As contradições do verão, 2021

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Já não há Verão como antigamente…

No tempo da ditadura, enquanto a crise académica (1969) se instalava em Coimbra, com a revolta dos estudantes em busca da liberdade e da democratização do ensino, a canção de sucesso “Óculos de sol”, cantada pela vamp Natércia Barreto e pela star nacional-cançonetista Madalena Iglésias, anestesiava o povo oprimido refugiado no “amor”.

As suas estrofes saudando o Verão morno (Já arranjei muito bem, Tudo quanto convém, Pra praia levar, O pente, o espelho, o batom, E o creme muito bom, Pra me bronzear) e o fatalismo e a submissão (Eu vou ter sempre à mão, Os meus óculos de sol, Que levo pra chorar uh uh), contrastavam com o festival rock de Woodstock (NY, USA) que prenunciava a igualdade de género, e o festival de cinema de Nashville (Tennessee, USA), onde se institucionalizava a mini-saia da década de 60, criada por Mary Quant em Londres.

Já desde 1861 (UK, USA) existia a silly season (estação boba) que caracterizava o Verão como época sem notícias (de interesse de primeira linha) e, portanto, dando azo a notícias de fofoca, lamechas, fúteis (que não teriam espaço no quotidiano activo), para esquecer as agruras do ano, os insucessos pessoais e familiares, as desavenças, tragédias e outras desgraças da humanidade.

No meio do tempo e o modo, surgem as telenovelas, que mobilizam indefectíveis domésticas, colaterais e almas escondidas, romanceando a vida durante todo o ano, de cariz teatral ilusório, contrastando com a expectativa de romance real como devaneio ou quimera no verão do contentamento de cada um e de cada uma.



Hoje, os óculos de sol não são predominantemente para chorar, não há silly season temporal e as novelas são apenas um género literário, generalizando-se os conceitos de autonomia, independência, liberdade e democracia para todas e para todos, como direitos humanos imprescindíveis, nem sempre em uso.

O Verão, em 2021, apresenta alguns interesses diversos e algumas contradições, um misto de preocupações e a esperança sempre renovada de sucesso, após período de lazer e retoma de energia para fazer o que tem de ser feito e enfrentar novos desafios.

As famílias, enquanto beneficiam do “repouso dos guerreiros”, temem as dissenções ocasionadas pela ausência de saúde (a pandemia e não só…), a conturbação da relação e intercorrência de problemas, e perspectivam o recomeço do trabalho banal ou estimulante, com a necessidade de desempenho e produtividade e por vezes a instabilidade do emprego, gerador de ansiedade e alguma inquietação quiçá desassossego, fonte de apreensões quanto à sua situação financeira e despesas inadiáveis.

Simultaneamente, renovam a oportunidade de reforço da estrutura e dinâmica familiar, com o reencontro do relacionamento conjugal e parental e proactiva transmissão do afecto estabilizadora, e ponderam os estilos de vida (nem sempre vida saudável) e eventual mudança ou adaptação, que os verdes anos desvalorizam e a maturidade faz reflectir.

A sociedade enfrenta (melhor dizendo confronta) os negacionistas criminosos que vilipendiam a ciência, acreditam no deus-dará e no egocentrismo da propriedade da “sua” verdade absoluta em crenças e ilusões, ao mesmo tempo que, graças à tal ciência que também tem sido desvalorizada por sucessivos decisores em décadas de desinvestimento, surge a libertação progressiva das restrições sanitárias, que afligem a saúde e a economia, permitindo a cada um ser o que é ou ser melhor do que era.



A nova era, o novo mundo que não será necessariamente um mundo novo, não voltará a ser como dantes (pós-pandemia do século), em que finalmente foi feita a aprendizagem de que a saúde de um povo interessa a todos os demais, que a globalização tem virtudes e riscos, que a juventude responsável terá de ser o motor sem desprezar a cordura dos antecessores e as componentes da experiência adquirida. 

O que não está a impedir o ressurgimento de fundamentalismos, adormecidos ou expansivos, com promessas de morte e vida severina, com retrocesso civilizacional em direitos humanos, com fanatismo quanto baste a pretexto de guerras pretensamente religiosas, e o potentado das potências (passe o pleonasmo) cada vez mais ciosas do seu poder, muitas vezes beligerantes, em acção militar, embargo económico ou pressão internacional com direito de veto ao bom senso.

Como se não bastasse, as alterações climáticas vão originar o maior drama da Humanidade para as gerações seguintes, de proporções incalculáveis, mas já estimadas em destruição e fenecimento, caso não haja a compreensão suficiente e as atitudes dissuasoras da sua gravidade em cidadania e exercício do poder (o que seria para ontem…). 

Afinal, o acordo de Paris por uns não é aceite, por outros não é aplicado, e por muitos não é entendido que a sua evolução exige medidas regionalizadas, como a descarbonização e a bioeconomia, o hidrogénio e a energia fotovoltaica, a mobilidade sustentável, as inovações verdes premium, a eficiência energética e renováveis, o crescimento inteligente, sustentável e inclusivo, com centros polivalentes de formação avançada e centros de dados para a ciência, a partir da computação avançada e da inteligência artificial.

O Verão passou a ser considerado como o período de rentrée das forças políticas, em que se repetem ideologias e slogans sob capa de inovação (universidade de verão…), se perspectivam acções a desenvolver no novo ciclo político (com promessas de encantar e remoques aos adversários), se mobilizam os aderentes já sem o fulgor de gritos de alma e multidões (com ar blasé e pouca convicção).



Este ano 2021, temos as eleições autárquicas, cujo arranque ainda não levou à apresentação de programas eleitorais panfletários ou rigorosos e não atingiu o top da maledicência (mas que rapidamente atingirá o clímax), com honrosas excepções em princípios e reflexões doutrinárias para orientação dos protagonistas e esclarecimento dos eleitores, melhor democracia e mais democracia.

Como habitualmente, os contendores digladiam-se, havendo aqueles para quem está tudo mal, porque está mal, porque não foi feito pelos próprios ou porque não sabem o que dizem, e aqueles para quem tudo está bem, porque está de facto bem, porque não reconhecem erros no seu mister ou porque só eles é que sabem fazer. Toda a regra tem excepção, toda a excepção pode ter mérito e educação.

O povo é sereno, decidirá conforme lhe aprouver. A democracia funcionará, à glória dos vencedores deveria juntar-se a honra dos vencidos, mas é muito duvidoso que o respeito pelos adversários impere, que a compostura permaneça imutável, que a cortesia se junte à fleuma, que a dileção seja apanágio de uns e de outros. 

Não há remodelação governamental (por enquanto), seja pela existência de sondagens favoráveis à governação seja pela obstinação do decisor confortável pela avaliação global dos portugueses (por enquanto, apenas resquícios de insatisfação para específicos inadaptados), nem há ameaças de crise institucional, por falta de alternativa política que voga ao deus-dará e mostra necessidade de recomposição (não aceite pelos visados).



A recuperação económica é promissora, depois do choque pandémico, da gestão selectiva da crise e da ponderação dos portugueses que, sendo conscientes, não entram em alarmismos injustificados, principalmente depois da penalização que sofreram com a crise económica estrutural e conjuntural do sistema financeiro em 2011. Os profetas da desgraça não encontram eco nos eleitores, e os optimistas inveterados passeiam-se pelos corredores do poder, cimentando o seu crédito perante os cidadãos.

A movimentação interna nos partidos e forças políticas já se faz sentir, qual espada afiada perante os próximos resultados eleitorais autárquicos, onde talvez pela primeira vez no regime democrático vai haver vencedores e vencidos e não apenas todos vencedores, pronta a destroçar caras e casos e, quiçá, a renovar a política, reconhecendo-lhe erudição, competência, civilização, desenvolvimento e progresso com novos actores intérpretes, acima de qualquer suspeita, excepto a verve verrinosa.

São estes os dilemas e algumas contradições que o rotineiro Verão nos trouxe, que não são trivialidades para a generalidade das famílias, para a sociedade organizada e responsável e para a política (séria) que exige mudança de mentalidades, conhecimento, reindustrialização, transição climática e digital, direitos humanos e solidariedade.

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