Arqueologia do Esquecimento

5 min read

Andamos sempre à procura de vestígios, mesmo que não saibamos que seguimos o rasto ao que ficou pendente. E há pendências que permanecem, continuamente, como notas mentais. Elas hão de emergir para nos lembrar. Por vezes surgem como espectros em sonhos. Raramente despontam quando queremos lembrar-nos. Frequentemente manifestam-se de forma inesperada. Pode ser enquanto contemplamos a poesia do vento sobre flores selvagens, ou quando nos dedicamos a tarefa menos virtuosa como fazer uma sopa.

Nesse exercício livre cerebral que nos é alheio, mas que é revelador da azáfama do cérebro e da relação íntima com a memória, sucede todo um mundo paralelo da nossa existência. 

Não fiz parte da tribo que conseguiu dedicar-se a algo novo e extraordinário, com tempo distendido, durante o estado de emergência. Pelo contrário, o telecapitalismo entrou, diariamente, na vida doméstica, de forma feroz e implacável, impondo-se com trabalho incessante, em modo hiperprodução de docenteentertainer-psicóloga, ao mesmo tempo que se ensaia um doutoramento, sem tempo sequer para vida familiar.

Esta evidente alienação, onde deixei de ter controlo sobre o meu tempo, arrebatou qualquer possibilidade de reflexão interior sobre o que estava a acontecer. Agora que a primeira parte do ano letivo terminou, sucedeu emergirem três vestígios de episódios do passado, que são paradigmas daquilo que denomino a arqueologia do esquecimento. Arqueologia porque é um esquadrinhar – ainda que involuntário – de pistas do EU que habitam uma civilização antiga e mental no tempo endógeno. Esquecimento porque é um estado adormecido. São vestígios interligados por esse oblívio e pela erupção súbita no presente.

A primeira revelação da arqueologia do esquecimento veio em forma de pergunta: o que vai acontecer às dezenas horas de vídeo gravadas, nos anos 90, do século XX, das minhas férias em família, dos aniversários, dos batizados, esquecidas num armário bafiento, onde não parece haver tempo para transformar em vida digital as vidas analógicas do passado? Filmamos e não fizemos mais nada com essas imagens que permanecem em estado cru. Só que dá-se o extraordinário: tenho a clara memória do filme mental do ato de filmar naquele instante. Há sempre um metafilme. Lembro-me, por exemplo, daquela primeira vez em que fomos em família ao lago da Sanábria, em Espanha. Eu devia ter pouco mais do que 12 anos. A bateria da câmara de filmar que era dos meus primos desencaixou-se e caiu na água, enquanto eu tentava documentar, em cima de um pequeno barco de recreio chamado de gaivota, a banalidade das pernas deles nos pedais. Nunca vi as imagens desse dia. Mas o filme mental não se apagou. 

Depois, o que fazer aos sons em bruto que guardo em arquivo, em vários discos externos, quer porque sou uma ávida captadora dos sons da vida, ou mesmo das horas de entrevistas e sons de reportagem ao serviço da TSF, no Brasil? Como lhes dar vida para que ganhem materialidade, nem que seja etérea? Haverá tempo para catalogar, alojar num servidor, arquivar e, assim, resgatar do olvido? 

Recordo-me de um registo em particular: as quatro horas de entrevista com o músico brasileiro Tom Zé, no apartamento dele, em 2007, em São Paulo. Mais uma vez, tenho o filme desse dia na cabeça. Começou a conversa enquanto regava as rosas do jardim em frente. Depois, toca viola já na sala da casa. Canta. Assobia para o bem-te-vi que entra e sai pela janela. Recita o Grande Sertão Veredas de João Guimarães Rosa. Conta a história da bossa nova, recorda os tempos do Tropicalismo e de como se salvou do esquecimento artístico. O registo foi feito num pequeno gravador em Mp3 que pude comprar na altura. O som está débil, mas o conteúdo tem um valor intangível. 

Depois, outra imagem-tempo que se mostra como imagem-em-movimento no ecrã da minha memória: um fim de tarde com a minha bisavó Lucinda, de 91 anos, a ouvir a novena, na rádio. Ela rezava o terço. Eu acabara de entrar para a escola primária, tinha 6 anos, por isso fazia os trabalhos de casa. Interrompeu a reza e reparou que eu lia baixinho.

  • Que bom que sabes ler!
  • Mas tu também sabes!
  • Não, minha filha, eu não fui à escola. Tinha lá tempo para isso. Não havia dinheiro. Comecei a ajudar nas tarefas com a tua idade.
  • Eu posso ensinar-te a ler. Queres aprender?
  • Agora já é muito tarde. Estou quase a deslembrar.  

Na época, eu não entendi o que ela quis dizer com aquele “estou quase a deslembrar”. E não tive resposta para lhe dar. Encolhi os ombros, voltei ao caderno e ela ao terço. Ela, natural de Vilar de Pinheiro, terra de pescadores entre o campo e o mar, que se lembrava de provérbios populares, de lengalengas e que me talhava as aftas a falar com as estrelas dizendo: “Estrelinha da banda de além, talha-me esta afta que a minha menina tem”, tinha uma memória de elefante. Como se poderia esquecer do quer que fosse?

Estes dias decifrei o óbvio rasto da semente dessa pendência mental que a minha bisavó plantara em mim, nessa tarde juntas, e que jamais esqueço. A arqueologia do esquecimento lateja para nos lembrar da indelével humana condição de criar memórias. Será sempre a lembrança diária primordial.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *