Campo de Refugiados de Nea Kavala, norte da Grécia

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São do Afeganistão, da Argélia, dos Camarões, do Curdistão, do Egito, da Eritreia, da Etiópia, do Haiti, do Iémen, das Ilhas Comores, do Irão, do Iraque, do Kuwait, do Mali, de Marrocos, da Nigéria, da Palestina, do Paquistão, da República Democrática do Congo, da Serra Leoa, da Síria, da Somália, do Sudão os mais de quatrocentos residentes (os números variam muito, devido às entradas e saídas quase permanentes) deste que é um dos mais de sessenta campos de refugiados existentes atualmente na Grécia. Estive neste Campo pela segunda vez em janeiro e continua a espantar-me como convivem tão facilmente pessoas de tantas nacionalidades, de línguas e culturas tão diversas. Já trabalhei noutros campos e cada um é uma realidade muito própria, dependendo das circunstâncias, mas há um denominador comum: foram estruturas pensadas para serem provisórias, mas albergam pessoas há meses, em alguns casos há mais de um ano, longe de tudo e de todos, para incomodarem menos.

Tal como os outros deslocados, as pessoas de Nea Kavala estão em trânsito há muito tempo, deixaram para trás países, familiares, bens, as suas vidas. Acreditaram que teriam direito a dias melhores. Não sabemos o que suportaram nos seus países ou naqueles por onde passaram, com que espécie de contrabandistas tiveram de lidar, quanto dinheiro tiveram de largar, que violências tiveram de suportar. Ou sabemos muito pouco. E o que sabemos magoa. Quando atravessaram o mar, muitas destas pessoas ficaram meses presas nas ilhas gregas, em campos sobrelotados com condições indignas mesmo para albergar animais. As que conseguiram chegar ao continente encontraram fronteiras fechadas, burocracias infindáveis que tardam em dar-lhes uma resposta. Não podem pedir recolocação em outros países, muitas não poderão sequer pedir asilo na Grécia. Não se sabe o que lhes irá acontecer. Enquanto aguardam que os seus processos se desenrolem, não podem, pelo menos legalmente, procurar trabalho. Depois de meses que se adivinham de uma grande adrenalina, a inatividade e o vazio são terríveis, potenciadores de desespero e de depressão, de revolta e de violência.

O Campo de Nea Kavala é um antigo aeroporto militar, muito perto da fronteira com a Macedónia, a cerca de uma hora de carro de Tessalónica. Numa pista de aviões muito comprida há contentores de um lado e de outro, muitos contentores, numerados. Em cada um vive uma família, ou um grupo de homens sozinhos. As casas-de-banho, os lavatórios, os duches são outros contentores, coletivos, que utilizam à vez. A maior parte destas pessoas sai pouco, os contentores pelo menos são aquecidos e cá fora têm pouco para fazer. No Campo, gerido pelo Exército, há presentemente muito poucas ONG, os financiamentos europeus praticamente terminaram. Há de momento uns dois médicos que passam lá umas horas por dia, há as voluntárias da We Are Here, que tentam maioritariamente brincar com as crianças e dar-lhes, a elas e aos adultos interessados, aulas informais de inglês e de alemão. E há A Drop in the Ocean (DiO), a organização com a qual colaborei pela quinta vez. Com a DiO estive duas vezes em Skaramangas, o maior Campo na Grécia, situado nos arredores de Atenas, e estive na ilha de Chios, no entretanto fechado Souda Camp, o pior sítio onde já estive. Comparado com os outros, Nea Kavala é um bom Campo. É limpo, não está sobrelotado, já não há tendas, não há muitas brigas.

Cada residente recebe mensalmente cerca de cem euros, um pouco menos se for uma criança. Esse dinheiro tem de dar para alimentação, vestuário, medicamentos, o que for necessário. Não dá. Ou dá mal. A DiO tenta tapar buracos fornecendo vários serviços de uma forma estruturada, todos providenciados por mãos grandes de voluntários e por verbas e bens provenientes de donativos. Acima de tudo, tenta-se contribuir para um certo espírito de comunidade, devolver algumas rotinas. Tenta-se que estas pessoas retomem alguma da dignidade que terão tido. Trocamos os números com que costumam ser tratadas pelo nome, o delas e o nosso, dizemos de onde vimos, conversamos, ajudamos no que podemos, sem privilegiar ninguém. Buscamos alguma normalidade numa situação erradamente anormal, para eles e para nós.

Em Nea Kavala, através de um esquema de horários gerados semanalmente e de uma moeda “falsa” — a Drop — os residentes podem ir “às compras”, podem escolher o que querem vestir ou calçar, mesmo se os bens forem em segunda mão, podem experimentar os tamanhos, em vez de receberem aleatoriamente roupa ou sapatos dados sem qualquer critério. Duas vezes por semana distribuímos alimentos secos e legumes, quatro vezes por semana entregamos pão à porta de cada caravana.

Temos no meio do Campo um contentor-lavandaria com seis máquinas, onde organizadamente recebemos roupa suja e a devolvemos lavada. Temos um esquema de “aluguer” de bicicletas já com mais de cem inscritos que permite aos residentes passear, ir até à vila mais próxima (que dista cinco kms), ir às compras ao hipermercado: damos aulas de código, ensinamos a equilibrar-se numa bicicleta quem não sabe, homens e mulheres. Temos máquinas de costura e ferramentas que emprestamos e contraplacado que oferecemos para que se construam peças de mobiliário para os contentores de cada um, ou para que se conserte alguma coisa. São tudo coisas tão simples, a que já não damos qualquer valor, nós, pessoas com vidas mais ou menos confortáveis, mas de uma imensa importância para pessoas de mãos vazias. Aos poucos, embora o futuro a quase todas pareça negro, algumas recuperam a auto-estima. E sorriem. E eu, que de cada vez que vou penso que estarei um pouco mais imune e preparada para o encontro com estas pessoas, emociono-me frequentemente, seja a separar vegetais, a entregar a alguém um saco de roupa a cheirar a lavado, a descobrir na Drop Shop o artigo que alguém procura, ou a ouvir a história de quem confiou em mim para ma contar.

Comecei a fazer voluntariado na Grécia junto de refugiados no verão de 2016. Nunca mais consegui parar. Tenho ido sempre através de A Drop in the Ocean, uma pequena ONG norueguesa pela qual já passaram cerca de 4500 voluntários, de mais de cinquenta países. De cada vez que vou, os colegas de trabalho são diferentes mas o entendimento é imediato, o que nos permite continuar tarefas iniciadas ou desenvolvidas por outros. O que nos move é comum: somos contra estas políticas europeias de exclusão e xenofobia e, dentro da possibilidade de cada um, fazemos questão de o demonstrar, precisamente junto das vítimas desta vergonha. Somos contra que se pague a governos duvidosos do outro lado do mar para que se retenham as pessoas. Somos contra que se deixem embarcações afundar e pessoas afogar no Mediterrâneo, no Egeu ou em qualquer outro mar. Somos contra que se criminalize quem as tenta salvar. Somos contra que, nesta Europa que deveria ser garante dos humanos direitos, se tratem pessoas pior do que animais, muitas a viver meses em tendas, sujeitas ao frio ou ao calor excessivos, afastadas do direito ao trabalho, a um teto, a uma alimentação saudável, a uma vida digna. Tantas crianças sem ir à escola, tantas vidas interrompidas.

A imprensa já pouco quer saber, os que têm poder e decidem dormem descansados e são números e não pessoas o que lhes ocupa os sonos e os sonhos. Eu tenho vergonha. Penso que poderíamos ser nós (já fomos nós) e em como apreciaríamos que alguém nos estendesse a mão, se fugíssemos deixando a vida toda para trás. É por isso que vou, sempre que posso. Não posso resolver a vida a ninguém, nem mudar o mundo, mas posso mostrar a minha solidariedade e contribuir com o meu trabalho para a construção de um mundo que deveria ser de inclusão e não de muros que cada vez se constroem mais altos.

Por Sofia Lobo

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