Coimbra, do Choupal…

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O Choupal não é só um ex-libris da cidade e do concelho, cantado por poetas, nem sempre decantado de impurezas e decomposições. É também um local de tradição e fruição, de encontro de pessoas, famílias e grupos de amigos em espaço aberto, de prática de atividade física e estilos de vida saudável, centro de observação de fauna, ou simplesmente área de observação da riqueza arbórea secular e lazer.

A Mata Nacional do Choupal (era predominante o choupo), com 80 hectares e mais de 2 km de extensão, foi criada por projeto do padre Estevão Cabral, em 1791, e pela necessidade de fixar os terrenos das margens do Mondego e travar as cheias através dos valeiros transversais, tendo outras espécies florestais ricas como o plátano, a nogueira-preta, o cedro dos pântanos, o amieiro, o freixo, salgueiros, o ulmeiro e o lodão.

Dividida em 3 zonas (zona nascente com a floresta viva, zona central com infra-estruturas, zona desportiva e circuito de manutenção, zona ocidental com percurso pedonal, jardim de plantas aromáticas e medicinais, borboletário, mostra de elevação de água e centro de reprodução do caimão ), tem áreas que são desconhecidas por boa parte da população e até dos visitantes do Choupal, a merecer divulgação e visita.

Não se pode ignorar que muito vai sendo feito pelo esforço do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e funcionários, em termos de higiene e limpeza do solo e caminhos, manutenção de espaços arbóreos, desmatação progressiva, reabilitação da casa da mata (em curso, por projeto de voluntariado) e outros serviços dos quais como cidadãos não nos apercebemos, mas são valiosos para a preservação da Mata do Choupal.

Mas também não podemos ignorar que as vias pedonais e mistas rodoviárias se encontram em estado decrépito (irregular e bordos indefinidos), que as placas de sinalização de vários espaços de orientação se encontram em avançada degradação (a par de bancos de jardim em ruínas), que a margem direita do Mondego não está cuidada, que o espaço confinante ao canal de rega precisa regularização, que o parque de merendas precisa reabilitação.


E ainda que as árvores, arbustos e mata cortados se encontram descuidados durante muito tempo sem ser retirados, que as pontes e outros locais de intersecção precisam de melhoramentos e embelezamento, que a identificação das espécies arbóreas está incompleta, que há animais fugitivos que provêm do canil, que há circulação de cavalos (proibida)  e dejetos em extensas zonas, que as áreas de estacionamento necessitam de regularização, que não existe atividade cultural seletiva e adequada ao espaço.

E há também, reconheça-se, necessidade que o civismo impere, com a recolha de dejetos caninos (pelos proprietários), com o cumprimento da lei passeando os cães atrelados e não vagueando (levando a agressões a humanos, como já aconteceu e foi público), com o respeito entre ciclistas e peões (não amplificando o seu espaço de utilização), com a colocação de produtos de consumo e higiene nos contentores adequados (que devem estar disponíveis), com a delapidação de árvores e até roubos (bambus).

Em 2009, o candidato do PS à Câmara Municipal de Coimbra defendia a construção de um viaduto sobre a Mata Nacional do Choupal, previsto no traçado do novo IC2…

Em 2013, o candidato do PSD à CMC, defendia que o rio Mondego devia ser a “espinha dorsal” da cidade e elegia o investimento na mata do Choupal como prioridade, referindo já ter negociado com o Governo a possibilidade de colaborar na gestão daquele espaço…

A CMC socialista, já em 2015 (Governo PSD), protestava pela inoperância política e administrativa quanto ao Choupal, que tinha 16 entidades na sua gestão (defendida pelo PSD como gestão partilhada), assumindo o presidente Manuel Machado (PS) a vontade de ficar com a gestão da mata, entregue na totalidade e em bom estado de conservação, sendo a partilha da gestão um obstáculo para a dinamização do espaço e a sua conservação.

Nos planos não concretizados, havia a criação de um núcleo museológico e uma oficina de trabalhos em madeira, e já em 2010 (XVIII Governo Constitucional de Portugal), houve um projeto para o Choupal (não executado),  orçado em 820.000 euros, que englobava melhoria do percurso temático “floresta viva” e do circuito temático “vida aquática”, borboletário, centro de acolhimento, consolidação do polo desportivo, construção de um campo de minigolfe com 18 buracos, criação de um circuito equestre, construção de um anfiteatro ao ar livre, construção de um parque infantil temático, criação de espaços de contemplação, criação de estrutura e serviços programados (segurança, iluminação, sinalética, primeiros socorros e saneamento básico), além da oficina ambiental já citada.


Em 2019, os Cidadãos por Coimbra, visitaram o Choupal com o ICNF, dispondo-se a desenvolver informação e apoio a iniciativas cidadãs para recuperação da Mata.

A 09.12.19, a Câmara Municipal de Coimbra aprovou (por unanimidade), bem como a Assembleia Municipal, por deliberação de 27.12.19, a delimitação de uma nova área de reabilitação urbana (ARU), designada ARU Coimbra Santa Clara, na frente ribeirinha da margem sul do Mondego, entre o Choupal e a Lapa, dando continuidade às áreas já aprovadas e em vigor (Coimbra Alta, Coimbra Baixa e Coimbra Rio), e coincidindo com a zona especial de proteção da área classificada como Património Mundial da UNESCO.

As ARU, usufruindo de oportunidades de financiamento, são áreas territorialmente delimitadas que, em virtude da insuficiência, degradação ou obsolescência dos edifícios, das infraestruturas urbanas, dos equipamentos ou dos espaços urbanos e verdes de utilização coletiva, justificam uma intervenção integrada, de modo a assegurar a salvaguarda do património edificado e o desenvolvimento sustentável.

Em 08.05.20, a CDU, em visita ao Choupal, zona emblemática da cidade, denunciava o abandono e poluição a que estava votado.

Em 21.08.20, na Proposta da Comissão Política Concelhia de Coimbra do Partido Socialista para a Visão Estratégica 2020-2030, destinada ao Plano de Recuperação Económica de Portugal, do Governo Português, defende-se a requalificação da Mata Nacional do Choupal e revisão do seu modelo de gestão.

O que inclui a regularização dos terrenos, sinalização adequada e atualizada da riqueza arbórea, pedonal e cicloturismo, áreas pedagógicas para a juventude e para a terceira e quarta idade, criação de novos espaços lúdicos e de atividade física com circuitos de manutenção, aproveitamento da ligação Mata/Rio Mondego, permitindo a rentabilização da mobilização dos milhares de utilizadores diariamente.

Cumprindo-se o exposto, o Choupal, um verdadeiro “pulmão” da cidade, pode ser o local de excelência para a promoção da saúde de Coimbra e  a continuidade em qualidade de vida do investimento feito e em  curso nas margens do Mondego e no próprio rio que todos cantamos, desde o Parque Verde, ao parque Manuel Braga, à área (direita e esquerda) entre a Ponte de Santa Clara e a Ponte Açude, ao Choupalinho e Praça da Canção.

Em Coimbra, para Coimbra, por Coimbra, para valorizar Coimbra, tudo é difícil. Lisboa e Porto não esperam 10 anos por uma infraestrutura ou bem necessário, disse um governante nacional.

Falem agora (de novo), mas faça-se, para que um dia (próximo), Coimbra seja do Choupal até à Lapa, não só apenas na canção coimbrã. Se toda a gente assim quiser, decisores, forças políticas e população.


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