Bolsonaro e o resto do mundo

Daniel Costa (Unsplash)

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O governo Bolsonaro é um triste escândalo, tanto em termos da avaliação interna da população brasileira, quanto em relação à imagem do país que oferece aos meios diplomáticos e à opinião pública internacional. Não bastassem os inúmeros exemplos de políticas públicas e decisões governamentais carregadas de forte conteúdo homofóbico, machista, racista e elitista, o presidente não se cansa de destilar todo o seu ódio aos regimes democráticos na América Latina e pelo mundo afora. Para ele, não cabem pautas como a defesa de direitos humanos, redução das desigualdades, sustentabilidade ambiental ou de respeito à diversidade de qualquer tipo.

Desde a época da campanha eleitoral de 2018, o então candidato jamais escondera a sua mais completa admiração pelo Presidente dos Estados Unidos, à época, Donald Trump. Havia um misto de identificação político-ideológica e proximidade de membros das famílias, de modo que após a sua eleição Bolsonaro alimentou a ilusão de que seu governo receberia algum tipo de atendimento privilegiado por parte do irmão do rorte. Assim, o que se verificou foi uma mudança extremada na orientação do Ministério das Relações Exteriores. O Itamaraty abandonou a tradição de não-alinhamento explícito com a diplomacia norte-americana e começou um processo de isolamento internacional crescente, abandonando todas as conquistas que havia alcançado com os diversos movimentos de aproximação por todos os continentes.

O Ministro indicado para ocupar as relações exteriores em janeiro de 2019 implementou uma política de isolamento voluntário, esperando contar com um suposto apoio por parte da diplomacia comandada por Trump. O Brasil deixou de lado iniciativas onde sua liderança era fundamental. Esse é o caso das medidas de integração regional, a exemplo do Mercosul e da Unasul. Contribuiu para esse enfraquecimento do bloco comercial com os vizinhos e da união do conjunto dos países da porção meridional do continente as mudanças ocorridas em algumas nações da região. Mas a sabotagem promovida pela diplomacia comandada pelo titular do Itamaraty, Ernesto Araújo, revelou-se fundamental para tanto.


O presidente não se cansa de destilar todo o seu ódio aos regimes democráticos na América Latina e pelo mundo afora. Para ele, não cabem pautas como a defesa de direitos humanos, redução das desigualdades, sustentabilidade ambiental ou de respeito à diversidade de qualquer tipo. (Marília Castelli)

Aliança com Trump, boicote ao Mercosul e crítica aos BRICS.

Em sua ânsia de incorporar como sendo seu o combate travado por Trump contra a China e a Rússia, Bolsonaro terminou por aprofundar também o isolamento brasileiro no âmbito das relações com esses dois importantes países no mundo contemporâneo, além de boicotar e se afastar da estratégica inciativa de fortalecimento do bloco dos BRICS, composto também por Índia e África do Sul. Ao longo do primeiro biênio de seu mandato, o governo brasileiro não cansou de provocar, de forma muitas vezes irresponsável e infantil, os regimes chinês e russo. Tratava-se de trazer para o nosso campo uma disputa que dizia respeito basicamente aos interesses norte-americanos, de forma geral, e do Presidente Trump, em particular. Afinal, em sua cruzada irracional, Bolsonaro parece ignorar que a China já havia se convertido, ao longo dos últimos anos, no principal parceiro comercial do Brasil, apresentando-se como o principal destino de exportações das nossas “commodities”.

Em outra frente diplomática, o Itamaraty também vem desenvolvendo um enorme esforço para conseguir se isolar de forma gratuita. Trata-se das relações com os países da União Europeia. Um dos temas que mais incomodam o governo Bolsonaro são as denúncias e as cobranças relacionadas ao meio ambiente e a sustentabilidade. Como nos outros casos, ele incorporou como sua a luta de Trump contra o Protocolo de Kyoto e passou a declarar sua discordância quanto à centralidade de medidas para conter o aquecimento global. Os países europeus mantêm uma opção firme por políticas públicas que ajudem a minorar o efeito estufa e a emissão de gases.

As queimadas crescentes e os desmatamento em nosso biomas, como a Amazônia e o cerrado, passaram a ser objeto de questionamento por parte de países europeus. O desastre criminoso ocorrido no Pantanal em 2020 terminou por reforçar o clima de isolamento, uma vez que o governo insiste em negar sua responsabilidade e mesmo relativizar as proporções gigantescas do incêndio. Por outro lado, a postura contrária de Bolsonaro em respeitar os direitos dos índios e dos quilombolas contribui para aumentar o descrédito das intervenções brasileiras nos foros internacionais.

As divergências políticas e ideológicas do Presidente brasileiro com o governo da Venezuela sempre foram públicas e bem conhecidas. No entanto, depois de sua posse ele continuou a manter o mesmo tom provocador e belicista de antes, quando era apenas um excêntrico deputado federal da extrema direita. No caso das relações com Caracas, Bolsonaro também entrou na linha de Trump para criar condições que levassem à queda de Maduro. Foram as provocações por meio de declarações oficiais, de movimentos militares na fronteira, do reconhecimento unilateral do golpista Guaidó e, finalmente, a colaboração com a visita do Secretário de Estado de Trump, Mike Pompeo, à região.



Provocações à Venezuela e fuga de Ministro da Educação.

Um dos filhos de Bolsonaro foi eleito deputado federal e tornou-se presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. A partir dali, Eduardo Bolsonaro passou a coordenar uma série de inciativas em sintonia com o pai e com o Itamaraty. Durante quase o ano todo de 2019 fez um lobby explícito para ser nomeado embaixador brasileiro nos Estados Unidos, sem que apresentasse as mínimas credenciais para tanto. O esforço do pai chegou ao ridículo de garantir que o filho conhecia bem aquele país, pois já havia fritado hambúrgueres ali quando jovem, e era amigo íntimo da família Trump.

Em outro momento de notória incompetência e arriscada manobra, Eduardo Bolsonaro e o grupo mais fiel ao núcleo do governo de seu pai ensaiaram o apoio à invasão da embaixada da Venezuela em Brasília. O atentado havia sido planejado e foi executado por partidários da extrema direita exilada, em articulação com seus colaboradores no Brasil. A trapalhada ocorreu justamente no dia em que se reunia a cúpula dos BRICS na capital brasileira. A tentativa provocadora tinha por objetivo criar um constrangimento público a dirigentes da Rússia e da China, mas foi prontamente denunciada e se revelou um enorme fracasso. Como se sabe, os dois países haviam manifestado apoio a Maduro e anunciado de forma enérgica sua divergência com relação às intenções de Trump em promover a invasão da Venezuela.

Um dos mais comprometidos ministros de Bolsonaro com as causas da extrema direita era Abram Weintraub, da pasta da Educação. Ele havia sido objeto de inúmeras denúncias por aparelhamento da máquina ministerial para estimular medidas polêmicas e ilegais. Um das últimas falas deste fiel seguidor do presidente havia sido a divulgação de informações falsas e até mesmo a sugestão de prender os ministros integrantes do Supremo Tribunal Federal. A repercussão do escândalo foi muito negativa e a partir daí o clima ficou difícil para Weintraub, que certamente seria preso e processado por tal manifestção. Assim, foi montado um esquema semi-oficial para possibilitar sua fuga às pressas do Brasil para os Estados Unidos, ainda munido de seu passaporte ministerial. Na sequência, o governo solicitou o apoio de Trump para que o mesmo fosse nomeado diretor do Banco Mundial, em manobra que manchou ainda mais a já desgastada imagem da diplomacia brasileira no exterior.



Mais uma vez, Bolsonaro seguiu na trilha de Trump, menosprezando os perigos da doença desde o início. Ignorava a recomendação da Organização Mundial da Saúde para uso de máscaras de proteção e a prática de isolamento social. (Charles Deluvio)

Negacionismo e pandemia.

O governo de Bolsonaro também deixou sua marca como um agente ativo do negacionismo no plano internacional. Tendo em vista sua base política e ideológica ser muito comprometida com as correntes mais doutrinárias do pentecostalismo evangélico, não foi difícil a operação de levar à frente o questionamento de um conjunto amplo de consensos existentes no âmbito científico. Esse foi o caso dos índices de desmatamento, a evolução das temperaturas globais, os efeitos negativos dos agrotóxicos, o comprometimento das áreas de garimpo ilegal com mercúrio, dentre tantos outros. Em todos os exemplos acima mencionados, o governo brasileiro teve uma atuação visando a confundir a opinião pública e levar ao descrédito as informações e pesquisas baseadas em evidências científicas.

Com o advento da pandemia do coronavirus em 2020, as oportunidades de tal conduta negacionista foram ampliadas. Mais uma vez, Bolsonaro seguiu na trilha de Trump, menosprezando os perigos da doença desde o início. Ignorava a recomendação da Organização Mundial da Saúde para uso de máscaras de proteção e a prática de isolamento social. O presidente oferecia diariamente exemplos de como não se conduzir em público e se aventurava a questionar as orientações médicas, inclusive receitando em suas manifestações o uso de medicamentos de eficácia duvidosa. Com o avanço nas etapas das vacinas em desenvolvimento, Bolsonaro apostou todas as fichas na opção de Oxford e desqualificou publicamente as opções das vacinas chinesa e russa.

Na disputa presidencial norte-americana, a família do presidente brasileiro se envolveu diretamente na campanha de Trump e se manteve até o fim lançando as dúvidas expostas pelo candidato derrotado, que questionava a lisura do pleito sem apresentar provas de possível fraude. Até o momento em que escrevo este artigo, o governo brasileiro segue sem reconhecer o resultado e – o que é muito grave nas relações diplomáticas – sem sequer cumprimentar o presidente eleito Joe Biden.


Brasil: pária nas relações internacionais.

O corpo diplomático brasileiro é reconhecido internacionalmente por sua competência e longa tradição de qualidade de seus quadros. A existência de uma carreira própria no interior da administração pública contribui para tanto. Pois o Ministro Araújo ofereceu recentemente uma imagem que pode ser uma excelente síntese da diplomacia desse primeiro biênio do mandato de Bolsonaro. Em uma cerimônia presencial e sem os devidos cuidados relativos à pandemia, tomou posse a turma mais recente dos futuros diplomatas. Os formandos resolveram adotar como paraninfo um intelectual muito respeitado e que exerceu uma grande importância para a formação cultural brasileira. Talvez indignado com a escolha do poeta e diplomata João Cabral de Mello Neto, o chanceler exagerou na sua fala de saudação aos novos servidores. Ao denunciar e caluniar o próprio homenageado de forma oportunista e desonesta, Araújo entusiasmou-se com sua própria estratégia de isolacionismo e terminou saudando o resultado da mesma:

“Sim, o Brasil hoje fala de liberdade através do mundo. Se isso faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária” (…) é bom ser pária”.

A derrota de Trump, porém, deverá atuar como argumento para se promover eventual inflexão da diplomacia de Bolsonaro a partir de 2021. Os prejuízos que a política de agressões gratuitas à China deverão ser sentidos caso não haja uma mudança de tom e postura também nesse quesito. A vacina contra a covid 19 e os alinhamentos em relação à questão da tecnologia 5G serão testes importantes para aferir o quanto o pragmatismo vai passar a dominar também as relações externas do governo Bolsonaro.

Caso nenhuma medida de correção de rumo seja adotada, talvez o vaticínio do chanceler realmente se confirme: o Brasil pode mesmo se converter em pária internacional, graças aos equívocos perpetrados por seu governo atual.


*Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal no Brasil.

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