Arte poética com apelo a Tintin

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Descobri a fotografia porque precisava de uma para o meu Fanzine caseiro.

Encostado a uma estante, numa divisão de paredes forradas por elas, o poeta olha-nos sorriso a meio. As encadernações são de grande qualidade e a arrumação espanta. Talvez por isso eles se destaquem: um Popeye ufano, um Tintin mais discreto.

Um pouco mais tarde, num artigo de Facundo Giménez, Luis Alberto de Cuenca en el país de Tintín, li:

e numa entrevista conduzida ainda por Giménez:

Luis Alberto de Cuenca, viria eu a saber, reuniu mesmo num livro publicado pela Fundación Jorge Guillén, Qué haría yo sin mis tebeos, os seus poemas tendo que ver com as histórias aos quadradinhos.

Para publicar aqui traduzi um famoso poema do autor, Linha clara, uma arte poética onde encontramos um apelo a Tintin, e o poema A aragem da rua.



Linha clara

Dizem que falamos claro e que a poesia
não é comunicação, apenas conhecimento,
e que só conhece quem renuncia a este mundo
e às suas honras e obras – a amizade, a ternura,
a decepção, a fraude, a alegria, a coragem,
o humor e a fé, a lealdade, a inveja,
a esperança, o amor, tudo o que não seja
intelectual, obscuro, místico, filosófico
e, naturalmente, mínimo, silencioso e profundo –.
Dizem que falamos claro e que nos repetimos
de tão claro que falamos, que as pessoas percebem
os nossos versos, até aquelas que nos governam,
o que acarreta que tenhamos acesso
ao poder e às suas recompensas e condecorações,
praticando um monopólio subserviente e injusto.

Dizem e são frequentes as suas investidas ferozes.
Defende-nos, Tintin, que nos atacam.



A aragem da rua

Sentado na tua poltrona favorita,
diante de uma lareira acolhedora
onde crepitam uns quantos troncos
de madeira, pensas no que está para lá
da tua porta blindada e dos teus livros.
Existe alguma coisa, realmente, à margem
das quatro paredes da tua casa?
O fantástico estimulou-te sempre.
Olhaste sempre para a vida com os olhos
da literatura. Mas nunca soubeste
como é o exterior (se é que existe),
por falta de interesse ou de coragem.
Para corrigir essa falha,
basta um destes dias
abrires a porta e as janelas
e constatares que há vida lá fora:
seres maravilhosos e monstros
que nem mesmo Machen* tivesse inventado
nos seus pesadelos mais loucos,
heroínas mais louras do que as das tuas leituras,
heróis mais generosos com os fracos
do que os das tuas histórias aos quadradinhos,
vilões mais cruéis do que os dos ecrãs.
Mesmo que penses que não vale a pena
ou tenhas medo de o fazer,
permite que a luz da realidade
entre no teu coração,
que te acaricie com a sua aragem
a verdade sem rodeios da rua.

*Arthur Machen (1863 – 1947, Reino Unido)


Francisco José Craveiro de Carvalho (poeta e tradutor; é professor jubilado de matemática)

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