para o surgimento de novas epistemologias, estas políticas são instrumentos pedagógicos para um país que se acostumou com a segregação”, explica Zélia.

A professora acredita que negros e indígenas não chegam sozinhos às universidades, pois trazem consigo histórias e memórias de opressão: “Cada uma destas pessoas carrega no corpo um discurso capaz de desestabilizar a hegemonia da classe média branca, que historicamente ocupou o espaço universitário. A Universidade de Coimbra, por exemplo, que durante muito tempo educou apenas as elites brancas do Brasil, hoje alberga o pensamento do professor Boaventura de Sousa Santos e seus estudos dos processos de colonização e nas colonialidades ainda impressas nas mentalidades contemporâneas. Um Salve para Boaventura!”

De alguma maneira tudo acaba por estar interligado na incrível caminhada de Zélia Amador de Deus, ela foi capaz de projetar a voz num futuro de discriminação zero. Foi outra força da natureza chamada Benedita da Silva, deputada negra, que formulou a lei Aldir Blanc, fonte financeira do documentário sobre Zélia. E foi Blanc quem compôs a música que a professora considera um hino. Os versos da canção foram imortalizados em 1979 por Elis Regina e dizem assim: “Mas sei que uma dor assim pungente, não há de ser inutilmente. A esperança dança, na corda bamba de sombrinha e em cada passo dessa linha pode se machucar. Azar, a esperança equilibrista, sabe que o show de todo artista, tem que continuar.”


E continuaremos, naquele e deste lado do Atlântico.


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