Bolsonaro: Vergonha Mundial.

Maria Fernanda Pissioli (Unsplash)

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A diplomacia brasileira sempre ocupou um lugar de destaque no cenário internacional. Tradicionalmente, a fala de abertura dos trabalhos da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) quase sempre coube ao representante do Brasil. Apesar de não ser uma regra escrita, foram poucas as ocasiões em que essa ordem informal de intervenção não tenha sido seguida.

Desde 2019, no entanto, mudaram bastante as expectativas dos especialistas em questões diplomáticas e geopolíticas quanto ao conteúdo de tal discurso. A partir do início do governo Bolsonaro, verificou-se a adoção de uma estratégia, por parte do Ministério das Relações Exteriores, de submissão completa aos desejos do então presidente norte-americano Donald Trump. Unidos pelos apelos genéricos do paradigma da extrema direita global, os dois chefes de Estado passaram a operar de forma articulada e concertada nos espaços da geopolítica e dos negócios globais.

A bem dizer, Bolsonaro oferecia tudo o que podia para agradar a seu homólogo, ao passo que Trump muitas vezes tratava o ex capitão de forma desrespeitosa e subalterna. A agenda conservadora os mantinha coesos desde o começo e os filhos do presidente brasileiro se aproximaram bastante da Casa Branca e do assessor Steve Bannon. A entrada em cena da pandemia da covid 19 ofereceu uma nova oportunidade para que Bolsonaro estreitasse ainda mais os seus vínculos com Trump. Isso porque o conhecido negacionismo científico de ambos se estendeu também para o tema da doença, com a adoção das tragédias reveladas como a campanha contra a vacina, a subestimação dos malefícios provocados pelo vírus e a prescrição de medicamentos tão ineficazes quanto perigosos, a exemplo da hidroxicloroquina e da ivermectina.


Bolsonaro na ONU sem Trump.

A derrota do candidato à reeleição nos Estados Unidos em novembro de 2020 poderia ser a oportunidade para uma redefinição da dinâmica da chancelaria brasileira. Como era de se esperar, as relações de Bolsonaro com Joe Biden obviamente não permitiram ao brasileiro o tipo de alinhamento anterior. Apesar da nomeação de um novo Ministro para comandar o Itamaraty, a opção escolhida pelo Palácio do Planalto foi a de reforçar a trilha iniciada anteriormente. O Brasil manteve seu discurso agressivo contra o multilateralismo e avançou a passos largos para se converter, de fato, em um pária internacional.

No plano da política interna, Bolsonaro viu-se obrigado a promover alguns recuos em seu comportamento extremista. Recompôs sua base de apoio no Congresso Nacional e entregou cargos estratégicos do primeiro escalão de seu governo para grupos políticos contra os quais havia discursado duramente até então. No começo de agosto nomeou um senador conhecido por suas práticas de clientelismo e fisiologismo para ocupar o sensível posto da Casa Civil. Preocupado com os efeitos das quase 600 mil mortes provocadas pela pandemia e pelo desastre social e econômico da recessão econômica e do desemprego, Bolsonaro ensaia uma espécie de flexibilização das regras draconianas da austeridade fiscal e isso desagrada a setores do financismo. Afinal, se ainda pretende concorrer com chances à reeleição em outubro do ano que vem, seu governo precisa ter uma política mais efetiva de despesas orçamentárias. Atualmente, Bolsonaro vem apresentando uma queda acentuada em sua popularidade e nas pesquisas de intenção de voto nunca aparece em primeiro lugar nas simulações para o pleito de 2022..

Apesar dessa aparente mudança, a essência de sua estratégia política não foi alterada. Bolsonaro mantém acesa a chama voltada aos setores mais extremados que lhe oferecem apoio político sob qualquer circunstância. Para eles, o presidente segue falando em fechar o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, ao estimular as articulações me torno de um “auto golpe” ou de medidas de endurecimento do regime para oferecer ao chefe do Executivo poderes típicos de um ditador. Assim foi, inclusive, nas manifestações organizadas por seus apoiadores no feriado de 7 de setembro, quando se comemora a independência do Brasil.


Contra a vacina e a favor da extrema direita.

Mais uma vez, nesse dia, Bolsonaro exagerou na retórica irresponsável e no incentivo à ruptura institucional, tendo recebido críticas de forma ampla e generalizada vindas de representantes de setores os mais variados. Ao perceber o isolamento em que havia se metido, apelou para a ajuda do ex presidente Temer. Ou seja, o principal, responsável pelo golpe que levou ao impeachment de Dilma Roussef em 2016, agora sai em defesa daquele que o sucedeu. Mas a carta redigida no encontro não encontrou a recepção que se imaginava. O pedido público de desculpas de Bolsonaro desagradou aos seus seguidores mais fundamentalistas e não convenceu quase ninguém a respeito de um possível recuo político. Falta crédito à sua suposta sinceridade.

A ida ao evento da ONU em Nova Iorque era vista como uma oportunidade para um possível apaziguamento também na esfera internacional. Afinal, são inúmeras as dificuldades enfrentadas pelo Brasil em diversas áreas, em função das orientações determinadas por Bolsonaro. Esse é o caso, por exemplo, do negacionismo na questão do desmatamento dos biomas nativos, do aquecimento global e da questão ambiental de forma geral. Além disso, o desrespeito do presidente e de sua equipe para com temas sensíveis como direitos humanos, inclusão social, respeito às minorias e intolerância em vários domínios são flagrantes e continuados. Finalmente, fica cada vez mais insustentável sua insistência com o negacionismo na matéria do enfrentamento da pandemia.

No entanto, o que se percebeu é que Bolsonaro segue cada vez mais sendo autenticamente Bolsonaro. Em seu breve discurso, ele voltou as menosprezar a doença e as formas de combatê-la, defendendo no plenário da ONU os tratamentos condenados pela Organização Mundial da Saúde e pelos especialistas no tema apelo mundo afora. Além disso, reafirmou sua condição de único dirigente de nação a não ter sido vacinado e se orgulhando do fato. Por outro lado, buscou apresentar para o resto do mundo um país completamente diferente do Brasil real. Para ele, não há problemas de desmatamento, os indígenas têm sido respeitados em seus direitos, a economia está sob controle, não existem casos de corrupção e seu governo conta com o apoio da maioria da população. E ponto final!


Pizza na calçada: isolamento e vergonha.

Bolsonaro ainda fez campanha contra a estratégia de vacinação e insistiu em comparecer à reunião sem ter tomado o imunizante. Foi muito criticado por tal insistência e foi flagrado comendo pizza em pé na rua, para não correr o risco de ter sua entrada barrada às portas dos restaurantes. Afinal, o próprio prefeito de Nova Iorque, Bill de Blasio, afirmou que se ele não quisesse se vacinar, nem precisaria vir à cidade.

Bolsonaro se comportou muito mais como chefe de facção do que Chefe de Estado. Usou o palanque da fala de abertura para se dirigir a seus aficionados internos e buscou se lançar como uma alternativa de liderança da extrema direita global, que está órfã desde a saída de Trump do foco dos holofotes da cena internacional. Será necessário aguardarmos um pouco mais para avaliarmos se ele logrou algum êxito em seu intento. Mas, para a maioria da população brasileira e para os principais atores do mundo, sua passagem pela Assembleia da ONU não passou de uma tremenda overdose de vergonha.


*Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.

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