Caguinchas amaleitados

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– Estou doente!

Muito doente!

Balbuciava com vozinha agonizante, fiteiro d´uma figa. Com manha de sete raposas conseguiu, consoladinho, usufruir a condição única para faltar à escola primária e lhe enxotarem pão e azeitonas do sustento diário – e é se queria! Para os remediados, a convalescença desbravava caminho a ladrilhos de marmelada e pratos de milhos. Ah… bom era estar acamado com um testo de barro quente embrulhado em papel-jornal grudado ao peito. Ou acatando na lisura da testa pequenas compressas de vinagre, contra a febrina.

– Estou doente! Vou morrer, ai, ai.

– Bô-bô?! Quem te mandou comer fruta verde? Pr´a mais, com o sol a dar-lhe pelo meio-dia? E foste logo beber água ao chafariz, ranhoso?

Os ralhos da mãe, camponesa ainda saudosa da botica do senhor Armando Saraiva, republicano e ensaiador de teatro. Homem de muito saber no preparo dos remédios oferecidos a quem não os podia pagar. Personagem digna com lenço imaculado sempre à mão para assoar a ganapada suja e descalça.

– A quem pertences?

– Aos Lombrigas, senhor Armando.

– Quantos sois, que já perdi a conta?

– Uma data deles. Fora os irmãos que morreram pechinchinhos. Mê pai diz que já espreita oitro.

Nos tugúrios de terra batida, as ralações maternas quando verrumavam nas despesas da «Pharmacia» com sarampos, tresorelhos, escarlatinas. Só respiravam de alívio quando os filhos conseguiam voltar à rua, correr e saltar, lançar o pião que já rodopiava milhares de anos antes de Cristo, montar os cavalinhos de cana ou, através da gancheta, dar a volta ao mundo no aro de uma bicicleta.

Para os pais o dinheiro das jeiras, muito minguado, muito incerto, destinava-se ao pão e ao azeite e petróleo das luminárias. Logo, como fosse a mais dolorosa das penitências, predispunham-se, em resignada candura, a sofrer de pontadas, infecções, males da coluna e da figadeira, reumático, artroses, tumores e temores. Era o destino, a vontade de Deus Nosso Senhor. Que lhes acudissem as rezas da igreja e as mezinhas da benta do monte.

De estatura meã, calcantes de verniz, orelhas de abano, o senhor Porfírio era dos poucos a exibir na aldeia as pequenas garras do suspensório – patas de cegonha, diziam os pitorras.

Movia-se entre a frascaria de muito tamanho e cintura, tampa esmerilhada. Perfilados, sorumbáticos exemplares azulados e acastanhados que infundiam apreensões à clientela. Na sala pintada de branco, o termómetro de serviço, o pesa-álcoois, as balanças de precisão, as espátulas para as pomadas, retortas, pipetas e provetas; os balões, os funis, o fio de sutura e o papel-costaneira para as mistelas.

A obra Pharmacopêa Portugueza, de 1876, refastelava-se sobre a escrivaninha com estatuto de relíquia. Almofarizes com pilão de vidro, boiões de grés e canudos e mangas de porcelana sonecavam em enormes móveis de carvalho cujo pináculo de catedral roçava o tecto estucado.



– Supositórios. Para infantil ou adulto?

– Os que fizerem melhor, senhor Porfírio. Vocemessê é que entende das ruindades do corpo. Eu nem sequer aprendi a ler e a escrever, quanto mais a lidar com a saúde. 

Com o medicamento de formato ogival na mão direita, o boticário volta-se para outra mulher, e pergunta, sorridente e divertido, sem descurar o afã:

– O respício, arriba-me ou não? – E a piscar os olhos e a ajeitar o pince-nez vendia remédios para a solitária, o Visgoan destinado a tratar da angina de peito e embrulhava, rotinado, o Pó da Viscondessa a outra velha do rebusco, lenço preto na cabeça e xaile sobre os ombros.

– O mais novo, ainda tem os dentinhos a abanar?

– Bem pouco se me dá nem arreceia, senhor Porfírio. Apoquenta-se a gente por nada. No outro dia era o intestino preguiçoso. Não estive com meias-medidas. Enfiei-lhe pelo rabistel toro de couve untado com azeite e… assunto arrumado! Tivesse mais coiro e purgava-se à força de colheradas de óleo de rícino e água de cozer gravanços. Veja lá que ainda há coisa de um mês, para o vedar, pus no bico do peito leite com colorau, depois, borra de café; mesmo assim…

– Vedar, mulher?

– Sim, desmamar.

– Não sai ao mais velho. Que terrabinto! Continua a querer enforcar nas oliveiras os cães sem faro para a caça?

– A quem o diz, senhor Porfírio. Vai ser um pilrito. Para quê gastar um ror de dinheiro com o capilé? Bô-bô! No outro Inverno tive de lhe fazer uma cama de urtigas. A pele empolou, empolou com as ervas comichonas espalhadas pela manta, mas o suadouro arrenegou o febrão, ai não! Ainda cuidei ser mau-olhado. Desatei-lhe as palavras que aprendi com a minha avó, no céu esteja.

Agora, sabe o que lhe digo, senhor Porfírio? Está tudo uma fidalguia. Havia de ser no meu tempo. Bô! Caguinchas amaleitados tinham de vingar por si, botar corpo, ajudar no mourejo dos campos, à chuva e ao torriço, merenda de côdeas e bordoada de criar bicho naqueles lombos. Assim nos criámos – que remédio! 

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