Bairro 6 de Maio: a luta ininterrupta de uma comunidade

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Da Amadora a Sintra, os bairros clandestinos cresceram e acompanharam a realidade urbana do pós-revolução. Nos anos 90 é lançado o PER (Programa Especial de Realojamento), com o objetivo de erradicar as barracas nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Trinta anos depois, o Bairro 6 de Maio, na Damaia, está praticamente extinto. Mas os problemas estão longe de desaparecer. Reparem: Nuno vai buscar toneladas de comida sozinho para o Centro Social. Swaty, 30 anos, que viveu no bairro até há pouco tempo, queixa-se dessa “desvinculação”. Já a Dona Antónia aguenta-se numa casa que parece o escudo do pouco que sobra do gueto.“Não quero estar aqui”, diz. Tanto para os que saíram, como para os que ficaram, a realidade é de dor.

É desta comunidade destituída da sua terra, que vos vamos falar. De pessoas que habitam um bairro aparenta estar morto, mas quem o visita percebe que isso não é verdade. Há esperança. Há miséria. Há saudade. E uma luta ininterrupta. Uma luta comum de quem fez de uma lixeira a Rua do Sol.



Nuno é pau para toda a obra. É o responsável dos serviços gerais do Centro Social do Bairro 6 de Maio. Trabalha há nove anos nesta IPSS, acrónimo de Instituição Particular de Solidariedade Social. “Temos de ir buscar a carrinha”, decreta com energia. O destino é a Santa Casa da Misericórdia da Amadora. Mas nem sempre foi assim. De há dois anos para cá que a junta de freguesia da Venda Nova deixou de ajudar. Nuno lamenta: “Além do veículo também disponibilizava funcionários. Agora nada”.

Conduz com destreza, absorto e focado. Há ali uma moral imperecível e detetável. ”Todas as quartas vimos buscar comida ao Banco Alimentar”. Não se sobrepõe em nada, conta o que faz, sem ténue pedantismo, e vai quase sempre sozinho.

 Hoje, Matilde também veio colaborar. Vive na Damaia, perdeu o emprego nas limpezas de um hospital durante a pandemia. É viúva e tem três filhos menores em casa. Agora beneficiam da comida do centro social – das jornadas de Nuno.

 “Chegámos cedo e já há fila”. Aguardou sem nervos e aproveitou a espera para ser ele próprio. Chegada a hora, lançou um olhar prazenteiro a umas caixas “Aquelas peras têm ótimo ar”. Carregou mais caixas, puxou a lona e foi buscar a papelada. “Não foi mau, 526 quilos”, leu do impresso.

De Alcântara à Damaia, o carisma manteve-se.“A nossa sustentabilidade deve-se às mensalidades da creche”. São setenta e cinco crianças inscritas que compõem e pintam o espaço. Nuno é ponderado, mas convicto. “Nesta região, quem procura os nossos serviços, naturalmente, não tem muito poder económico”. A solução passa por ter mensalidades “baixas” para quem as pode pagar, e por “celebrar protocolos com o Estado”. É submetida uma candidatura que tem de corresponder a determinados critérios. Depois de uma avaliação, o Estado valida um valor que suporta as necessidades daquela inscrição.

Nuno estacionou com mestria diante um grupo de pessoas que já esperava pelos alimentos. Com olhos esclarecidos finaliza, “É bom para todos”.



O nascimento e a vida de um bairro clandestino

 “Foram trazidos muitos cabo-verdianos depois da revolução. Vinham para a construção civil. Eram pessoas que queriam aprender. Humildes. Desejavam muito trabalhar”. Quem o diz é a irmã Deolinda Rodrigues, por baixo da máscara, no seu gabinete no Centro Social do bairro. Faz parte das Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário, que chegaram ao Bairro das Fontainhas, que se cingia nas portas de Benfica, ainda na década de setenta. Com o aumento da população, os terrenos disponíveis mais próximos, “grandes lixeiras”, como refere, foram ocupados. Deram origem ao Bairro 6 de Maio e ao Estrela d’África.

A irmã Deolinda veio assentar arraiais, no bairro da Damaia, em 1986. “Viemos apoiar crianças. Ajudar mulheres. Criámos programas de alfabetização para todos. Facilitávamos as burocracias, que ainda hoje existem, para a obtenção de nacionalidade”.

 Aqueles anos ficaram marcados por várias mudanças na comunidade. A irmã não se esquece. “As segundas e terceiras gerações do bairro foram problemáticas. Havia fome e as mulheres começaram a trabalhar para ajudar a família. Mas os miúdos ficavam entregues à sorte da rua”. É durante esse período que se formam bandos, levando alguns adolescentes a mergulhar na má vida. “Alguns pais vinham ter connosco. Desesperados. Pediam ajuda porque os filhos só queriam cheirar cola”.

Foi assim que surgiu a ideia de criar um jardim infantil. Albergar as crianças de dia e prevenir o descarrilar propício num gueto complicado. A missão, para a irmã, foi espinhosa. “Não havia infraestruturas dignas. Tínhamos, por exemplo, de cozinhar em casa as refeições dos miúdos. Mas fazia-se”.

O Centro Comunitário, construído nos anos oitenta, contribuiu para aproximar as pessoas. A irmã Deolinda revive o naufrágio de alguns, “muitos sentiam não ter identidade. Não sabiam se eram cabo-verdianos ou portugueses. Criámos uma iniciativa que ainda hoje é motivo de entusiasmo. A festa do Padroeiro”.

 Esta comunidade, dedicada ao catolicismo, facilmente aderiu às celebrações. A irmã fala sobre valores. “O bairro usufruía de excelentes oradores. Um deles tinha a alcunha de Lalaxu. Um grande contador de histórias. Tudo era importante para a coesão social”. Essa era a fortuna daquela gente. A festa que era o bairro.



“Alguns moradores viajavam para fora e quando regressavam já não tinham onde dormir”

Foi lançado, em 1993, o Programa Especial de Realojamento (PER), com o objetivo de erradicar as barracas nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. A intenção era de melhorar o ambiente e abrir caminho a processos de requalificação, através de parques urbanos e/ou vias de comunicação.

No Bairro 6 de Maio, as demolições começaram em 2015. Maria João, presidente da associação Habita, não oculta o que se passou: “Fomos hostilizados pela Câmara Municipal da Amadora quando viemos mostrar o nosso desagrado”. Aquele ano foi o início do drama, mas tanto a Habita como a Stop Despejos lutaram pelos direitos de quem não tinha voz. “A C.M.A afixava papéis nas casas, sem assinatura nenhuma, a alertar para a demolição no dia seguinte”. Isto deambulava entre muitas dúvidas de legitimação. “Viemos para o bairro. Pusemo-nos à frente das máquinas e ganhámos algumas batalhas”. Iam-se embora e a casa resistia.

O processo de realojamento no Bairro 6 de Maio, para a irmã Deolinda, foi “condescendente e célere”. No entanto, não foi assim para todos. Maria João clarifica: “Algumas pessoas chegaram ao bairro no início dos anos 2000. Essas não tinham direito a nada. Tivemos de falar com o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), especificamente com a Ana Pinho, Secretária de Estado da Habitação”. O Estado Central “aceitou realojar quem não constava no PER”. A Habita tem 30 casos, do Bairro 6 de Maio, recenseados na associação. Prova que os problemas estão longe de estar resolvidos.

Maria João é uma mulher de pensamento ágil e de punhos cerrados. “Aconteceram histórias bárbaras. Alguns moradores viajavam para fora e quando regressavam já não tinham onde dormir”, conta com uma voz dorida e magoada. Não obstante, a forma como eram “oferecidas” algumas residências andava longe da razoabilidade. A presidente da Habita especifica que “a uma moradora, com noventa anos, deram-lhe um apartamento no Bairro do Zambujal. Não conhecia um único vizinho, ficou assustada”. A C.M.A utilizou a norma do “pegar ou largar”. Como não aceitou de imediato ficou de fora. “Dispersar estas pessoas é cruel”. A presidente ativista cisma sobre a inclemência do poder: “A câmara faz desaparecer dados. Olhamos para eles com desconfiança”.


“A uns deram casas. Outros receberam dinheiro. Mas tiraram o bairro a todos”

Nos dias em que visita o bairro onde cresceu, Swaty é metade felicidade e metade dor. “Foi aqui que nasci e onde fui mãe. Mas já nada resta da rua principal do bairro, a Rua do Sol.”. Na parte de cima do Bairro 6 de Maio, na Amadora, pouco sobra. De pé, mantém-se um edifício térreo, branco, o Centro Social onde trabalha a irmã Deolinda, Nuno e outras pessoas que dão apoio a quem precisa. À porta, uma mulher mais velha cumprimenta Swaty. Pergunta-lhe pela família. A conversa é curta mas próxima.”A uns deram casas. Outros receberam dinheiro. Era opcional. Mas tiraram o bairro a todos”. É essencialmente isto que a magoa.

Lá do fundo ouvem-se crianças a brincar. A creche, onde Swaty deu os primeiros passos, vigora no mesmo sítio. “É a única coisa boa que resiste. Pessoas realojadas em Sintra continuam a trazer os filhos para a nossa creche”, diz com orgulho.

Dando a volta ao que resta do bairro, o cenário é de guerra. Os sacos amarelos de entulho substituíram as habitações. Dentro deles, molduras e azulejos. Pelo chão, encontra-se todo o tipo de objetos, sobretudo lixo e mais escombros. No centro do bairro restam três ou quatro casas. Na margem, uma moradia, com os tijolos à vista, de onde vem um aceno.

 Swaty conta-nos sobre aquela mão. “ É das pessoas mais antigas do bairro e continua a viver aqui. Não sabe de nada e tem poucos meios para saber. Está sozinha”. A máscara não impede que um cheiro particular, vindo da cozinha, se entranhe pelo nariz.“Está a fazer rapé. Um género de tabaco artesanal. É assim que sobrevive”. Trocando por outros bens de pequenos produtores e antigos moradores que por ali passam.

Para dentro do bairro, Swaty prefere não seguir. “Isto era mais seguro quando existia uma comunidade. Agora, até eu, que morei 27 anos neste lugar, não me sinto à vontade”. Esse medo que transporta leva-a a uma reflexão. “Desvincularam-nos! Foi isso que aconteceu”.


“O bairro é como o cordão umbilical de todos. O nosso está aqui enterrado”

Dona Antónia, 80 anos, tem ao seu encargo duas netas, uma de cinco anos e a outra adolescente.

O cordão umbilical enterrado na miséria

A irmã Deolinda não tem dúvidas: “a maioria das pessoas que saiu daqui, que foram realojadas, melhoraram as condições de vida”. Não é fundamento que a faça desvalorizar as “saudades” que moram no coração daquela gente. Este ano, no dia 16 de outubro, o bairro esteve de luto. Um dos símbolos da comunidade, o Espaço Cultural, foi demolido. “Algumas pessoas vieram visitá-lo uma última vez. Muitas beijaram as portas”, relembra a irmã.

É um final de semana soalheiro, depois de almoço, e para entrar no bairro e tirar algumas fotografias, um batedor, chamado Rui, pede “cinco euros”. É assim que funciona, “à base da educação”, diz. Sobre a devastação do bairro é perentório: “ O bairro é como o cordão umbilical de todos. O nosso está aqui enterrado”. Como se fossem raízes invioláveis. Questionado sobre a finitude daquele lugar é assertivo “o que é nosso não sai das nossas mãos”.

Há um caso particular que está debaixo de fogo. Dona Antónia, oitenta anos, vive com duas netas, numa casa que parece o escudo do que resta do bairro. A expressão dela é de medo. As rugas de cansaço. No estendal vê-se roupa de criança pendurada. Tem ao seu encargo duas netas, uma de cinco anos e a outra adolescente. À volta da sua casa, ruínas e lixo. Com uma voz dorida acrescenta: “lá dentro, quando chove, é água por todo o lado”. A casa tem humidade. Dona Antónia tem pouca saúde. Está encurralada. Ela garante: “eu não quero estar aqui!”.


A casa de dona Antónia, na imagem, tem humidade, chove lá dentro, tem lixo e entulho à volta…

Maria João, presidente da Habita, afirma que a C.M.A “está a par” do flagelo desta mulher, mas a inércia prevalece. A irmã Deolinda queixa-se da “falta de resposta dos serviços” e da exclusão destas populações por “iliteracia tecnológica”.

Esta comunidade, destituída da sua terra, esmurrada pelos poderes, tem lutado pelos seus direitos. O bairro aparenta estar morto, mas quem o visita percebe que isso não é verdade. Há esperança. Há miséria. Há saudade. E uma luta ininterrupta. Uma luta comum de quem fez de uma lixeira a Rua do Sol.



As perguntas que a câmara da Amadora não respondeu

O sinalAberto contactou, evidentemente, a câmara municipal da Amadora, no sentido de obter os necessários esclarecimentos. Tentámos por telefone e por email. As quatro questões que desejávamos colocar não obtiveram resposta, até ao final do dia de quinta-feira, prazo de quatro dias que estabelecemos como razoável. Eis as quatro perguntas que ficam sem resposta:

1- É consensual que a CMA foi condescendente na atribuição de fundos e casas para a maioria dos antigos moradores do bairro 6 de Maio. No entanto ainda figuram meia dúzia de habitações naquele terreno tosco e insalubre. Qual é a situação dessas pessoas?

2-. No meio do bairro, onde parece haver alguma criminalidade patológica, vive uma mulher com mais de oitenta anos com as duas netas, uma de dezasseis e outra de cinco anos. Estão sem água potável, sem condições de higiene e cercadas pelo crime. O que se passa com a inércia da câmara para resolver este caso em particular?

3- A celeridade nas demolições não corresponde ao aproveitamento dos terrenos, estando minados de escombros e sem solução para o pequeno grupo de pessoas que ainda lá está. Que tipo de projeto está reservado para aquele espaço?

4- Que tipo de acompanhamento está a ser dado aos antigos moradores que perderam contacto e ligação com a comunidade?



Autoria das fotos: Henrique Marques de Castro 

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