Da relevância de falar ao direito a ser escutado

Créditos: Anna Velichko

4 min read

Ao contrário do que entende o senso comum, o sentido de responsabilidade não impõe a moderação, a contenção e o silêncio. Seria assim se o isolássemos como uma escolha pessoal fatalmente associada ao calculismo ou ao medo. «Responsável» seria então aquele que não se intromete, que se cala, mesmo perante as maiores iniquidades, ou então que apenas fala pelo seguro, medindo sempre todos os prós e todos os contras, por isso tantas vezes acabando por jamais se pronunciar. Todos conhecemos pessoas assim, pois elas estão em todo o lado. Desta «responsabilidade», ao mesmo tempo egoísta e complacente, vivem afinal as ditaduras e todos os sistemas iníquos, mesmo quando formalmente democráticos, apoiados na certeza de que a sua observância será suficiente para que a injustiça, o mau governo e a agressão ao bem comum fiquem inquestionáveis e impunes.

Quem tenha a memória do Portugal amordaçado que acabou com o 25 de Abril, sabe como a «boca fechada» era ensinada desde a escola, era incluída na educação religiosa, era imposta nas empresas e organismos públicos, muitas vezes treinada na vida comunitária e dentro da própria família. E isso foi feito de uma forma tão consistente e prolongada que, quase cinco décadas depois, o seu rastro se pode detetar no défice de opinião e no temor do debate com o qual ainda deparamos nas mais diversas áreas e ambientes, inclusive naqueles que, pela sua relação com o universo da informação e do conhecimento, teriam o dever de rasgar horizontes sempre que necessário.

Todavia, o sentido da responsabilidade passa a ser algo bem diverso se em vez de ser medido na lógica do interesse pessoal, tiver uma dimensão coletiva, relacionada com forma como se partilha um destino comum. O filósofo alemão Hans Jonas falava de necessidade de rever o conceito, desligando-o de vez das escolhas individuais para o aproximar do compromisso perante a sociedade. Este segundo sentido é bastante enfatizado em O Peso da Responsabilidade, um livro notável, publicado em 1998, no qual o historiador Tony Judt aborda com grande detalhe os percursos de Léon Blum, Albert Camus e Raymond Aron, três intelectuais comprometidos muitíssimo influentes no seu tempo e que são decisivos para entendermos os combates pela liberdade e pelo direito à diferença de opinião que foram travados no século XX.

Aron, Blum, Camus

Judt mostra que o que verdadeiramente aproximou as personalidades e os percursos destes três franceses, de diferentes gerações e distintas escolhas, fazendo deles figuras singulares, foi o sentido exigente, que partilharam, de uma responsabilidade pessoal dotada de um duplo significado.

O «peso da responsabilidade» impõe, pois, contra o silêncio desprezível dos cobardes, a relevância de falar. Sem ela, aliás, jamais existiria esse democrático direito a ser escutado que os ditadores odeiam.

De um lado, vinculada a quem observa o mundo com os olhos abertos e de um modo fundamentado, liberto dos pesados filtros impostos pelas categorias ideológicas e pelos imperativos da política abordada no curto prazo. Do outro, associada a quem, agindo, escrevendo e falando em função das suas próprias convicções, obtidas através da reflexão e da crítica, as assume de forma pública e corajosa como parte de uma missão cívica que os expõe como cidadãos. Ainda que isso lhes pudesse trazer, como de facto aconteceu e sempre acontece nestas situações, incompreensões e animosidades várias, inclusive dentro do seu próprio campo de pensamento e ação.

Pode daqui concluir-se que, na sua aceção social, a responsabilidade torna-se alimento da democracia e do combate ininterrupto por uma sociedade melhor porque mais livre e transparente. Ao contrário daquela responsabilidade egoísta, pautada pela mesquinhez, a pública determina escolhas com um sentido altruísta, voltado para uma vida partilhada e que a todos diz respeito. Não importa se essas escolhas são justas, definitivas ou sequer aceitáveis – sabemos que em sociedades marcadas pela diversidade nunca o são inteiramente, para todos e para sempre –, mas mesmo quando são contestáveis revelam-se absolutamente necessárias ao combate por sociedades livres, progressistas e cada vez menos imperfeitas. O «peso da responsabilidade» impõe, pois, contra o silêncio desprezível dos cobardes, a relevância de falar. Sem ela, aliás, jamais existiria esse democrático direito a ser escutado que os ditadores odeiam.

2 thoughts on “Da relevância de falar ao direito a ser escutado

  1. Obrigado por esta magnífica reflexão sobre a responsabilidade coletiva que é, por ação ou omissão, um fator decisivo para a intervenção em sociedade.

    Os exemplos de “intelectuais comprometidos” que Rui Bebiano apresentou foram bem escolhidos, pela intensidade e qualidade da intervenção e pela coragem, desprendimento e liberdade, que ora proporcionavam saídas ecléticas para os grandes problemas ou fugas de dissensão, frequentemente duras.

    Mas havia debate vivo, o que hoje rareia, abafado por vários vários poderes, que abusam da normatividade que deveria ser exceção e da fragilidade da condição humana, limitada pela falta de opções reais. Semi-escrava, portanto. Principalmente os jovens.

    Qual a razão por que Rui Bebiano reflete sobre a responsabilidade coletiva (ou a falta dela), aqui e agora?

    Reflexos da crise sanitária sem precedentes, que subalterniza outras realidades e quase impõe o unanimismo asséptico? Um movimento reflexo da sociedade, que tenta proteger-se do autoritarismo que percorre a Europa, para não falar no mundo, promovendo o menos-mau invasivo, homogéneo e castrador?

    O artigo é tão bom que seria óptimo que Rui Bebiano o prolongasse um pouco, falando sobre isto.

    Vejo muito o nosso sinalAberto como uma voz incómoda de resistência livre. E publicamente responsável, no todo e em todas as partes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *