As redes sociais, opinião, explosão ou manipulação

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As redes sociais electrónicas (facebook, twitter, instagram, whatsapp,…), foram olhadas com desconfiança e sentimento de rejeição no seu início, não tendo estatuto sequer aproximado às verdadeiras redes de família, redes de amigos, redes em meio laboral e redes sociais de apoio ligadas à vida e problemas comuns em sociedade.

A sociedade analisa-se quanto ao que faz ou poderia fazer o cidadão em seu (dela) favor, quanto ao exercício do voluntariado, quanto à motivação e preocupações sociais, quanto aos tipos de organizações, instituições e associações e quanto ao contributo da sociedade para si, cidadão.

No caso do contributo da sociedade, ela pode dar segurança e apoio social, evitando a solidão; pode ser importante, por garantia de tranquilidade e integração, por ser estímulo para mais e melhor trabalho, ou por ser forma de combate ao isolamento e disfuncionalidade familiar; ou pode ser pouco importante, por autonomia individual de recursos, por enquadramento familiar necessário e suficiente, ou por discordância pelo sistema de articulação e gestão social.



Em estudo que realizei em 2013, apenas 3,3% dos inquiridos valorizavam muito as redes sociais electrónicas, 18% valorizavam-nas moderadamente e 2,8% valorizavam-nas (simplesmente), sendo que os que as valorizavam algo ou pouco eram 75,6% dos inquiridos.

Progressivamente, as redes sociais electrónicas têm vindo a incrementar o seu espaço e a adesão individual e de grupos de intervenção pública (talvez em função da escassez das redes de apoio disponíveis), e a redescobrir novas formas de comunicação interpessoal e grupal, mecanismos de proximidade e até capcioso aliciamento.

A família está demasiadas vezes ausente em momentos críticos, os amigos são frequentemente apenas virtuais, a concorrência laboral estimula o afastamento das pessoas e não a amizade, as organizações têm interesses que nem sempre são os que publicitam, ou precisam de divulgar a sua mensagem a baixo custo e rapidez de interacção.

Assim, a frequência das redes sociais electrónicas hoje é massiva, com expansão de notícias, expressão de sentimentos, realização de webinar e comícios, facilitado e aduzido pelo real time, que antecipa o enquadramento ou a falta de edição da notícia.

Para que servem então as redes sociais electrónicas? Os interesses são legítimos e diversos, a emoção gera abraço ou conflito, a notícia traz vantagens ou inconvenientes, a oportunidade leva ao sucesso ou à perda de isenção, a temática tem seriedade ou demagogia. Mas a tentação de expressar opinião é tão grande que se podem minimizar os riscos, valorizar a autoestima e o egocentrismo, descentrar o conteúdo e disparatar sobre fait-divers.



Há quem utilize estas redes sociais para mensagens curtas, que são chave no âmago da questão e trazem dividendos, quaisquer que sejam, ou para mensagens longas, de construção sequencial, analítica e coerência ideológica, com menos dividendos (saturação do leitor), mas com aprofundamento da exposição e do objecto.

Há quem emita opinião, em liberdade de expressão do pensamento, contribuindo para o esclarecimento, para a diversidade e para a democracia participativa, principalmente se tiver continuidade da palavra em actos de intervenção na res pública, na defesa de causas em promoção da igualdade, na mobilização de pessoas e recursos para o bem comum.

E há quem promova o seu estatuto, há quem venda o seu produto, há quem queira ganho secundário, há quem se sirva deste meio de fácil comunicação destinado ao público alvo e não sirva o interesse público, qual banha da cobra mascarada de pseudo-ciência ou conhecimento empírico apelativo.



Há quem fale de política, de cultura, de estilos de vida, de sociedade, e constitua uma dissertação proba e valorosa, que seja ensino-aprendizagem que consola, que desperte outras reflexões meritórias por outras pessoas, que seja a eloquência e o saber, que motive o diálogo qualificado.

E há quem fale dos mesmos assuntos, e seja apenas o destilar de fel verrinoso, a postura de mal com a vida, a invídia de quem tem ciência e humildade, a avidez do bota-abaixo para desabafar frustrações ou maledicências, até escudando-se em tom jocoso, piada de latrina ou perfil falso.

Há quem cuide a linguagem, a gramática, a ortografia e a boa educação, preservando a sequência de ideias e o debate democrático, fazendo da cordialidade uma arte e da sapiência uma prova de modéstia e sobriedade.

E há quem seja desbragado e desconfigurado salivando e espumando, quem dê pontapés na gramática (tão fáceis de evitar com o Dr. Google…), quem escrevinhe uma exposição com gralhas e despreze correcção, quem esteja nos antípodas da cordialidade, da convivência e da pedagogia.

As redes sociais electrónicas são hoje uma atracção fatal para uma boa parte da população, prestando um serviço à informação, um tributo ao lazer e bem-estar, um diálogo alargado a familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos, com regras e fronteiras.

Mas são também uma exposição pública de intimidade, um mercado de bens e serviços pouco adequados, um risco de envolvimento indevido em explosões de mau humor e manipulação de acontecimentos sob a forma de fake news, uma mistura de agitação e propaganda sem literacia em conhecimento e direitos humanos, a disseminação do verdadeiro e do falso de duvidosa distinção.



Em matéria de organizações, citemos apenas 3 tipos de organizações do quotidiano, quanto ao grau de importância exacerbado nas redes sociais.

Os clubes desportivos podem ser importantes, pelo estado de união perene e satisfação associada, pelo quadro de emoção e paixão que une as pessoas ou pela ausência de agressividade e fanatismo deletérios; ou podem ser pouco importantes, por refelctirem estatuto de classe económica superior e baixo carácter, por terem uma actividade profissional não essencial à vida humana, ou por inveja de regalias e desdém por rivalidade.

As organizações humanitárias podem ser importantes por exercício de função social benemérita, por serem um recurso humano elogiável em princípios, causas e valores, ou por dedicação à comunidade sem privilégios; ou podem ser pouco importantes, por haver casos de práticas públicas com fins ilícitos, por intriga, desconfiança e zelotipia, ou por emulação ou inferioridade.

Os partidos e forças políticas (quaisquer que sejam), podem ser importantes por serem veículos de legitimidade democrática, pelo exercício do poder em proximidade e serviço público, ou pela expressão de ideias para o bem comum; ou podem ser pouco importantes, pela incoerência e compadrio, pelo elitismo, recebimento de vantagens e imunidade, ou por sumptuosidade e promiscuidade.

Tudo se encontra nas redes sociais electrónicas. A selecção é o caminho, transformando as estátuas vivas em vida própria autónoma, criação, responsabilidade e liberdade.

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