3 min read

Abro o espaço que aqui irei manter. O título que passa a identificá-lo sempre, «A Vida dos Outros», invoca de forma explícita o filme homónimo de Florian von Donnersmark, estreado em 2006. Nele se narra a atividade de Gerd Wiesler, um capitão da Stasi, a polícia política da antiga República Democrática Alemã, que tinha como tarefa controlar o sistema de escutas instalado nas residências de intelectuais suspeitos de não simpatizarem com o regime de partido único que ruiria com a queda do Muro de Berlim. No centro do drama encontra-se a comovente relação construída entre o solitário Wiesler com Georg Dreyman, um dramaturgo de alguma notoriedade: de tanto e tão continuadamente observar a vida, as conversas, os projetos, os problemas de Dreyman e da sua mulher, foi desenvolvendo uma relação de empatia que o fez passar da condição de seu inimigo à de cúmplice. Ao ponto de, no termo da história, arriscar a carreira e a própria pele para salvar da prisão o seu antigo alvo.

Olhar os outros, e olhar a sua vida, se o não fizermos de uma forma mecânica e acrítica, mas com a inteligência e a acuidade de que o ser humano é capaz, implica uma relação que afeta ambos os lados. Por um lado, amplia as formas de observação e de reconhecimento pessoal da diversidade do mundo, que estamos destinados a pensar e comunicar aos outros se não aceitarmos ser meros peões de um jogo que nos escapa. Por outro, oferece-nos a possibilidade de conhecer mais, de enriquecer a nossa compreensão e a nossa vida na exata medida em que somos também, somos sempre, aquilo que os outros fazem de nós. Este é o destino de quem ocupa parte da sua vida a tentar compreender a realidade, a passada e a presente, e, ao mesmo tempo, a procurar partilhar essa perceção com os outros. Com aqueles com quem se cruza e com quem comunica através da palavra, oral ou escrita, ou então da imagem. Conto fazê-lo também neste lugar.

Aqui irei deixando então textos de opinião, apontamentos de natureza histórica ou filosófica, crítica ou evocação de livros e de autores de ficção e não-ficção, reflexões de natureza plástica e imagética, notas sobre cinema, televisão e música, mais ocasionalmente alguns artigos que correspondem a observações pessoais do mundo que se justifique partilhar com quem por este espaço for passando de um modo regular ou ocasional. Misturando sempre a objetividade possível, retirada da leitura do universo em redor, com a subjetividade indispensável, própria de toda a leitura livre e individual. Aliás, como acontecia com Hunter S. Thompson, o jornalista e escritor norte-americano que desconfiava do «jornalismo objetivo» — aquele que, fazendo de conta que apenas descrevia a realidade, pactuava com todas as injustiças por não exercer o seu dever de crítica –, sou incapaz de conceber um e outro dos dois processos como permanecendo distintos. Por isso, aqui irei olhando a vida dos outros, confundindo-a ao mesmo tempo com a minha.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *