António Cabrita: é “o momento de descolarmos das noções simplórias sobre a imaginação”

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Emigrado em Moçambique, o escritor António Cabrita passou recentemente por Portugal num périplo que incluiu mais uma sessão de Diga 33 – poesia no Teatro da Rainha. Com novos livros de poesia na bagagem, um romance publicado no final do ano passado e 1001 projectos a darem sinal de inaudita vitalidade, aceitou responder a um leque suplementar de questões que lhe colocámos após o encontro com os leitores em Caldas da Rainha. Com ele ficaríamos à conversa dias a fio. Poeta, ficcionista, ensaísta, crítico de cinema e de literatura, tradutor, António Cabrita nasceu em Almada no ano de 1959. Começou a publicar na década de 1970, foi jornalista do Expresso durante mais de 20 anos, foi editor e dedica-se ao ensino de há alguns anos a esta parte. Eis o essencial das ideias trocadas, mantendo o texto a informalidade com que entrevistador e entrevistado dialogaram entre si.


sinalAbertoNo livro “A Gazeta de Madagáscar” anunciaste a intenção de te afastares da escrita de poemas. Entretanto brindaste os teus leitores com dois livros de poesia, “A Kodak Faliu. Também o Dick, o cão da Minha Infância” (Barco Bêbado, Fevereiro de 2020) e “Método de caligrafia para a mão esquerda” (Húmus, Junho de 2020). Afinal qual é a tua relação com a poesia? És tu quem a procura ou é ela que te persegue?

António Cabrita — É um misto. Escrevi assim no arranque de um poema, citando a Marianne Moore:

“Eu também não gosto dela.
Ao ser lida, porém, com um total desprezo, descobre-se
apesar de tudo que o genuíno aí tem o seu lugar”:
escreveu Marianne Moore, num poema intitulado POESIA.
Esta declaração é um divisor de água.
Eu também detesto a poesia, posso lá eu relacionar-me
com algo que me trata como um cão de cego?
Gosto é de espreitar à socapa no espelho
a ver se alguém que não eu, em gestos
e expressões que me não pertencem, me perscruta.
À socapa, se ela sabe (a poesia) faz-me o escalpe.”
E o poema acaba deste modo:
“Nada disto é um poema.
Quem assim pensa que se dane.
São os galgos da mente, engalfinhados.”

É isso, muitas vezes a poesia acontece-me contra mim. Tinha a vida facilitada se aplicasse a inteligência noutros misteres. Assim só me resta abordar a vida a partir de uma certa “pobreza essencial”. Estou a ser irónico e não, pois há um outro lado neste mano a mano com a poesia, que é o da dádiva. E este aspecto é luminoso e traz alegrias. Aí há que sermos gratos.


SA — Na conversa que tivemos no Teatro da Rainha sobressaiu uma relação de abertura que tens com a linguagem e, ao mesmo tempo, a necessidade de exploração e de preservação de uma língua rica como é a nossa. Tens um ensaio, intitulado “A sós com os meus botões”, onde te referes ao que da língua se foi perdendo entre Shakespeare e Dan Brown. Achas mesmo que Shakespeare não teria editor que o publicasse hoje em dia?

AC — Seria convidado a aplanar as metáforas, a simplificar – o que quer que isto queira dizer. Uma vez quis que os meus alunos de Dramaturgia trabalhassem a partir do Rabelais pois queria ajudá-los a expandir o corpo da sua própria língua. Estive sem alunos durante dois meses. Fugiram. Com o Shakespeare têm as mesmas dificuldades, e não é só uma questão lexical, também envolve a questão do ritmo da fala, ao arrepio da coloquial. Ainda ontem estive a ler uma biografia da Susan Sontag onde se refere uma obsessão dela que me toca muito, dizia então ela: “só me interessa a gente engajada num projecto de autotransformação” – e faço minhas as palavras dela. Isto é ainda uma herança iluminista – talvez a mais necessária das heranças do Iluminismo, mas hoje, apesar de continuar a haver gente maravilhosa no mundo e inteligência a esmo, parece-me que este aspecto está a ser descurado e que colectivamente acha-se menos necessário que cada um se empenhe em melhorar-se. O que importa é a eficácia, uma comunicabilidade rápida, menos o argumento que o engenho para o slogan, e paralelamente impõe-se uma crescente puerilização do mundo que nos torna permeáveis a uma deficiência cognitiva programada. Adivinha-se nisto um dissimulado projecto político mas do qual já divisamos os contornos e parece-me que este será o combate do século. Que começa na re-dignificação do simbólico e do estatuto da linguagem nas nossas vidas.


sA — Os últimos 30 anos da poesia portuguesa ficam irremediavelmente marcados por um “regresso ao real” que reduz a língua a um mínimo necessário e mete um colete-de-forças na metáfora. Os teus livros, sejam de poesia, de ficção ou até os ensaios, estão crivados de metáforas. Qual é o teu real?

AC — Talvez seja conveniente começarmos por distinguir os “achados” literários e o poético. A metáfora foi muito desvalorizada porque superficialmente se começou a entendê-la como um tique, como uma espécie de “greguerias” que se juntavam no fio do poema, ao jeito das missangas. A metáfora tem de facto duas faces como o Jano e há uma face de aparatoso simulacro, mais frívola, que foi experimentada até à náusea. Por exemplo, para além do exercício de associação livre em Benjamin Péret, pouco me interessa. Já no Herberto não há nenhuma “metáfora” arbitrária. Sou muito menos sensível à façanha do “achado” literário do que à possibilidade da metáfora poder romper diques e abrir o real. Nem todas as sementes que se lançam à terra medram, mas há uma que ao fazer despontar uma árvore muda a paisagem e intervém no real, mudando-o. Interessa-me a metáfora que faz operar a propensão de mudar em árvore a possibilidade que é a semente – até aí uma mera virtualidade. Aí desponta uma “reorganimação” do real. E de tal forma verdadeira que contra a nova árvore pode colidir uma bicicleta, ou à sua sombra fazer-se filhos. Por isso, na generalidade, prefiro o termo isomorfia do que metáfora: abrem-se janelas para que se revelem outros níveis de realidade. Portanto, sem perder de vista o justo equilíbrio lúdico que faz falta ao poema encaro a metáfora como um instrumento de conhecimento e não como um berloque ou uma pirueta das imagens. Quem falava tão fanática e cegamente em “retorno ao real” tinha pelo contrário uma visão redutora, estática  e conformada do que a realidade seja. Eu não concebo a realidade como uma coisa já dada mas como um processo que orgânicamente se transforma. Dizia o Samuel Butler que a vida se compara a um solo de violino que temos de interpretar em público, enquanto  aprendemos a técnica do instrumento à medida que o tocamos em público. Troca vida por real, é o mesmo…



SA — Por outro lado, aquele que consideras hoje o teu “primeiro” livro de poesia — refiro-me a “Carta de Ventos e Naufrágios” (Teorema, 1998) —, isto apesar de publicares desde 1977, abre com uma sequência que podemos dizer de poemas sociais, políticos ou cívicos, designação que julgo ser da tua preferência. A poesia tem algum papel social a desempenhar? De um modo geral, a literatura tem um papel social a desempenhar?

AC — A literatura não é distinta do homem que a produz. A mim interessam-me todos os aspectos do real e por isso há um deles em que o meu papel como testemunha das mutações sociais (nos seus matizes positivos e negativos) é uma acha para o poema. Mas para além do incêndio desse aspecto, circunstancialmente necessário, o social não captura a totalidade da poesia. Mas sim, a poesia pode ser uma cunha e ajudar a que a mesa das negociações na luta política se apresente mais direita…


“A poesia pode funcionar como uma espécie de psicanálise da nossa perceção, liberta-nos das ilusões e faz irromper outros níveis da realidade”.

SA — Num artigo publicado recentemente dizes que “a poesia e a ciência são as duas formas de conhecimento que admitem por atracção e desencadeamento o desconhecido”. Estava aqui a pensar na magia e na metafísica, mas o que achei curioso foi referires-te à poesia como forma de conhecimento. Em que sentido é a poesia uma forma de conhecimento?

AC — Dizia o Char: “pobre do poema que não ensine ao seu poeta algo que ele não saiba de antemão”. Acredito firmemente que a poesia tem muito a ensinar-nos, por exemplo, ao fazer-nos desaprender a pauta de idiotices que nos impingiram como coisas verdadeiras.

É como a diferença entre ver e olhar, muita gente olha mas não vê: ver é um acto relacional que transforma a realidade do que vemos e que nisso nos transforma. A poesia pode funcionar como uma espécie de psicanálise da nossa percepção, liberta-nos das ilusões e faz irromper outros níveis da realidade. É o que tomo por autoconhecimento…


SA — És um poeta que escreve ficção ou um ficcionista que escreve poesia?

AC — A poesia, espero, estará no núcleo de tudo o que escreva. Mas tendo a acreditar em mim como ficcionista, o que nem sempre aconteceu. Agora acho que estou com a mão na massa de forma leolina, i hope.


SA — O teu romance mais recente, “Fotografar Contra o Vento” (Exclamação, Outubro de 2019), parte de factos em si mesmo quixotescos para situações, como sempre acontece na tua prosa, completamente mirabolantes. Tens uma imaginação prodigiosa que não dá descanso ao realismo. Ainda assim, parece-me que neste romance tudo é muito mais simples do que aparenta. O que temos à nossa frente é um homem que sonha e que luta pelos seus sonhos. Ainda há lugar para o sonho nos tempos que correm?

AC — Tens razão, é simples como água. Os moínhos a derrotar é que são muitos. No dia em que deixar de acreditar numa “reorganimação” do mundo – onde o sonho e a utopia têm papéis vitais – espero ter a coragem de me suicidar. Aliás, aproveito para dizer que da mesma forma que para mim a dicotomia mais decisiva não é entre o bem e o mal mas, na esteira do François Cheng, entre o belo e o mal (lembrem-se os mais apressados como já o Platão emparelhava o belo e o bem), o suicídio me surge como natural, isto é, como uma saída digna para os impasses que nos menorizam. Neste aspecto um dos meus heróis é o Séneca…



SA — Olhamos para o mundo actual e ficamos com a sensação de que os ficcionistas foram completamente ultrapassados pela realidade, tantas são as notícias que nos levam diariamente a afirmar com espanto: “surreal”. Foi a loucura que se normalizou ou estamos hoje, por via das tecnologias da informação, mais expostos ao que na verdade sempre fomos e nunca deixámos de ser?

AC — Tendemos sempre a achar que na nossa época é que tudo acontece de forma mais extrema. Assim é também com os Apocalipses e com essa linha flutuante que separa a realidade da ficção e que nunca teve fronteiras fixas. Aqui sou um optimista, a loucura não é maior do que antes, está simplesmente mais exposta. O que exige mais discernimento e responsabilidade mas também alguma vez nos foi facilitada alguma coisa? Temos de fazer como os esquimós e aprender a distinguir entre vinte e três tipos de branco, mas isso só assusta os preguiçosos… Aliás, é por causa deste estado pantanoso e patológico da percepção engodada pelos simulacros de real que os media e as redes sociais impõem que a ficção, esse regime saudável de ventilação da matéria simbólica que nos nutre, se faz de novo mais necessária… Para que hajam modelos, se perceba a diferença, e se cumpra o dito de Novalis: quanto mais poético mais verdadeiro. Hoje estamos sim, no reino da má prosa… O que a época talvez exija é um esforço suplementar porque estará no momento de descolarmos das noções simplórias sobre a imaginação e o imaginário para avançarmos para a mais complexa noção de imaginal proposta pelo Henri Corbin, a qual pode trazer uma nova dimensão ética ao trabalho criativo…


SA — Quero fazer-te uma pergunta talvez um pouco melindrosa. Não me recordo de ter visto uma linha nos jornais dedicada a este teu último romance. Julgo até que tens sido, dos autores portugueses contemporâneos, um dos mais maltratados pela chamada crítica jornalística, actividade que, de resto, exerceste durante muitos anos no Expresso. Como é que se explica que um autor que publica livros há mais de 40 anos ponha um romance cá fora e ninguém lhe dedique uma linha nos jornais?

AC — Não é melindroso porque sou um corredor de maratona, já atravessei outros desertos, e sei que me bastará persistir para voltar a ter a atenção dos media. E não acho que tenha sido maltratado, nos últimos anos pelo menos a minha ficção tem recebido bastante atenção. Só a propósito de “A Paixão segundo João de Deus” saíram para aí sete ou oito artigos. Foi um cabaz inteiro. Com este último romance sim, e fiquei perplexo, depois da apoteótica recepção do anterior pareceu-me irracional o silêncio que rodeou o livro. Talvez por ter sido insensato, fui logo escolher um protagonista que quer ser toureiro, nesta altura do campeonato! A aversão é tão cega que nem se admite que o romance NÃO É sobre a tourada. Depois tive azar com este tempo de Covid e, simultaneamente, de absoluto desnorte nas redações dos jornais, um sector tão em crise como o dos livros. Veja-se como as secções culturais estão reduzidas ao osso e como se prefere gastar duas páginas (as únicas que o suplemento tem para os livros) a malhar num livro que se executa e a que se dá bola preta, do que, por exemplo, a divulgar dois bons livros. Os critérios estão todos do avesso, mas os meus cornos não estão na lua, estão bem assentes em terra. E tive duas dúzias de bons leitores que em privado se manifestaram favoravelmente sobre o meu romance. Olha, em jovem fartei-me de rir a detestar o James Stewart e o Gary Cooper e agora à primeira oportunidade baixo todos os filmes com eles. Tudo muda, apesar de continuar a deplorar o penteado do James Stewart, sobretudo aquela nuca à anhuca.

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