Contas de outro rosário

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Jóia de coleção, herança de família ou arma de fé, o terço foi outrora objeto de valor, e a crescente procura fez crescer também a produção industrial. A manufatura perdeu terreno e cai, pouco a pouco, no esquecimento, por não ser transmitida às gerações mais jovens.

O arame vem enrolado numa espiral perfeita e as pequenas contas já deslizam por ele. O processo parece bastante fácil ao ser dito: conta, torce, corta, encaixa, conta, torce, corta, encaixa. As mãos que habilmente torcem o alicate levam na pele o passar dos anos, e nos dedos os calos de repetir o ritual por horas, dias, meses e anos a fio.

Belmira Gonçalves tem 71 anos e há mais de 60 que faz terços. As voltas da vida levaram-na o emigrar para França, à semelhança de tantos outros da sua aldeia, e trouxeram-lhe um casamento, filhos e netos, e muitos anos dedicados ao trabalhar da terra. «Não fiz terços a vida toda porque depois casei e trabalhávamos muito na agricultura, porque o meu pai tinha muitos terrenos», conta a senhora. No “antigamente”, lembra Belmira, a escola era ou só de manhã, ou só de tarde, e os (muitos) filhos das mães que ficavam em casa, regressavam das aulas para encontrar o encadeamento de contas como tarefa diária. Hoje, Belmira tem dois filhos e quatro netas, dos quais nenhum sabe fazer terços. Carolina, a neta mais velha de Belmira, está a concluir a licenciatura em Bioengenharia, e embora enquanto criança ajudasse a avó a enfiar as contas no arames, confessa que nunca lhe pareceu uma atividade cativante. «Tenho pena de não saber fazer, mas das poucas vezes que tentei, não correu muito bem» conta a jovem que, ainda assim, acha ser importante preservar a tradição. «Era importante eles fazerem, pois era» diz a avó Belmira, «mas é complicado porque é com arame, tem que se enfiar as contas, tem que se cortar com o alicate e tudo é manual; a minha Camila tem 7 anos e diz “Oh avó deixa-me que eu também quero fazer”» conta e acrescenta «Eles vêem como se faz e até gostavam, mas não sabem, fazem um bocadinho». Carolina reforça que, tanto ela como a irmã e as primas ambicionam prosseguir estudos no Ensino Superior e construir carreiras distantes – quer da pequena aldeia onde cresceram, quer da atividade de pequeno artesanato.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades – é um ditado muito antigo, mas muito atual e os descendentes de Belmira não são caso isolado. Um pequeno ganha-pão que há anos virou passatempo não está no topo da lista de interesses das gerações mais jovens. Apenas quem tem muita vontade de aprender e tempo para dedicar a esta forma de artesanato o faz, muitas vezes como um entretém e uma pequena fonte de rendimento extra.

Aos 35 anos começou a aprender a fazer terços, mas só aos 42 começou a lucrar com a atividade. Adélia Silva concilia a manufatura de dezenas – um mistério do terço, compostas por dez avé-marias e um pai-nosso – com outra profissão, e diz não conhecer muita gente da sua idade a partilhar deste passatempo. “Quem faz os terços são sobretudo mulheres, entre os 60 e os 70 anos, e que fazem isto em casa. Da minha idade, são poucos a fazer, e fazem-no por conta própria, mas a um ritmo mais lento. Ainda assim, há mais gente a fazer pulseiras do que terços porque é mais fácil – tanto aprender como fazer – é mais rápido e acaba por render a mesma quantia em relação à dúzia”. Apesar de ser um lazer de fim de semana e de final de dia, Adélia acredita ser uma «ocupação muito importante para as pessoas mais idosas, que acabam por se distrair e ao mesmo tempo obter um pequeno rendimento» e acrescenta ainda ser uma tradição a preservar.

«Em vez de fazer renda, a gente fazemos os terços. Junto-me com a minha irmã que vem aqui para ao pé de mim e ficamos assim juntas a fazer os terços. Há pessoas que fazem o dia todo e até que estão na fábrica a fazer só que a gente faz assim. Os senhores trazem-nos as contas e o arame, e com um alicate fazemos os terços grandes, e os pequenos, e de missangas, e tudo, e depois dão-nos um X por cada dúzia». Belmira Gonçalves

Embrulhada numa écharpe, Maria da Glória repete o mesmo processo feito por Belmira, mas com contas grossas e luminosas, pequenos paralelepípedos de um plástico que parece cera, com o busto de Cristo em relevo. Quando questionada há quanto tempo faz terços, Maria arregala os olhos «Eu?! Sei lá! Há mais de dez anos para outro patrão. Quando o meu marido era vivo só trabalhávamos por conta própria. Eu como gosto de estar entretida a fazer alguma coisa, pediu-me o senhor Timóteo se queria eu fazer terços para ele. Houve mais pessoas que me perguntaram se eu queria continuar a trabalhar com os terços, mas nem todos os patrões me agradaram. Esse senhor veio ter comigo, mas eu disse-lhe que ele estava a pagar demasiado barato, quarenta cêntimos ou o que era. E eu falei-he de outras pessoas que pagavam a cinquenta cêntimos e nem é nada, mas pronto, disse-lhe que só faria o trabalho se ele pagasse isso e que, se não, eu ia trabalhar para essas outras pessoas. E ele aceitou e disse que gostava do meu trabalho e que era muito bem feito.»

Irónico como as contas largas e grandes do terço que Maria da Glória compõe fazem parecer tão pequenas as suas mãos trémulas, acusando já o cansaço e o peso da idade. «Ontem fiz uns cinco terços, mas eu já não tenho muita prática, também há dias em que não estou e perco a paciência”. À semelhança da família de Belmira, também os filhos e netos da Maria não sabem fazer terços. “E só não sabem porque não querem: uns saíram da escola, outros começaram a namorar, outros querem ir para a universidade e é assim” revela, sorrindo.


O sorriso e a boa disposição sobem aos olhos de Maria dos Anjos Pereira Santos, comadre de Maria da Glória, ao falar sobre o entreter do seu dia a dia. «Olhe menina eu faço terços para aí desde os 7 anos: primeiro fazia com a minha família em casa e depois comecei a trabalhar para uma fábrica e é para eles que trabalho há mais de 50 anos». A vida foi madrasta com Maria dos Anjos: há 37 anos, o filho sofreu um grave acidente de mota, que o deixou completamente dependente de terceiros para viver e acabou por falecer em outubro do ano passado. Durante todo esse tempo, Maria continuou a trabalhar a partir de casa, para poder ficar junto do filho e contou com a ajuda de familiares, vizinhos e amigos para poder continuar o afazer que tanto gosta. «A filha da minha cunhada também trabalha para esta fábrica há 40 e poucos anos e trazia-me as continhas aqui e depois levava então quando já estava tudo feito e depois para pagar vem cá uma rapariguinha pagar à gente», conta alegremente.

«Aqui na terra, e por aí além, as velhinhas todas fazem terços e alguns maridos também – agora como somos velhos e não fazemos nada, podemo-nos entreter com isto! Ao menos estamos aqui entretidas, eu estou aqui sozinha em casa, de noite e dia, de noite e de dia, e assim estou mais a pensar, e com aquilo estamos entretidas.» Maria dos Anjos Pereira Santos

Sobre quem faz os terços, a resposta é sempre a mesma: «É tudo gente velha que faz isto. Não conheço ninguém novo que faça. A malta mais nova não aprende porque anda tudo a estudar; vão estudar, vão para outras coisas, já não querem saber disto. O meu filho até sabe, mas não faz», diz Maria, que acha que fazer terços é bastante fácil e «não tem nada que saber!» defende rindo. «Cansa a vista, cansa as mãos e às vezes dói as costas por estarmos sempre assim curvados. Para fazer o terço é preciso ver bem e os alicates também têm de ser bons, se não fica tudo mal apertado, mas não é nenhum bicho de sete cabeças!» diz a rir. A preocupação com o fim deste trabalho na sua forma manual também é notável na senhora, que confessa já ter feito ao longo da sua vida vários milhares de terços. «Eu se estivesse assim um dia inteiro a encadear de manhã à noite eu fazia para aí 5 dúzias de cada dia e por isso, lá na fábrica, quando precisam de uma encomenda assim grande para o dia seguinte, pedem-me a mim», revelou. Tendo como matéria prima a madeira, o vidro ou um acrílico que lembra cristal, é com muita habilidade que Maria dos Anjos vai encadeando as contas ao mesmo tempo que torce o arame com o alicate.

Maria diz ser muito importante que as gerações mais jovens aprendam esta tradição local e, com alguma tristeza, afirma ter pena os novos não aprendam. «Sabe filha, é que de hoje para amanhã, nós já não podemos e depois não há quem os faça e depois mandam vir daqueles feitos na China, todos partidos e estragados», diz a senhora. Ainda assim, Maria dos Anjos conta, com muita alegria e brilho no olhar, histórias de conhecidos que vão lutando e caminhando pouco a pouco para aprender a fazer terços. «A minha sobrinha tem 49 anos e ainda não aprendeu a fazê-los, mas depois tenho uma vizinha de Lisboa que nunca os tinha feito a vida toda dela e já aprendeu a fazê-los!» revelou Maria com entusiasmo.

Maria dos Anjos conta uma história

Mas o possível fim de uma tradição quase centenária não preocupa apenas os anciãos que a construíram. Telma Henriques é sócia-gerente da FarPortugal e a terceira geração de uma das maiores fábricas de terços do concelho de Ourém. O seu avô, presente nas Aparições de Fátima em outubro de 1917, fundou o que se assemelhava a uma cooperativa na aldeia do Sobral, algum tempo depois das Aparições, porque «quem visitava a Cova da Iria queria sempre sempre levar um pouquinho dali – mais não fosse a terra do chão onde estavam», explica Telma emocionada. Nessa cooperativa, grande parte das famílias residentes no Sobral faziam terços, de todas as cores e feitios e de diversos materiais. Dessas famílias, houve quem mais tarde constituísse negócio próprio. «Chegavam a ir ao Alentejo buscar cortiça que depois cortavam com cuidado para fazer contas, maiores e mais pequenas, e faziam os terços assim» contou a jovem. Em 1971, esta cooperativa dissolveu-se, dando origem a 3 diferentes empresas, no Sobral e arredores.

«Aqui no Sobral, há muitos anos, era muito muito importante e toda a gente fazia, eram autênticas fábricas de vender e exportar e agora ainda é muito importante que se façam terços e mais importante é que é preciso rezar!» Maria da Glória

Na cooperativa original, havia 31 sócios cujas famílias – incluindo homens, mulheres e crianças, desde a mais tenra idade até à velhice – sabiam fazer terços por ser, à época, uma tarefa «fácil e rentável, e um ganha-pão para todos», conta Telma, que esclarece melhor como era a rotina do “antigamente”: «As mulheres eram domésticas e juntavam-se nas casas de umas e outras na hora da sesta – que hoje infelizmente já não existe (risos) – e os seus filhos e filhas iam ter com elas depois da escola, fazer os deveres e ajudar as suas mães». 

O hábito enraizou-se na aldeia, a procura aumentou e surgiram novos materiais para fazer contas e até há cerca de dez anos atrás, antes da crise económica, os terços – de 5 mistérios, cada um composto por 10 avé-marias e 1 pai nosso, rematado com mais 3 avé-marias e uma cruz – eram vistos como uma jóia, uma relíquia preservada, às vezes, para ser passada para gerações futuras, mesmo que não tivesse muito valor monetário. Telma revela que “em algumas famílias, os filhos, netos, bisnetos, guardavam o terço da avó numa caixinha bonita por ter significado, por ter sido rezado pelas mãos da senhora, mesmo que fosse um tercinho de madeira já partido, mas isso era antigamente”.


Também por essa altura, assim como aumentou a procura, aumentou também a concorrência. A China é hoje o maior concorrente na produção e venda de terços, por fabricar peças de forma industrial e com mão de obra barata, permitindo vender cada dúzia a um preço muito mais acessível. Se antes a FarPortugal mantinha cerca de 80 pessoas a encadear terços nas suas casas, hoje não são mais de 15 as que o fazem, em regime de exclusividade para a empresa. «Os mais novos, gente da casa dos 30, quando ficam desempregados ou quando trabalham a part-time, procuram aprender a fazer, mas é preciso fazer muitas dúzias e isso é difícil, por serem mais lentos a fazer os terços, por não terem muita prática. Até podem ainda recorda algo do que as mães lhes ensinaram, mas sem treino e sem ritmo de mão, não conseguem rentabilizar o tempo”.

Ainda assim, a Telma apraz-lhe saber que continua a haver quem tem arte e manha para fazer terços à mão: «Nós compramos o material, sejam contas de madeira ou de plástico ou de cristal ou de qualquer outra matéria e levamos às pessoas para que encadeiem os terços nas suas casas». Para além destas pessoas mais idosas, há ainda trabalhadores que fazem este trabalho em ponto menor, fazendo apenas as dezenas na própria fábrica. «Depois personalizamos os terços na fábrica, dependendo para que santuário são feitos» explica Telma. Com 80% de vendas feito em exportações, A FarPortugal comercializa terços para o mundo inteiro e para vários santuários, na Austrália, em França e ainda para a América Latina.


Mas e os meninos e as meninas, e toda aquela gente que de alicate em punho encadeavam conta, arame, conta, arame até o sol se pôr e se acenderem as candeias de azeite? O tempo passou e esses meninos e meninas são hoje a geração que tem 30 e poucos anos e da qual poucas pessoas continuam a tarefa extra-curricular que tinham enquanto crianças.

A pergunta que se impõe é clara e sucinta: e quando já ninguém souber fazer terços? Das respostas das artesãs entrevistadas, as soluções passavam por workshops, por atividades nos lares onde ainda existem pessoas a saber fazer os terços ou até por exposições organizadas pelos responsáveis do município. Dessas respostas, destaco a de Maria da Glória: “Se um dia já ninguém souber fazer terços, e eu não tiver nenhum pra eu agarrar, rezo pelos dedos, menina, todos os dias, até que eles me caiam”. 

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