Desgooglar: sustentabilidade, ecossistemas e soberania

Créditos: Dylan Nolte (Unsplash)

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Poderíamos recorrer ao verso mais citado de Hamlet e adpatá-lo ao debate presente: “Desgooglar or not Desgooglar, is that the question?”. O desafio lançado aqui a semana passada por Luís Martinho do Rosário, que logo suscitou a vinda a terreiro de Fernando Boavida e alguns comentarios na Caixa de correio, continua vivo. Ainda bem, porque o assunto é sério e merece a discussão.


António Dias Figueiredo

A alegoria da Tragédia dos Comuns mostra que quando se partilha algo que não é de ninguém, como um campo que é posto à disposição de todos, para que o cultivem livremente, cada um irá explorá-lo no seu próprio interesse, ignorando os interesses dos outros e do coletivo, até que o campo fique destruído e não sirva para ninguém. Segundo a alegoria, a solução é entregar o campo a quem tenha posses para o murar, que passará a geri-lo e a cobrar pelo seu uso. Para alguns, esta alegoria mostra que o capitalismo, apesar dos seus defeitos, pode evitar a destruição do coletivo pela incúria individual.

O espaço social das tecnologias e o espaço virtual da Internet vivem há muito a tragédia dos comuns, onde existe a convicção de que aí tudo é de todos: um espaço comum que cada um pode usar como quer. Por estranho que pareça, ninguém se lembra de que o software e as tecnologias resultam do trabalho de pessoas como as outras, que ambicionam ter casa, comer todos os dias, pôr os filhos a estudar e tirar férias. Assim se generalizou a ideia de que o software, a Internet e tudo o que sobre eles circule tem de ser de graça.

Como o modelo não é sustentável, pôs os capitalistas em campo. Se os utentes querem usar mas não querem pagar, há que criar soluções que evitem que o espaço comum acabe destruído e ao abandono. A solução foi o pagamento em espécie. Os utentes não pagam em dinheiro, mas cedem os dados da sua privacidade. E os utentes, pelos vistos, aceitam, entregando a alma ao diabo a troco de uma borla.

Até aqui, a moral da história é simples: se os utentes pagassem pelo que usam, não precisavam de entregar a alma ao diabo. A história é, no entanto, mais complexa. Primeiro, porque as grandes empresas criaram ecossistemas onde as suas aplicações comunicam umas com as outras, convergindo em espaços próprios e murados, na “nuvem”. Segundo, porque as grandes empresas têm um imenso poder de fogo. Dois meses depois do início da pandemia, Google e Microsoft já tinham expandido os seus recursos integrados e ferramentas para aulas e videoconferência muito para além das soluções avulsas da concorrência.

É aqui que surge o problema da soberania. Para um cidadão minimamente competente nas coisas da informática, é possível juntar soluções avulsas e improvisar (por vezes com dificuldade) algumas pontes entre ecossistemas. Para as administrações, o risco é elevadíssimo. Quem assumiria a responsabilidade pela adopção de um sistema heterogéneo de soluções avulsas, para uso por dezenas de milhares de utilizadores, de todos os níveis, em domínios críticos como a saúde, as finanças, a segurança ou a educação, arriscando-se a que passados alguns meses essas soluções deixassem de comunicar entre si ou o todo não pudesse evoluir?

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