As lições virtuais (in)esperadas

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Nesta altura, a nova edição da “telescola” tem sido um recurso educativo para muitas famílias. As aulas são de meia hora e o desafio é não desviar os olhos do televisor. Com o ritmo normal do ensino presencial travado pela Covid-19, as séries da Netflix foram trocadas pelas lições da RTP Memória.

Sofia tem assistido a todas as aulas que o horário no frigorífico contempla.  Aguarda o início de mais uma. Com o caderno e a caneta na mão, mal a imagem do ecrã dá início ao genérico do #EstudoEmCasa, decide trocar o sofá pelo chão. Ajoelha-se, apoia-se na mesa, depois sorri e diz “bom dia” ao observar as novas educadoras. Esta é a sua nova realidade e o irmão, ao lado, “faz com que ela se sinta mais confiante e fique mais focada”, explica a mãe.

Na casa de Sofia, estudante do 2º ano e de “Muito Bons”, é dia de mais uma aula de Estudo do Meio. Com sete anos fez uma mudança com o irmão: trocaram a sala de aula pela área de estar da cozinha. Confortavelmente, no sofá da cozinha, longe das suas professoras da Escola Básica de Santos Evos, concelho de Viseu, senta-se em frente ao plasma gigante. Espera, atenta e sorridente, pelo “início do dia de escola”.


Sem pijama para as aulas

Desde que muitos trabalhadores passaram para teletrabalho, Sandra não tem tempo para acompanhar na totalidade o percurso escolar dos filhos. Sentada na sua secretária, no mesmo andar da cozinha, há certos momentos do dia dedicados a auxiliar a filha nos trabalhos de casa. Sabe que o tempo não chega para tudo, porque além da sua profissão ser psicóloga e formadora, na Escola Profissional Mariana Seixas, é presidente da Junta de Freguesia de Santos Evos.

Apesar de estarem em casa, a regra é deixar o pijama no quarto e vestirem uma roupa confortável. Por engano, a televisão é ligada na Netflix, mas rapidamente transita para o canal diário de 850 mil estudantes.

Nesta freguesia medianamente rural, professores e alunos viram as escolas fechar e a sala de estudo mudar. “Aqui a rede não tem falhado e o maior impedimento para as famílias pode ser o acesso a material e recursos para irem ao encontro dos conteúdos à distância.”

Foi através de mensagens e uma chamada que Sandra Gomes revelou que os filhos estão a adaptar-se ao programa #EstudoEmCasa. Com a pandemia, foram milhares de alunos que tiveram de se agarrar à RTP Memória e ao computador. Três dias depois do contacto, entrei em casa da família Gomes para acompanhar um dia de telescola da Sofia e do Simão. O movimento já se fazia sentir pela casa inteira, porque, afinal, aquele era mais um dia na rotina do confinamento. Este dia entrou com o despertar às oito e meia e o tradicional pequeno-almoço em família. Apesar de estarem em casa, a regra é deixar o pijama no quarto e vestirem uma roupa confortável. Por engano, a televisão é ligada na Netflix, mas rapidamente transita para o canal diário de 850 mil estudantes.


O sofá como recreio das aulas

Com uma postura sorridente para o plasma que ocupa boa parte de uma das paredes da cozinha, Sofia ouve com atenção e responde em voz alta aos exercícios propostos. “Sim é isso!”. Enquanto o irmão trabalha na Escola Virtual, a estudante não se distrai em nenhum momento e mostra-se curiosa com os vídeos apresentados pelas professoras. Sofia não mostra dificuldade em estar focada no seu dever e, mesmo quando o pai entra em casa, depois de mais uma noite de trabalho, não abandona o chão onde está sentada com os olhos na televisão. “Nesta casa onde anda tudo a trabalhar, continuamos a seguir rotinas”, comenta Sandra. O sofá é também o aconchego escolhido para Sofia brincar com o irmão durante o primeiro intervalo da manhã.

Mesmo antes da aula entrar no ar, ainda comenta a música a que tomou atenção durante a publicidade: “esta música foi uma seca, ontem era melhor”.

O recreio continua, mas dentro de quatro paredes. Com os colegas, a 10 minutos de carro, os intervalos eram diferentes. Ao olhar, pela janela da cozinha, para o jardim de casa, Sofia relembra a vista que tinha da sala de aula para o pátio e relvado do recinto. Pé ante pé, pela cozinha, recorda as partidas de futebol com os amigos. Os golos que marcava aos colegas e as brincadeiras “às mães e aos pais”, que agora ficam guardadas para depois. Sem esquecer, de um “abraço apertadinho” que vai querer dar às professoras de quem tem saudade. Enquanto estão entretidos em brincadeiras no sofá, pressentem que a próxima aula – Educação Artística – vai obrigar à atenção dos dois. A disciplina promove um encontro, dos estudos do 1º ao 9ºano, com a dança e o teatro. Entre um “frente a frente” dos jovens, com gritos e animação, Sofia não esquece as saudades que tem dos amigos. Mesmo antes da aula entrar no ar, ainda comenta a música a que tomou atenção durante a publicidade: “esta música foi uma seca, ontem era melhor”.


Rotinas alteradas

Os conteúdos televisivos, da responsabilidade do Ministério da Educação, têm o objetivo de complementar o trabalho à distância dos professores e alunos. Simão, com treze anos e a frequentar o 8º ano, tem tido uma experiência negativa neste âmbito. A existência de rede e internet está consolidada, tem os recursos necessários e garante, pelo computador, o acesso à Escola Virtual. Falta o mais importante – o mínimo contacto com os seus professores. Desde que passou a estar em casa confinado e longe da escola, não recebe contacto de quase nenhum professor e depende, sobretudo, dos conteúdos transmitidos na RTP Memória.

Quando soube que a família ia passar os próximos tempos em casa, Sandra decidiu encomendar um computador. “Senti necessidade de ter mais condições para que eles pudessem continuar a estudar.”

Os quatro quilómetros em asfalto que separam Simão da sua instituição, a Escola Básica 2,3 do Viso, foram trocados por passar o tempo com a irmã e praticar alguns exercícios. Sem as aulas síncronas e de forma autónoma, completa alguns trabalhos de casa que recebe de docentes que mantêm contacto com ele e assiste aos conteúdos pela televisão.  “Não temos sinais da diretora de turma, nem qualquer contacto da direção da escola”, refere a mãe.

Estas palavras da mãe são ditas de forma sentida, não sendo imediatamente percetível se soavam a crítica, a desalento ou à mera constatação de que tudo tinha subitamente mudado para todos, ou se soavam a isso tudo ao mesmo tempo. Certo, é que há mais de três semanas em confinamento, a sua casa, localizada na entrada da freguesia, é agora o seu posto de trabalho. Com a sede da Junta de Freguesia encerrada e com o marido a trabalhar durante a noite e a descansar de dia, é com os filhos e agarrada ao computador que organiza os dias. Quando soube que a família ia passar os próximos tempos em casa, Sandra decidiu encomendar um computador. “Senti necessidade de ter mais condições para que eles pudessem continuar a estudar.”

Ele a fazer de Gene Kelly, ela de Cyd Charisse, lembram, sem saber, os movimentos ondulantes e compassados dos dois bailarinos, em “Serenata à chuva”. Mas não, o cenário não é a rua e o passeio encharcados do histórico filme de Stanley Donen, mas a “telescola” a levar a cada casa que a sintoniza um conjunto harmonioso de movimentos sem a cenografia esplendorosa e sofisticada de Hollywood.

Alheados da conversa e da nossa presença, os dois adolescentes prestavam toda a atenção à música e ao telemóvel. Não admira, assim, que tivessem falhado o aquecimento e perdido a explicação do exercício, enquanto procuravam pela casa os materiais necessários, para não perderem o resto.

A aula é dedicada a trabalhar movimentos do corpo com um guarda-chuva. Cada qual com o seu, adaptado ao tamanho de cada um, divertem-se a realizar “movimentos artísticos corporais de oito tempos”. Com um ritmo sem paragens e sempre a aumentar, dançam ao som da música escolhida pela professora. Ele a fazer de Gene Kelly, ela de Cyd Charisse, lembram, sem saber, os movimentos ondulantes e compassados dos dois bailarinos, em “Serenata à chuva”. Mas não, o cenário não é a rua e o passeio encharcados do histórico filme de Stanley Donen, mas a “telescola” a levar a cada casa que a sintoniza um conjunto harmonioso de movimentos sem a cenografia esplendorosa e sofisticada de Hollywood. Mesmo assim, Sofia gosta do embalo e por isso não resiste, quando deixa o volteio da dança para os alongamentos no tapete, de soltar uma exclamação: “isto até parece balé”.

Outra música cantaria, no entanto, se se pudessem agarrar e dançar em conjunto. A Covid-19 trouxe para os dois, além da preocupação em não perderem uma única aula de “telescola”, outra grande apreensão: “e se os meus amigos tiverem o covid?”. Sofia mostrasse preocupada ao lançar esta hipótese. Para se distrair deste pensamento, a mãe refere que brinca com as suas bonecas e lê histórias no “cantinho da leitura cá de casa”. Desde que está em casa, e nos últimos fins-de-semana, quis manter-se em casa e não visitar os avós. Agora, sabendo que os pode proteger com uma boa distância de segurança, com a mãe ao lado, mostra-se feliz, por visitar quem mais ama. Desenvolveu mais confiança, vontade e força para saídas em família. No entanto, “ela continua preocupada e a pensar muito no assunto”, reconhece Sandra. “Numa visita ao Porto até desabafou: ufa, viemos ao Porto e não tivemos de ir ao hospital.”


Educação Física é na sala

“Nunca o tinha visto tão empenhado”, confessa a mãe. Faltam-lhe muitos meses para regressar às aulas presenciais, caso a Covid-19 permita, e durante o dia de hoje, Simão e Sofia mostram-se motivados em continuar o desafio da telescola. “Deve ser por terem visitas”, acaba Sandra por referir, ao longo da tarde. Desde o início do fecho das escolas, o sedentarismo é uma preocupação das autoridades de saúde. Com as aulas de Educação Física, nesta casa, continuam a trabalhar-se as articulações, aprende-se a controlar a frequência cardíaca e a resistir ao cansaço.

Com encontro marcado todas as quintas-feiras, a aula de Educação Física requer vários materiais espalhados pela cozinha inteira. Tem início o aquecimento. Simão não se apercebe, enquanto corre pela casa à procura de uma bola pequena e de uma panela.

São duas horas da tarde e Simão está deitado na chaise longue. Não a desfrutar de um livro, mas no telemóvel. O espaço de refeições, dentro de momentos, vai transformar-se num ginásio. De forma rápida, Simão abandona a cozinha e reaparece, de rompante, com roupa desportiva segura no corpo. Com um colchão roxo debaixo do braço, vai ao lavatório encher a garrafa com água e senta-se. O repouso não dura muito tempo.

Com encontro marcado todas as quintas-feiras, a aula de Educação Física requer vários materiais espalhados pela cozinha inteira. Tem início o aquecimento. Simão não se apercebe, enquanto corre pela casa à procura de uma bola pequena e de uma panela. “O que é que se passa aqui?”, diz a mãe quando entra no espaço, atraída pelo barulho de cadeiras a arrastar. Simão treinava “remate em salto” e o “jogo de acertar na panela”. Tal como em aulas presenciais, a bola nem sempre atinge o destino e perde-se pelo recinto.


Confinamento aproxima mais a família

Com o pai Marco a trabalhar numa empresa de distribuição de aves e comercialização de produtos alimentares, os filhos põem-lhe a vista em cima perto das dez horas. Com a necessidade de turnos na empresa para uma boa gestão do trabalho, ocupa sempre a escala da noite. Esta condição pandémica nunca o levou a parar de percorrer a Estrada Municipal 585 em direção a Mangualde. Esta casa à beira da estrada e fora do núcleo central da freguesia, permite uma vivência familiar longe de meios urbanos e da confusão da cidade que fica a oito quilómetros. Durante a tarde, com o som dos pássaros no jardim e a televisão na “telescola”, é dada ordem para “não haver barulho” para o pai descansar. Só mais logo, à noite, é que Sofia e Simão vão sonhar para os quartos no segundo andar. Nesse andar, por cima de nós, Sandra ouvirá, antes de se deitar, o marido a pegar na chave do carro.

Com a “telescola” a terminar no dia 26 de junho, o que falta perceber é como vai ser o próximo ano letivo. Simão acredita que regressa em outubro, com a máscara a esconder as emoções. “As brincadeiras dos professores tornam as aulas mais fixes”, diz ele com um sorriso malandro.

Durante a semana, as portas desta grande casa estão fechadas e a cozinha assemelha-se a uma sala de estudo: com um sofá confortável, uma mesa com vários materiais e a televisão de um lado ao outro da parede. As cortinas, uma vez abertas, iluminam o interior da casa. Nesta família e em toda a Freguesia de Santos Evos, a Covid-19 não bateu à porta. Com os filhos em casa, o isolamento tem permitido aproximar a relação entre pais e filhos. Sandra reconhece que apesar de “haver dias agitados e difíceis”, é bom passar o dia-a-dia com a Sofia e o Simão. Na impossibilidade de Marco estar tão presente durante a semana, aos fins-de-semana, até as viagens de carro ao McDonald’s contam para Simão “conseguir estar mais tempo com o meu pai”, assume.

Neste período de confinamento, a família aprendeu, numa casa de três andares, a resistir a momentos desafiantes. Não muito longe dali, a menos de um quilómetro de casa, Sandra espera daqui a umas semanas reabrir a Junta de Freguesia. Voltar a acompanhar alguns dos seus alunos presencialmente também é um “desejo muito grande”. Por agora, a falta de salas de aulas, localizadas a quinze minutos daqui, são colmatadas através de videochamadas. Com a “telescola” a terminar no dia 26 de junho, o que falta perceber é como vai ser o próximo ano letivo. Simão acredita que regressa em outubro, com a máscara a esconder as emoções. “As brincadeiras dos professores tornam as aulas mais fixes”, diz ele com um sorriso malandro.

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