Companhia de teatro das Caldas da Rainha vai ter sede própria

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Construção do edifício do Teatro da Rainha deve começar em agosto ou setembro. Conta com financiamento da autarquia local, no valor de dois milhões de euros.

Durante mais de dez anos a Companhia tentou obter a comparticipação da União Europeia, através de fundos comunitários, ou o apoio do Governo, sem sucesso. O diretor artístico do Teatro da Rainha e encenador, Fernando Mora Ramos, classifica a investida como “absolutamente frustrante”. Segundo o presidente do município, Tinta Ferreira, o investimento fica “bastante acima das expectativas” do seu executivo. No entanto, para o autarca trata-se de um equipamento “importante para a política cultural do país e da região”.

A falta de apoios nacionais e comunitários levou o arquiteto Nuno Ribeiro Lopes a criar um novo projeto, com custos e dimensões mais reduzidas. De acordo com o autor da obra, passar para um segundo plano levou a “um exercício de projetação muito comprimido, muito atento”. O objetivo foi, sobretudo, continuar a ter um equipamento versátil, capaz de responder às necessidades dos artistas e ao tipo de encenações que pretendem desenvolver. “O principal desafio foi tentar meter tudo naquela caixa de sapatos”, refere o arquiteto.

Para Ribeiro Lopes o edifício “possibilita tudo”. O palco e a plateia podem ser posicionados de forma tradicional, mas também é possível criar muitas outras disposições. Inclusive, “o próprio palco pode abrir-se sobre o jardim”, salienta o arquiteto. A sede vai localizar-se na Praça da Universidade, uma zona central da cidade, onde atualmente há um parque de estacionamento pouco utilizado. O sítio permite, segundo o autor do projeto, “ir buscar a cidade antiga, se calhar a gente mais pobre” e estabelecer uma “ligação entre comunidades”.

O edifício não reflete em nada as preocupações estéticas ou artifícios de um teatro à italiana, nem pretende fazê-lo. É precisamente aí que está a sua beleza. Estamos perante um projeto que pretende ser simples, mas é muito complexo e que vai oferecer aos seus espectadores experiências únicas. Os limites que se impõem às configurações possíveis para as encenações, são os da imaginação. Fica, ainda, a expectativa de que cada espetáculo que aqui tenha lugar seja tão único como o que o inaugurar.

A assinatura do contrato da obra deveria ter decorrido no dia 16 de dezembro. No entanto, a CIP — Construção SA, a única empresa que tinha participado no concurso, com a apresentação de uma proposta de cerca de 1,73 milhões de euros, não entregou todos os papéis necessários a tempo. Entretanto, a autarquia decidiu lançar um novo concurso, que deverá estar concluído no verão, ao mesmo tempo que aumentou o valor do financiamento para perto dos 2 milhões de euros. O presidente da autarquia caldense assegura que o incidente não foi mais do que “um contratempo”, que “não fará com que o município desista de fazer a obra”.

Uma Companhia com história

O Teatro da Rainha tem 33 anos e é a única companhia profissional de teatro que se localiza entre Lisboa e Coimbra. Desde 2002, ocupa parte das instalações da Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste. O pequeno espaço improvisado, como o foram muitos outros que o grupo ocupou, é evidentemente insuficiente para permitir à companhia crescer. Ao visitar o espaço fica-se um pouco com a sensação de entrar na casa de um adulto que vive com os pais, apesar de o local ser suficiente para responder às necessidades da companhia, não lhe permite ir mais além.

Fundada em 1985, a associação conta com presenças internacionais, nomeadamente no Festival da União dos Teatros da Europa, em 2008. Entre 1990 e 2000 o grupo passou por cidades como Coimbra, Lisboa, Porto, Guarda ou Évora. Fernando Mora Ramos descreve o grupo como “uma espécie de vadios organizados”. Os artistas dedicam-se ao teatro de repertório, com enfoque em temas contemporâneos, mas debruçam-se também sobre os clássicos. Começou por ocupar durante alguns anos a Casa da Cultura caldense, que antes do 25 de abril foi um Casino. Nas Caldas da Rainha trabalharam, ainda, em sítios como o sótão da antiga lavandaria do Hospital Termal e fizeram encenações ao ar livre.

O diretor artístico da Companhia espera que a construção do equipamento cultural permita “uma intensidade redobrada” da atividade da associação e que, por outro lado, possa consolidar “o projeto de criação de um curso de formação profissional”, que já começou a ser desenvolvido. Por sua vez, Tinta Ferreira revela estar “entusiasmado” com a obra e acredita que “os caldenses quando a virem concretizada e concluída, ficarão também entusiasmados e orgulhosos da mesma”.

A associação teatral insere-se numa cidade que tem uma tradição artística enraizada, onde tradicionais figuras de cerâmica enfeitam as ruas, e que conta com equipamentos culturais como um Centro de Artes, um Centro Cultural e de Congressos ou a Escola Superior de Artes e Design. O novo espaço vem destacar e acrescentar ainda mais valor à região, que se reafirma como pólo artístico e, por outro lado, desafia a centralização da cultura.

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