Andanças Douro

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Ah, as férias, as férias.

Rebanhos de veraneantes acotovelando-se nos atalhos da promoção e publicidade. A gosto, o consumismo até se derreter o subsídio e escaqueirar o porquinho das poupanças. Exibem-se corpos achocolatados forçosamente esbeltos, à top-model. Enquanto lábios sensuais chupam gelados em espirais de doçura e sabores, estreiam-se sapatilhas, chinelos, calção, biquíni, óculos de sol e outros apetrechos da moda.

Vá, mais uma selfie para o facebook. Que gira, és grande, Mila, és o máximo, vais arrasar; oh, nem te reconhecia, Custódio, não fossem as tatuagens e a marreca e diria tratar-se do Brad Pitt em pessoa. Adoro. Abraços e acenos, eles à mesa do restaurante em ápice de avidez, será do Avilez? Agora na suite das vedetas do entretenimento, que o romance não conhece idades e repudia diferenças sociais. Que importa ela ter 32 anos, sustentar-se do salário mínimo e ele, empresário de susexo, ir a caminho dos 78? Gosto.

Na piscina dos craques de futebol e das carinhas larocas da televisão borbulham ondas e ondinhas de felicidade. A duas canchas, o oceano azulino, o areal cor de café com leite, um deleite. Toalha garrida regateada aos marroquinos, infantis folguedos dos pispinetas birrentos, pedinchões, malcriados, perdão, híper-activos, mamã, papá, quero isto, aquilo, quero tudo e já nem sei o que quero.

Gritinhos de banhistas na banhoca e prrriu!, apito do nadador-salvador, atento às marés vivas e belezas ciosas de paixões sazonais. Em banho-Maria, língua da sogra comenta telenovelas com emplastros de elefantídeas coxas. Entrementes, um fivelinhas dá banho ao cão, um pastor-alemão. Bolas-de-Berlim. Salpicos. Mais uma besuntadela de creme, pois as costas estão a esfolar. Seguem-se horas de assarem de papo para o ar galos e garnisés, franguinhas e franganotas. É o culto solar.

Esplanada, tapas para inglês ver, poses descontraídas, relaxadas, algumas delas libidinosas por efeito dos calores. Multidões, velocidade furiosa, automóveis estacionados nos passeios e jardins, arranque, travagem e pião para impressionar garotinha ampulheta. Filas de turistas em câmara lenta, música altíssima, cachapom-pum-tom!, baile de máscaras do pato-bravo, implantes dentários tresandando a santola e cervejola em promoção.

Os dias praieiros, enfim.

Uf!

Cá por mim, leitores, prefiro a pujança telúrica do Alto Douro Vinhateiro, a paisagem que embriaga os sentidos e os torna serenos, renovados. Pelas bandas xistosas de Almendra, munido de sandálias peregrinas, trepo a Calábria, íngreme, alcantilado monte em cujo topo são identificados vestígios de povoação fortificada, cabeça de bispado na época sueva, supõem alguns historiadores. Já no século XII Calábria, cidade bela, reaparece na documentação graças à doação que dela fez Fernando II, rei de León ao bispo Domingo, em Ciudad Rodrigo.

O escalar deste assomo da natureza faz-se, às vezes, de cócoras e enganchado a tufos de giesta. Pé em falso, desequilíbrio e o rebolar monte abaixo até o amparo de uma videira de braços abertos. Suor acarraçado à pele, bagadas dele, fará o suor dos homens que nos socalcos em redor consagraram a existência à surriba, cava, poda, enxerta, sulfata e vindima. Deste digno, encardido esgadanhar poetou o amigo Luís Veiga Leitão:

E homens servos
vieram em vagas
moer as fragas
na mó dos nervos.

 Lá ao fundo, a Ribeira de Aguiar e o rio Douro provocam o desarrolhar de emoções amorosas. Ah, tão pequenina a minha estação, triste, tão saudosa de voltar a saudar o comboio; a minúscula Quinta da Olga e os nomes fabulosos por aquelas bandas pronunciados, Leda, Senhora do Campo, Olival dos Telhões, lagar romano a céu aberto e um silêncio tocado pela aragem enxertada de urze e rosmaninho.

Planando no ar morno, um grifo diz existir. E largos horizontes pincelados de azuis sublimes, de seculares troncos nodosos, esculturas de oliveiras com pernadas ramalhudas. A apanha em dias de inverniça, a safra fadigosa dos ranchos azeitoneiros que parecem varejar estrelas, ai solidão, solidão. O suplício da azeitona e o seu esmagamento para alimento da candeia resumido nesta espantosa adivinha:

Verde foi o meu nascimento
 e de luto me vesti;
para dar a luz ao mundo,
  mil tormentos padeci.

Súbito, mesmo no cume do colosso, um abrigo de pastor, de um Hermínio e a sombra de uma azinheira para conforto do andarilho. Descanso. Medito. Viajo para dentro de mim enquanto, voando em círculos, uma águia-perdigueira tenta avistar caça.

Respiro um mundo ainda limpo e nítido, terra que, para além de divina, também é Douro Superior. Tanto que, perante aquela singular grandeza, a pedido de outro amigo, José Lebreiro de sua graça, estancámos a passada para, reverentes, dar prioridade a um séquito de formigas transportando uma pétala de flor como fosse o mais sagrado dos pálios. Somos assim naquelas alturas, naquele reino poderoso.

Depois deste santuário houvemos por bem demandar Ervamoira. Vale do rio Côa, quietude de paleolítico, mar de vinho em maturação. Eis o magnificente ciclo vegetativo, prodígio celebrado à hora merendeira com robustos bens da mastigação. Aí vão, façam o favor de se servirem: odorífero maduro tinto, casta touriga nacional, lascas de presunto, rodelas de chouriço, queijo curado e azeitonas curtidas por velhas e revelhas sapiências.

Longe dali, a ocidente, grilares de smarphone, confinamento em paredes de pladur, profusão de notícias – última hora – horror, obscenidade, mesquinharia. Ecrãs de todos os tamanhos e feitios transmitindo, em directo, vindimas de morte e desesperança.

 

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