Desertificação, Bla, Bla, Bla

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Desvairados com a fórmula de rechaçar a peçonha, volta e meia têm andado doutos especialistas de sobrolho franzido face à novidade que lhes escorrega da verve como sabonete na banheira: A descoberta de que o interior do País se encontra praticamente sem vivalma. Excelente tema de congresso, jornadas, debate, de ribalta mediática, propício a inéditas expressões, vulgo, interioridade, acessibilidades, assimetrias, ostracismo, resiliência e quejandas palavras de merda amarela.

A explicação: Pela calada da noite, quando os lobos uivam, servindo-se de azeite fino, sal virgem, penas de pita preta e murmuradeira apropriada, a bentinha da ladeira fez sumir o aldeão enquanto o demo cornudo e rabudo esfregava o olho traseiro. Enganado andei eu ao supor que primeiro se deu o adeus aos pátrios montes, quantas e quantas vezes para todo o sempre e, em muitas “ilhas” de desamores, o medrar da tosse coqueluche da pequenada.

Com o porão do North King atulhado de baús, para o Brasil, cuidei um dia, rumaram outros patrícios a garimpar patacas, sertão e sinhãzinha de cravo e canela, amô, amô de minha vida. Cartas de chamada e mais tarde a África lusófona por destino, campa rasa de meu avô materno, na casa dos trinta anos. De longe, muito longe, portanto, o ímpeto da debandada, a forçosa transumância. Já em 1462 – vejam lá! – alertavam para a desertificação do reino, sendo por isso oportuno recordar o poeta Sá de Miranda:

                                                   Não me temo de Castela,
                                                   donde inda guerra não soa;
                                                   mas temo-me de Lisboa,
                                                   que ao cheiro desta canela
                                                  o reino nos despovoa.

O ser rural de chapéu na mão desesperado pela falta de trabalho estável e digno, assistência médica e social, angustiado só de pensar na falta de pão para a mesa, por muito que escarafunchasse o solo. Então, há que despedir-se das jeiras miseráveis, do sachar de sol a sol, da míngua de água no poço, da cama de urtigas contra febrões, da luz mortiça da candeia, do casebre de telha vã ou telha de canudo.

Década de sessenta e imaginei em delírio, porventura delirium-trements, Franças e Araganças na linha do horizonte. Almendra da minha infância a esvair-se de homens de enxada aos ombros, ficando apenas velhos, crianços e taleigadas de esperança. Haveria ainda de inventar encontros clandestinos com passadores, partidas sofridas, choradas, de um povo engenhoso e artífice, feitio para o desenrasque. Porque se impunha transpor medos atávicos, Pirinéus e tibiezas, dei comigo a criar “O Salto” pela mais velha fronteira europeia. Modo de se esconjurar definhamentos, destinos fatídicos, vindimas de ilusões.

Já numa fase de acentuada loucura toca de fantasiar malas de cartão, o bidonville de Champigny-sur-Marne, com quinze mil emigrantes e o de Saint-Denis, com setecentas famílias portuguesas. Ah, as cartas que minha mãe lia e escrevia à vizinhança analfabeta com homem na estranja, suavizando medos e agruras a tinta permanente e letrinha arredondada. Decididamente, a transformação dos camponeses em operários. A troca do arado pela chave-de-fenda.

Muito mais tarde, “vacanças” de Agosto, o Sud Expresso à pinha com patas de frango e garrafões de vinho pelo farnelar. Seguir-se-ia morte na estrada, buzinadelas de espadões com matrícula estrangeira, dinheiro a rodos, vivenda cravejada de azulejos – faiscante arco do triunfo. O emigrante ventrudo ao estilo volframista eleito para mordomo da festa à padroeira, padrinho de casórios e baptizados, tous-bien, Manoel? Vien ici, vite, vite, se não queres apanhar no focinho.

Na aldeia despovoada de força braçal, a velhice matando o tempo e a viver as maleitas no Centro de Dia, o espaço com maior concentração de criaturas, o depósito de inertes rilhando solidões e aflições. Esperam a definitiva partida com o muito que foram e o tanto que fizeram. Ei-los, pasmados, intoxicando-se de programas televisivos obcecados com violações, infanticídios, raptos, tiroteios, facadas, cabeças serradas e pernas assadas com molho picante. O envelhecimento progride, a par de casas vazias, chagadas. Na aldeia cada vez mais desertificada e fechada sobre si mesma, sobrevive-se de reformas, de biscates e de produtos agrícolas estrangeiros das grandes superfícies da vila.


“Desmoronam moinhos, lagares, fornos comunitários, oficina de latoaria, palheiros, tabernas, chafarizes, calçada romana, muros de pedra sobreposta e solar setecentista”.

A contraciclo, rodovias de meter inveja à Eurolândia, saneamento básico renovado, transporte público subsidiado, rotundas cheias de fontes luminosas, moderno posto médico, parques infantis e jardins públicos dotados de aparelhos de ginástica, porquanto já passou a moda das casas mortuárias, espectáculos pimba e de orquestra sinfónica, piscinas de dimensão olímpica, ginásios para jovens e séniores, grandes e bem equipados centros de exposições, passeatas e banquetes a expensas da autarquia endinheirada. Ouçam ti Clotilde, na sua eficaz sabedoria: Anda o Mundo às avessas. Quando havia gente, não tínhamos nada. Temos tudo e falta gente. Tinha eu bôs dentes e nem côdeas enxergava, agora, de gengivas à mostra, é quem mais me oferece comidinha de luxo.

Agoniza a aldeia. Só um ou outro velho no amanho dos campos e um mancebo amigo do cacho afogado em panaché. Esvai-se a relação telúrica com a terra. Desmoronam moinhos, lagares, fornos comunitários, oficina de latoaria, palheiros, tabernas, chafarizes, calçada romana, muros de pedra sobreposta e solar setecentista. Em vésperas de eleições, as caravanas partidárias desancando na maldita desertificação. Depois, promessas untadas de banha da cobra. E a cidade dos empregos, apressada, deprimida, congestionada e tendencialmente arranhando os céus, e o betão armado em parvo alicerçando competições desenfreadas, invejas rançosas, consumismo predatório. A litoralização. O caos.

Entendamo-nos: Ninguém virou costas às berças sem naifadas no coração. O êxodo, o desenraizamento dilaceraram a alma. O requiem de um escrínio de vivências seria doloroso, posto representar a despedida do sentido de entreajuda, do pão da arca, da fruta com bicho, do fumeiro da salgadeira, do vinho de pipa, da avó e do cão coelheiro. Para trás, a apanha da azeitona, a partida da amêndoa, a ordenha das ovelhas lãzudas. As raças autóctones, a agro-indústria, o património natural e construído, a pureza dos ares e a liberdade dos bichos.

E regressa nos pomposos conclaves, no eco dos pantomineiros do costume, o palavreado lamuriento, a valorização da paisagem e do território, a agricultura sustentada e ecológica, o sector agro-alimentar, o turismo rural, o de natureza, o da saúde, o cultural, a gastronomia e o artesanato. Os investimentos emblemáticos, os projectos-âncora de desenvolvimento regional que atraiam e fixem populações, os recursos endógenos e bla, bla, bla para boi dormir e comunicação social divulgar.

Embriegados de sabença, daqui a uns tempos outros especialistas de merda amarela haverão de dissertar sobre a problemática da desertificação enquanto, no auditório, respiram ar condicionado e aromas da Gucci. Eu, pobre de mim, se Nosso Senhor consentir estarei no meu amado terrunho a arrenegar o pão plastificado de um turista que nem sequer sabe distinguir o lobo ibérico de um rafeiro pulguento.    

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