Ciência, verdade e debate

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Pelo costume que tinha de anotar em seus diários observações sobre seus colegas de classe, sabemos hoje que Franz Joseph Gall, desde jovem, já tinha insights do que viria a se tornar a “ciência” que contagiou o século XIX. Gall dizia observar uma bizarra coincidência. Seus colegas com olhos mais protuberantes eram também os que lhe pareciam mais intelectualmente dotados. Com essa relação entre a pouca beleza e a inteligência, Gall ajudou a fundar a frenologia.

A prática se baseava em estabelecer relações entre as formas do crânio e a personalidade. A qualidade de ser uma boa mãe ou um criminoso contumaz poderiam ser previstas, segundo os frenologistas, por depressões e protuberâncias na cabeça. É justo notar que havia quem então não acreditasse em nada disso. Mas o fato é que a frenologia foi extremamente popular no início do século XIX. Eram tempos de empolgação com as ciências. As técnicas e instrumentos de medição do crânio associadas à documentação aparentemente sistemática de estudos de caso impressionavam o público.

Dois séculos depois, nem vale mais a pena dizer que se tratava de um absurdo. Mas a atual crise sanitária deixou claro que ainda se entende muito mal o que seja ciência. Há os que fiquem em choque de acompanhar ao vivo a transitoriedade da ciência assim como há aqueles que acreditem que estudos científicos produzem verdades absolutas.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que qualquer curso introdutório de metodologia deixa claro que a prática científica implica uma constante reformulação. O desenvolvimento de teorias e hipóteses se refina ao longo do tempo por processos de observação, experimentação e pelo desenvolvimento de novas técnicas. A ciência é, por natureza (e não necessariamente por descuido), transitória. Newton sequer imaginaria a física quântica, o que não quer dizer que fosse um relapso. Ele fez o que provavelmente se poderia fazer de melhor com as técnicas e a compressão que se tinha a sua época.

Disso já fica claro que a ciência, diferentemente da religião, não produz dogmas. A mistificação ou fetichização da ciência são contra a própria natureza dessa atividade, que em suas melhores práticas, é sempre aberta ao debate e, por consequência, à reformulação. O mesmo já não se pode dizer das pseudociências, que por natureza (e necessariamente por descuido) estão sempre às portas do dogmatismo. Certamente não será de muita valia discutir com aqueles que hoje defendem que por técnicas de mentalização quântica podemos reprogramar nosso código genético, produzindo um DNA de riqueza.

Mas é preciso dizer também que a ciência, como qualquer outra atividade humana envolve contradições. Não é de hoje que sabemos que pesquisadores ou médicos, como os demais seres da nossa espécie, podem não resistir à argumentação do dinheiro. A indústria de refrigerantes, por exemplo, já foi acusada de fomentar estudos que relativizassem a importância da dieta no controle de peso. O mercado editorial científico, por sua vez, volta e meia se vê sob suspeita. Por 85 dólares, o Asian Journal of Medicine and Health publicou um estudo falso que relacionava o uso de hidroxicloroquina à redução de acidentes de patinete em Marselha.

E, antes que se pense, vale esclarecer que defender o debate na ciência não se equivale a defender o terraplanismo ou outra moda recente do obscurantismo. Trata-se justamente do contrário, pois novas frenologias estão sempre à espreita.

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